30/04/2012

Cena Independente #4 - abril

Último dia do mês! Não tem erro: é dia de Mixtape Cena Independente, um projeto baseado no Music Alliance Pact. Nele blogs nacionais especializados juntam o que há de mais novo e relevante na música independente de seus estados em uma coletânea mensal, publicada por todos sempre no último dia de cada mês. 

A organização fica por conta do FUGA Underground, enquanto todos os meses um blog diferente fica encarregado da elaboração da arte da capa por um artista da sua região. Ficamos a cargo da capa da mixtape de abril, e convocamos para a missão o esperto Luciano Costa, também guitarrista do Colorphonic. Outros trabalhos do rapaz podem ser vistos no Flickr dele.


Para a coletânea de março, indicamos a música She Said, do Quick White Fox. Ela foi lançada através de um clipe/curta-metragem bacanudo dirigido por João Solda, aquele que foi indicado ao VMB do ano passado, categoria Melhor Clipe, com o vídeo de "Andei", da rapper Lurdez da Luz.

Curtiu a ideia do Cena Independente? Tem um blog de algum dos estados que não estão na lista e quer entrar nessa pira? Manda e-mail para a Clara Cortêz, do FUGA Underground, em mixtape.cenaindependente[arroba]gmail.com 
ou para a gente em defenestrandoblog[arroba]gmail.com

Clique aqui para o streaming no Soundcloud. Ou vá até o final do post para encontrar o player da mixtape.


Abaixo, detalhes sobre cada faixa da mixtape #4:


RIO GRANDE DO NORTE: FUGA Underground
Luiz Gadelha – Não Tem Graça
pop
Luiz Gadelha é baixista e um dos principais compositores da banda mais querida do público natalense atualmente: o Talma&Gadelha. Apesar do sucesso recente, sua história na música potiguar já tem longos anos. Bastante eclético, o músico já esteve ligado desde projetos de MPB a drum ‘n’ bass. Em março passado, Luiz lançou Suculento, seu primeiro disco solo. O álbum é marcado por composições singelas e delicadas, que revelam sempre um compositor apaixonado. Falando de saudade, Não Tem Graça aparece como uma das faixas fortes do disco.
Para quem gosta de: Ludov, Pato Fu, Penélope

MINAS GERAIS: Meio Desligado
Leonardo Marques – Linha do trem
indie/folk/lo-fi
Uma nostalgia melódica marca o CD de estreia de Leonardo Marques, Dia e noite no mesmo céu. Suas canções remetem a cenários bucólicos, românticos e solitários, alguns deles bucólicos, como nesta Linha do trem. Membro do Transmissor, banda mineira em constante ascensão, e ex-guitarrista da Diesel (posteriormente Udora), banda pós-grunge de relativa fama, em seu trabalho solo Leonardo gravou todos os instrumentos (exceto bateria) em um esquema caseiro e intimista. 
Para quem gosta de: Elliot Smith, Clube da Esquina, Jon Brion

SÃO PAULO: Move That Jukebox
Curumin – Selvage
pop/reggae/neo-MPB
O gingado e o andamento de Selvage lembram, de forma inusitada, Friday Night, de Lily Allen. Mas as semelhanças param por aí. A novidade do multi-instrumentista é cheia de brasilidades, dessas que percorrem o pop fácil e ritmos locais em segundos. A guitarra é quase regueira e libera acordes tímidos, enquanto a bateria eletrônica é a base ideal para a voz de Luciano Nakata passear pelos versos da música. Selvage é parte de Arrocha, novo disco do Curumin.
Para quem gosta de: Céu, Criolo, Lucas Santtana

PERNAMBUCO: AltNewspaper
Raoni Santos – Ruído Intencional
instrumental/experimental/eletrônico
Ruído Intencional é uma faixa que integra um projeto de experimentos assinado com o nome do músico Raoni Santos. São faixas em que são testadas as liberdades proporcionadas pela música instrumental. Nesta proposta, os elementos eletrônicos e de ambiência estão mais presentes, diferente do seu outro projeto, o Crooneres Decadentes, que têm composições com letras. No entanto, em ambos, o músico compõe, toca e realiza toda a produção das faixas.
Para quem gosta de: Hurtmold, Toe, Constantina

RIO DE JANEIRO: RockinPress
Tipo Uísque – Bend Your Knees
alternativo/funk
Nasceu assim, “um nome direto, tipo Uísque” e já anotam dois EPs: Afague e Home, ambos pelo selo SLAp (Som Livre Apresenta). A banda se apresentou no palco do Lollapalooza no dia do Foo Fighters – escolha que aconteceu talvez pelo som pesado e bem arranjado que o sexteto produz. Além de terem feito parte da novela Malhação e terem três ex-integrantes do programa Geléia do Rock, já ganharam os palcos de outros grandes festivais do país e abriram para várias bandas internacionais. 
Para quem gosta de: Red Hot Chilli Peppers, The Gossip, The Mars Volta

PARAÍBA: Atividade FM
Glue Trip – Júlio
dub/chillwave/psicodélico
A concretização de um projeto musical veio para expandir a diversidade sonora da Paraíba. Formado pelos guitarristas Lucas Moura (Monstro) e Felipe Augusto, o projeto (que existe há três anos) lançou em abril sua primeira música do primeiro EP. Foi de impressionar que com o lançamento de apenas uma música a batida “viajosa” do duo agradaria a tantos ouvidos.
Para quem gosta de: Peaking Lights, Clutch Hopkins, Omar Rodriguez Lopez

MARANHÃO: Shock Review
Souvenir – Pixel
rock/lounge/eletrônico/drum’n’bass
Com a proposta de fazer com que o público tenha várias sensações e sentimentos que só a música pode proporcinar ao mesmo tempo, a banda Souvenir começa 2012 divulgando o single Pixel, que será o “carro-chefe” para divulgação do trabalho da banda. Rock, jazz, trip hop, rock britânico, lounge, eletro-folk, eletrônico e drum’n’bass são os elementos que compõem todo o trabalho e essência da Souvenir, fazendo com que não deixeM nada a desejar para quaisquer outras bandas que seguem a mesma linha.
Para quem gosta de: Radiohead, MGMT, Gorillaz

PARANÁ: Defenestrando
Quick White Fox – She Said
indie-rock/eletrônica/pista de dança
O Quick White Fox é um quarteto de Curitiba formado por -- segundo as palavras da própria banda -- “três japinhas e um baiano”. Já com alguma experiência nos palcos da cidade, a guitarrista Naomi Sakaguchi e a baterista Mel Toda formaram o QWF algum tempo após terem deixado o Subburbia, outra banda de destaque do cenário indie curitibano. Junto a elas estão a tecladista Debs Sakaguchi e o guitarrista Gean Santos. A banda estreou em 2011 com o EP Summer Trip e lançou, em março de 2012, o clipe/curta-metragem da música She Said, inédita.
Para quem gosta de: Ting Tings, Little Boots, CSS

MATO GROSSO: Factoide!
Billy Brown e o incrível Magro de Bigodes – Só por Brincadeira
Se hoje existe um nome para se acompanhar de perto em Cuiabá, com certeteza é o BBiMB. Duo de powerpop que já tem uma pequena legião de fãs na capital mato grossense graças a uma grande performance ao vivo. Só faltava um registro, e esse foi lançado na sexta-feira-treze de Abril: O EP Groove do Malandro tem três boas músicas, mas, com certeza, Só por Brincadeira se destaca e é o hit da banda com  sua levada explosiva e estética que remete à música sertaneja, vertente musical que toma conta do Brasil.
Para quem gosta de: Dave Mathews Band, só que ao contrário (pela diferença de integrantes).

PIAUÍ: Uptune
Validuaté – Eu Só Quero Acabar Com Você
rock/experimental
Com a proposta de experimentação rítmica sobre o rock e outros ritmos, o Validuaté apresentou sua própria mistura de elementos da música brasileira e mundial. Combinações que juntam melodias de samba e batidas inspiradas em música pop inglesa dos ano 80, arranjos de vocais inspirados em sambas do século passado, levadas de drum’n’bass e riffs de surf music, ou melodias dançarinas sobre harmonias cíclicas e contagiantes, histórias fantásticas ou narrativas de amores eternos, estranhos ou mesmo de desamor.
Para quem gosta de: Tom Zé, Los Hermanos, Zéu Britto

BAHIA: el Cabong
Meu Amigo Pedro – Quem Diria
rock/fok/pop
O nome da banda já dá uma dica, mas só para quem conhece a obra de Raul Seixas um pouco mais -- já que é tirado de uma música de Rauzito que não é das mais populares. A inspiração é clara, e o som tem tudo a ver com o roqueiro baiano. Canções -- atenção -- canções, simples, leves, bem feitas, com foco nas melodias, por vezes até grudentas, embaladas com levadas rock, country, pop e folk quase sempre à base de violões, com vocais claros e bem definidos e letras bem sacadas, acima da média. A banda por trás sustenta tudo isso com guitarra, baixo e bateria, básicos, mas criativos. Ah! Ainda tem um sotaque baiano na medida. Acabam de lançar o EP Ali na Frente, com seis faixas. 
Para quem gosta de: Raul Seixas, Nando Reis, Ben Harper

ALAGOAS: Sirva-se
Imprensa Anônima – Por Trás do Céu
rock/pós-punk
A Imprensa Anônima já participa da cena local ha certo tempo, mas só agora os caras caíram em campo e ganharam força. O resultado disso tudo é a gravação do primeiro EP oficial do grupo. A banda agora se mostra mais madura e eficiente, com uma sonoridade própria e firmando cada vez mais sua identidade. O destaque vai para a música que dá nome ao material, Por Trás do Céu, que tem uma pegada certeira e empolgante, abrindo o EP e mostrando a energia da banda.
Para quem gosta de: Legião Urbana, The Jesus and Mary Chain, Plebe Rude

24/04/2012

Re-lato: a geração que nunca viu Los Hermanos

Como vocês sabem (ou vão descobrir agora), este ano aquela banda Los Hermanos completa 15 anos de carreira. Grupo de influência indiscutível, goste você ou não, como diz o título do texto que escrevi pro blog Pista 1, que fala sobre a coletânea Re-Trato, do site Musicoteca. O projeto reuniu vários artistas influenciados pelos Hermanos pra fazer versões das músicas da banda.

No meio da produção desse texto, dentro da minha cabeça foi se formando um relato sobre o meu laço com os barbudos, e já que hoje já falta menos de um mês para o Lupaluna 2012 (o Felipe já comentou aqui), que vai ter show do próprio Los Hermanos, achei válido aproveitar o momento. Lá vai:


Los Hermanos após o primeiro show da turnê 2012, durante o festival Abril Pro Rock, no Recife. Rodrigo Amarante ficou magro, como você pode bem perceber (foto: Rafael Passos/Divulgação)


Quando eu estava no colégio e o pessoal começava a gostar pra valer de música, havia uma clara divisão. Quem gostava de rock não ouvia MPB ou samba. Ou você ouvia Skank e Chili Peppers, ou então preferia Marisa Monte e escutava Caetano Veloso com seus pais. Não sei se era porque o pagode vivia seus tempos áureos, mas talvez por isso, existia esse certo distanciamento entre o que a gente achava legal e o samba ou outros ritmos mais “brasileiros”.

A coisa ainda iria piorar. Cresci mais um pouco e veio essa moda de ser indie. Gostar do alternativo, querer ser Strokes, ouvir bandas britânicas e, algumas vezes até desprezar o nacional. Eu sei que nessa época o Los Hermanos já tinha uma legião de fãs, e lotava seus shows por aí. Mas era algo que ainda não tinha chegado até mim e meus 13, 14 anos. O fenômeno Los Hermanos pertencia a uma geração um pouco mais velha, e - sem querer apelar para estereótipos -, gente que já estava na faculdade.

Acontece que eu fui conhecê-los quando a banda já tinha uma carreira bem consolidada. Tão bem consolidada que, não demorou, e resolveram parar. Pararam no momento em que eu, depois de descobrir tardiamente o Bloco do Eu Sozinho e o Ventura, ainda digeria o 4. Achava tudo aquilo genial e nem tinha enjoado ainda. O auge da admiração por uma banda.

O Los Hermanos acabou e eu nem tinha visto um show sequer.

Os caras deram um tempo, mas a partir do momento que eu me tornei fã, abriu-se um precedente para que eu aceitasse melhor a música brasileira. E eu, assim, meio por fora, não sabia que eles eram realmente reconhecidos. Me espantei um dia que li por aí que Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante podiam ser considerados o Chico e Caetano da nossa geração, porque eu sabia da dimensão que esses nomes tinham, mas tinha muito mais ouvido falar sobre eles do que as suas músicas, propriamente.

Aquela divisão da época do colégio, então, tinha se quebrado. Despertou em mim um sentimento de que a gente pode ser eclético e levado a sério ao mesmo tempo. Não deixei de gostar das bandas britânicas, e nem virei o maior fã do mundo de Chico Buarque. Até por isso, juntar os dois gêneros, como fez o Los Hermanos, talvez componha um estilo que mais me interessa até hoje. Bote aí Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Móveis Coloniais de Acaju, e por aí vai.

O curioso é que, apesar de eu ter me tornado um fã atrasado, de certa forma virei também um dos mais precoces de uma geração. A geração de fãs que nunca viram Camelo e Amarante juntos ao vivo, nunca contaram os dias ansiosamente pelo lançamento de algo novo. Muita gente mais nova viria conhecê-los ainda depois de mim. Recentemente estive num show do Marcelo Camelo e fiquei a observar o perfil do público que chegou cedo pra pegar os lugares da frente. E vi, mesmo, uma grande porção da plateia ocupada por gente jovem que, se não foi um pouco mais precoce do que eu, certamente não chegou a ver o Los Hermanos ao vivo. Quem sabe o chegar cedo, pegar um lugar na frente, não seja um sinal da ansiedade que esse público tem de ver pelo menos um deles de perto.

Além de shows como esse, os discos solo do Camelo e o do Amarante com o Little Joy serviram nesse tempo pra dar um pouco do gosto do que era ser fã de Los Hermanos na época em que eles eram ativos.

Mas nessa última sexta-feira, lá no Recife, eles voltaram. E dessa vez não só pra abrir pro Radiohead, ou pra fazer alguns shows lá pelo nordeste, como já aconteceu em anos passados. Uma turnê de verdade, que até vai passar por aqui, e acabar de vez com a espera minha e de toda essa geração.

Bateu um frio na barriga, confesso. Daqueles de quando você está prestes a encontrar alguém importante que ainda não conhece. Pouco mais de três semanas nos separam do dia 18 de maio, primeira noite do Lupaluna, quando finalmente a turnê encontra Curitiba e enfim seremos apresentados.

Muito prazer, Los Hermanos. Já ouvi muito falar de vocês...

08/04/2012

Música Boa da Quinzena: Tudo o que eu sempre sonhei - Pullovers

Música Boa da Quinzena. O quadro que nunca respeita a frequência prometida está de volta. E agora com uma música que não é nenhuma novidade: Tudo o que eu sempre sonhei, de 2009, é a música-título do quarto álbum da extinta banda Pullovers.


Não fosse um indie melódico e lamentoso, Tudo o que eu sempre sonhei, composto por Luiz Venâncio, seria um rap. A letra extensa e quase falada retrata (com uma precisão admirável) as... agruras -- será mesmo essa a palavra? -- sofridas pela juventude vinte-e-poucos-anos classe média-alta/média-média brasileira. Baixa auto-estima presente desde o berço parece ser o sintoma mais visível.

Feio, meio assim desconfiado,
perna em xis, já barrigudo,
duvidando que eu conseguisse crescer.
Mesmo assim, contudo,
o tempo foi passando
e eu fui adiando, mudo,
os grandes dias que ia conhecer
Quem sabe amanhã, próximo ano
Cebolinha com seus planos
infalíveis ia me ensinar a ser
forte, corajoso e bom de bola
um dos bonitos da escola
muito embora eu nem fizesse questão

Fim da década de 2000, início dos anos 10. O Brasil cresce a passos largos, a economia se estabelece. O poder aquisitivo aos poucos vai subindo e a qualidade de vida, de um modo geral, melhora (o muito ou pouco que seja). Posto tudo isso, a juventude classe média brasileira sofre agruras? De algum modo torto, sim.

Ou não. Talvez seja justamente a falta delas. Depois de ditadura, caras pintadas e inflações ridículas, a agrura deixa de ser um mundo complicado e passa ser a própria vida -- que o jovem agora começa a enfrentar enquanto recém-adulto. A faculdade para pagar, a namorada para arranjar, os pais para agradar. O futuro e o emprego certo a escolher. Tanto drama.

Ainda bem que eu sou brasileiro,
tão teimoso, esperançoso,
orgulhoso de ser pentacampeão,
já que se eu fosse americano
pegaria uma pistola
e a cabeça ia perder a razão
mataria quinze na escola,
estouraria a caixola
e apareceria na televisão

Drama pior é o que vem depois disso. Para quê se matar de estudar e se formar na faculdade? Para quê agradar os pais? Para quê se esforçar e se esforçar mais ainda a ser uma pessoa honesta e de bem? Há algum sentido em tudo isso? Há alguma recompensa? Será que seus sonhos serão realizados? Quais são seus sonhos? Que espécie de sonhos são esses? E se seus sonhos forem conquistados, o que vem depois?


E por fim cresci, de insulto em insulto
eu me vi como um adulto,
culto, pronto pra o que mesmo? Já nem sei
[...]
Tudo que eu sempre sonhei
Tanto que eu consegui
É tão bom estar aqui
Quanto ainda está por vir

Tanto drama. O jeito é esquecer tudo isso e viver. Ir ao bar de vez em quando, tentar ser feliz. Voltar à vida normal na segunda-feira seguinte.

Mas bobagem, quanta amargura,
eu já sei que a vida é dura,
agora é pura questão de se acostumar
Basta ter coragem e finura
e o jogo de cintura
aprendido dia a dia, bar em bar
Pra que reclamar se tem conhaque,
se na tevê tem um craque
e o meu Timão só entra pra ganhar?
Pra que imitar Chico Buarque,
pra que querer ser um mártir
se faz parte do momento se entregar?

Para quê querer ser um mártir se faz parte do momento se entregar? Eis a passividade de um povo (ou, mais especificamente, do jovem) que pouco se manifesta. A corrupção está aí. Há a pobreza. As drogas. O aquecimento global, florestas devastadas. Nossa reação é quase sempre a mesma cara de paisagem -- acompanhada de uma grande esperança de que algo ou alguém fará com que, no futuro, as coisas sejam melhores.

[...]
pensando que então, dali pra frente,
seja qual for tua idade,
o melhor ainda vai estar por vir.

É muita coisa. E, ao mesmo tempo, não é nada. E há drama. Estamos perdidos entre os nossos próprios problemas (tão pequenos, mas que parecem crescer à medida em que os encaramos) e os problemas do mundo. Mas sabemos -- no fundo, no fundo -- que no final vai dar tudo certo.

Tudo o que eu semprei sonhei é um retrato fiel de mim, de você, de todos nós que, por exemplo, iremos fechar a aba do navegador após a leitura deste texto, faremos cara de paisagem, lamentaremos qualquer coisa e seguiremos a vida normal (cheia de horas corridas e parcelas a pagar).


Vale a leitura da letra completa da música aqui.

01/04/2012

Cena Independente #3 - março

Olhaí: final de mês e é época de soltar mais uma coletânea Cena Independente, esse ótimo projeto capitaneado pela Clara Cortêz do blog FUGA Underground, de Natal (RN). Baseado no Music Alliance Pact, o objetivo aqui é reunir blogs de diversas regiões do país para montar uma mixtape com o que há de novo e relevante em seus estados. 

A arte da capa é feita em rodízio: a deste mês é de Marcelo Santiago, do Meio Desligado

Legal ver que a cada edição da mixtape a qualidade das músicas escolhidas só parece melhorar. Mesmo reunindo sons bem variados (que vão do moderninho ao rap, passando pelo trash e pelo folk), tudo está coerentemente ordenado pelas mãos de Clara, que se encarregou de juntar as 12 músicas indicadas pelos 12 blogs e organizar tudo numa sequência boa e lógica.

Para a mixtape de março, o Defenestrando indicou a música K.A.C.C. (Rough Love), que está no recém-lançado e ótimo EP de estreia do Naked Girls & Aeroplanes. Abaixo tem mais informações sobre ela e sobre todas as outras faixas que estão na coletânea. 

Curtiu a ideia do Cena Independente? Tem um blog de algum dos estados que não estão na lista e quer entrar nessa pira? Manda e-mail para a Clara em mixtape.cenaindependente[arroba]gmail.com ou para a gente em defenestrandoblog[arroba]gmail.com

Clique aqui para fazer o streaming no Soundcloud. Ou vá até o final do post para encontrar o player da mixtape.


RIO DE JANEIRO: RockinPress
Mahmundi – Desaguar
chillwave/indie
Mahmundi é o projeto onde Marcela Vale se descreve em cores variadas, deixando aflorar seus sentimentos e de forma bonita, quase juvenil. Ouvir letras tão afogadas no amor e ao mesmo tempo destoadas por um instrumental dançante, com um timbre próprio e envolvente, fazem a música de Mahmundi ser ainda mais plural, mais contagiante. É fácil se encontrar dentro das canções do seu primeiro EP, Efeito das Cores – seja dentro de uma pista de dança ou feliz ao encontrar um amor. Afinal, a música nasceu para demonstrar sentimentos e, com essa magia, Marcela sabe se expor.
Para quem gosta de: Toro Y Moi, El Guincho, Tulipa Ruiz

PARANÁ: Defenestrando
Naked Girls and Aeroplanes – K.A.C.C. (Rough Love)
folk/fofura
Formado por Rodrigo Lemos (d’A Banda Mais Bonita da Cidade e Lemoskine), Artur Roman e Wonder Bettin (ambos do Sabonetes), o Naked Girls and Aeroplanes é um desses grupos que combinam fofura e acordes que soem da melhor forma possível para chegar em algum ponto profundo e sentimental. Na música K.A.C.C. (Rough Love), o trio parece misturar inocência e sensualidade a partir de arranjos vocais cuidadosamente planejados. A faixa está no EP de estreia da banda, lançado em fevereiro deste ano.
Para quem gosta de: Florence + The Machine, Cícero, Rosie and Me

SÃO PAULO: Move That Jukebox
Some Community – Head and Tail
indie/dream/pop
A bateria quase marcial marca os primeiros segundos do novo single dos paulistanos do Some Community. O baixo e o backing vocal do ex-Volantes Bernard Simon também são destaques nessa nova fase da banda -- que volta em 2012 com EP novinho e shows recentes no SXSW no currículo. Head and Tail, que já ganhou até um belíssimo vídeo, é cheia de climas etéreos, guitarras agudas e oníricas e teclados vibrantes com melodias singelas. A doce voz de Juliana Vacaro é a cereja do bolo. E, em cinco minutos, o Some Community mostra que muita coisa mudou – pra melhor – desde RinoRino, EP debut da banda, de 2010.
Para quem gosta de: Warpaint, Cambriana, Local Natives

PERNAMBUCO: Altnewspapper
Daniel Araújo – Estero Bla
ambient/experimental/instrumental/lo-fi
Daniel Araújo, artista responsável pela “cara” da Cena Independente #2, retorna nesta edição agradando desta vez aos ouvidos. Neste mês o músico lançou seu primeiro registro solo, todo feito em casa e seguindo a verve instrumental característica dele em suas bandas. O álbum se chama De Dentro do Ser e a faixa escolhida é a bela Estero Bla, uma sobreposição de camadas dançantes bem agradáveis. O jogo de letras que dá nome a música deixa claro a principal influência da mesma. Decifre o mistério ouvindo...
Para quem gosta de: Hurtmold, Tortoise, Monodecks

MINAS GERAIS: Meio Desligado
Psilosamples – Olho de Cabra
eletrônica experimental/IDM
Por vezes soando como uma "IDM tropical", as músicas do Psilosamples utilizam samples, timbres vintage e ritmos quebrados de forma lo-fi e experimental. Oriundo do interior de MG, o Psilosamples tem crescido no circuito eletrônico alternativo, como sua presença no importante festival Sónar (em suas edições brasileira e espanhola) prova.
Para quem gosta de: Daedelus, Girl Talk, Squarepusher

BAHIA: El Cabong
Opanijé – Se Diz
rap/hip hop
O rap baiano poucas vezes ultrapassou as fronteiras do estado. Quem promete mudar isso é o Opanijé, grupo formado em 2005 e com o primeiro disco prestes a ser lançado. Dois MCs e um DJ unindo elementos clássicos do rap -- samples bem sacados, batidas e crítica social -- com ritmos afro-baianos, cânticos do candomblé, percussão e uma criatividade que às vezes entorta o ideal rapper. 
Para quem gosta de: Racionais MC's, Beastie Boys, Tincoãs

MATO GROSSO: Factóide
Macaco Bong – Japabugre
rock instrumental
O EP Verdão e Verdinho possui uma grande simbologia, já que foi o primeiro material gravado depois que o Macaco Bong se mudou de Cuiabá, mas tem a influência forte da viola pantaneira. Eles não sabiam, mas também foi o último registro de estúdio com Ney Hugo, da formação clássica do Macaco, que deixou a banda recentemente para dar lugar ao mineiro Gabriel Murilo.
Para quem gosta de: Mogwai e Slint

ESPÍRITO SANTO: Ignes Elevanium
Manfredines – Silêncio
rock
Manfredines é uma das mais interessantes bandas capixabas que fazem parte desse novo rock nacional -- liderado por bandas como Los Hermanos e Móveis Coloniais de Acaju. Porém a banda não toma suas influencias diretamente desses nomes, e sim de nomes dos anos 80, como Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso. Conclusão: temos uma sonoridade nova e moderna, mas com a mesma qualidade e profundidade das bandas do passado. Influências inclusive da música internacional como Radiohead figuram evidentes na sonoridade da banda, especialmente no single Silêncio, lançado em 2011, que é um excelente exemplo do som dos caras. A banda está pra lançar novo material em 2012.
Para quem gosta de: Radiohead, Los Hermanos, Titãs

RIO GRANDE DO NORTE: FUGA Underground
The Red Boots – Suicide
rock alternativo/thrash metal/desert rock
Os Red Boots lançaram seu álbum de estreia Aracnophilia no final de fevereiro, pelo Projeto Incubadora do DoSol Netlabel. Com uma sonoridade densa que contrasta com a formação simples de um duo de guitarra e bateria, e usando de forma inteligente referências das mais diversas dentro do rock e do metal, a banda mossoroense criou um disco cheio de personalidade. Ecos de Metallica, Sonic Youth e Motörhead podem ser sentidos em Suicide, uma das faixas que dão a tônica do álbum.
Para quem gosta de: Metallica, Sonic Youth, Motörhead

PARAÍBA: Atividade FM
Johnny – BLEFE
indie rock/garage rock
Johnny é uma banda estreante no rock paraibano que começou a ganhar certa fama divulgando alguns singles avulsamente com qualidade. A banda é formada apenas por Gabriel Romio e Leon Guimarães, que gravam as músicas sozinhas num estúdio, mas que nas  suas apresentações contam com músicos de apoio. É perceptível uma grande influência de bandas britânicas de indie rock, como aquele Arctic Monkeys do início, principalmente nas letras que falam sobre relacionamentos e nas suas guitarras rápidas e dançantes.
Para quem gosta de: Vivendo do Ócio e Selvagens à Procura da Lei

Godzilla – Insolação
punk
A banda Godzilla vem do Estado do Amapá -- especificamente do município de Santana. Suas conexões psíquicas suprem essa distância com uma leitura atualíssima, sexy, desolada, sagaz e urgente do rock e das relações humanas, como se vivessem em uma megalópole destruída pelo monstro japonês que lhes empresta o nome.
Para quem gosta de: Ramones, Misfits, Sex Pistols

ALAGOAS: Sirva-se
Interrompidos - Igual à Minha Vida
rock/MPB/blues
Após uma série de mudanças, a Interrompidos se fortalece entre as bandas alternativas de Alagoas. Com o lançamento recente do EP interrompidos e do clipe Igual a minha vida a banda que mistura Rock and Roll, Blues e MPB, vai se inserindo em um novo cenário onde já conseguiu o seu destaque. Com nove faixas, o disco simboliza bem a transformação e evolução musical do quarteto. Letras mais introspectivas e reflexivas junto a um instrumental equilibrado são o ponto alto da banda. O destaque da vez vai para a música que dá nome ao primeiro clipe da banda.
Para quem gosta de: Made In Brazil / Secos e Molhados / Mutantes