Noite gelada e chuvosa em Curitiba. Pouco depois da meia-noite de domingo, 8 de julho, duas ou três centenas de pessoas aguardavam pelo início do show do Madrid, a atração principal do Zebra Stage, que acontecia no Espaço Cult, no centro histórico da cidade. Fora dali, nos bares e casas dos arredores do São Francisco, nos bairros de Curitiba e mesmo país afora, milhões de pessoas aguardavam o começo do que alguns (Galvão Bueno entre eles) convencionaram chamar de "A Luta do Século": Anderson Silva e Chael Sonnen se enfrentariam no embate principal do UFC 148.
O Madrid chamou a atenção pela sua formação: trata-se de uma reunião de ninguém menos que Marina Vello e Adriano Cintra, ela ex-Bonde do Rolê e ele ex-Cansei de Ser Sexy -- simplesmente duas das bandas brasileiras entre as que mais obtiveram destaque internacional durante a década de 2000. O Bonde do Rolê surgiu em Curitiba: três branquelos mandando ver em um funk carioca escrachado e nem um pouco comportado. Em pouquíssimo tempo as batidas do trio ganharam fama e destaque além-mar, e era até engraçado e irônico ver que, em um país que possui um Rio de Janeiro repleto de artistas que levam o funk carioca a sério, o nome de maior sucesso internacional no gênero era justamente o Bonde do Rolê, que nada mais era do que um trio de garotos curitibanos que levavam tudo isso como uma grande piada.
O sucesso do Bonde veio pouco tempo depois do enorme estouro do Cansei de Ser Sexy, encabeçado e regido pelo baterista e produtor Adriano Cintra. Entre as cinco garotas que completavam a escalação do grupo, Lovefoxxx era a vocalista artilheira a incendiar plateias por onde quer que o CSS passasse (a moça foi eleita pela NME como a terceira personalidade mais cool do ano de 2007). Let's make love and listen death from above foi uma das músicas do verão europeu daquele ano e Music is my hot hot sex foi o mais-bem-posicionado single que algum grupo brasileiro conseguiu colocar em uma parada da Billboard.
Já na década de 2010, Anderson Silva também é uma das personalidades brasileiras de maior destaque no estrangeiro. Aclamado por muitos como o maior lutador de MMA (Mixed Martial Arts) de todos os tempos, Silva vive hoje o maior momento de sua carreira e, na luta de sábado, defenderia seu cinturão na categoria peso médio e uma sequência de 15 vitórias, a maior na história do Ultimate Fighting Championship -- empresa que está completamente na moda no Brasil.
Brigas e escarcéu
Um enorme bate boca entre Marina Vello e Pedro D'Eyrot talvez tenha assustado os ingleses que foram ao Scala, bar de Londres em que o Bonde do Rolê fez show no dia 22 de novembro de 2007 (segundo o blog With Lasers noticiara no dia seguinte). Dali a algum tempo Marina Vello sairia do grupo e, para preencher seu lugar, o Bonde do Rolê se chafurdaria em um concurso feito via MTV para eleger uma nova vocalista. Duas acabaram sendo escolhidas, e a estreia delas em uma apresentação no VMB 2008 não agradaria a ouvidos mais exigentes.
Clima tenso também não faltou à saída de Adriano Cintra do Cansei de Ser Sexy. Há poucos meses, um comunicado publicado por Cintra em seu facebook avisava que, como orientado por seus advogados, estava tornando público que ele não faria mais parte do CSS. Mais tarde, em um vídeo colocado no YouTube em março de 2012, Cintra não poupou críticas pesadas às remanescentes do grupo, tornou públicas desavenças internas (deu nomes aos bois e expôs valores financeiros) e só faltou xingar as garotas da banda. Seria um nocaute? Elas agora seguem com as atividades sem a cabeça pensante do CSS.
Xingar? Talvez não tenha sido nem isso o que Chael Sonnen fez nos meses que antecederam a luta com Anderson Silva. Falastrão, Sonnen berrou aos quatro ventos tudo o que fosse desrespeitoso e, em uma entrevista coletiva, metralhou o que seria a sua a declaração mais repercutida: "As mulheres daqui [Brasil] são ótimas comigo. Fiquem à vontade para me ligarem e me fazerem uma visita. Minha impressão sobre o Brasil estando aqui é muito parecida com a que já tinha. Quando era criança, me lembro de conversar com meus amigos. Nós falávamos sobre as últimas novidades da tecnologia, medicina, jogos e da ingenuidade americana. Olhava para fora e via Anderson e as crianças brasileiras brincando na lama". Declarações como essa deram motivos para que qualquer simples simpatizante do UFC se transformasse em um feroz torcedor pela derrota de Sonnen.
E de algum modo tudo isso parecia estar sintetizado simultaneamente -- no Espaço Cult e em Las Vegas -- na última madrugada de sábado para domingo.
Cassim abriu a noite no Zebra Stage
Let's get it on (ou: it's time to rumble)
Tal qual as lutas de um card preliminar do UFC servem mais para esquentar o público para a atração principal que virá mais tarde, o show de Cassim (ex-Cassim e Barbária) na abertura do Zebra Stage fez muito bem esse papel de aquecimento: o rock sideral pé-na-estrada e competente de Cassiano esquentou os amplificadores e o ar do Espaço Cult. Talvez tenha esquentado até demais -- já que o calmo e sério Madrid, a atração principal que viria logo a seguir, nada tinha de pesado ou agressivo ou rock. Pensando logicamente, pela ordem o show seguinte seria o dos curitibanos do Rosie and Me, também escalados para o evento, mas por questões logísticas (melhor descritas pelo bom e velho Cristiano Castilho aqui) a ordem mudou, o Madrid passou a ser a segunda atração e o grupo de Rosanne Machado fecharia a noite.
Aí algo acontece, e de maneira semelhante aos intervalos entre as lutas do card principal do UFC, o show parece demorar uma eternidade para começar (a discotecagem certeira muito ajudou a amenizar a demora) e é só depois de um longo intervalo é que Marina Vello e Adriano Cintra sobem ao palco, acompanhados de um guitarrista e um baterista que muito parecia o Digão, do Raimundos -- que mais tarde seria revelado como um cara problemático, como se verá na sequência do texto.
Ali fora do Espaço Cult, em Las Vegas e nas televisões de todo o país, a luta entre Silva e Sonnen começava morna: já aos primeiros segundos o americano derruba Silva no chão e durante o primeiro round quase inteiro os dois ficam sempre ao solo, com Sonnen sempre dominando. Os cinco minutos iniciais são quase chatos -- a exemplo do Madrid, que até impressiona e agrada nos primeiros números, mas depois... depois você se acostuma e sente um pouco de sono. Ao vivo, as delicadas canções do álbum de estreia do Madrid (que não foi lançado oficialmente mas já circula por aí) ganham mais corpo e força. As músicas são boas, mas muito iguais. Um observador menos atento poderia sair da frente do palco, ir ao banheiro, comprar uma cerveja, conversar com os amigos e, ao voltar, teria a impressão de estar ouvindo a mesma música.
Afastado das luzes e no canto do palco, Adriano Cintra parece fazer o mesmo que fazia no CSS: ofuscar o brilho do próprio trabalho ao levantar a bola na área para uma outra garota fazer o gol e receber os louros: quem chama atenção agora não é mais Lovefoxxx, mas Marina Vello, que com um visual muito mais comportado do que o visto no Bonde se revela moça de beleza singular e uma voz incrível (por onde esse rosto e essa voz andaram o tempo todo??).
Marina Vello não lembra em absolutamente nada sua própria figura no Bonde do Rolê
Mas... é isso. O show acaba, e é como se nada muito grande tivesse acontecido. Como o primeiro round da luta entre Silva e Sonnen, que acabou chato demais para o que se aclamava ser a luta do século.
Nocaute técnico
O segundo round começa. Silva se segura, não permite que Sonnen o derrube no chão novamente e encaixa alguns socos que deixam o americano desorientado, a ponto de Sonnen errar grosseiramente uma tentativa de golpe no esquivante brasileiro e ir ao chão com uma expressão desconcertada. Silva se agacha em frente ao adversário e prepara a vitória.
Aí vem ele
Após mais um longo intervalo, o Rosie and Me sobe ao palco em uma configuração esquisita: a vocalista Rosanne Machado, o guitarrista Thomas Kossar e o baixista Guilherme Miranda estão espremidos no canto esquerdo, enquanto o baterista Tiago Barbosa está isolado na outra ponta. Olhos em chamas, a cada intervalo Rosanne demonstra querer desferir impropérios contra a banda que subira ao palco antes dela e, ao que parecia, atrapalhara o esquema técnico da banda curitibana: "Garanto que para o baterista do Madrid o som não estava todo zoado", reclama a vocalista, extremamente desconfortável. Depois de alguma outra música, Rosanne explode: "Sério, pessoal. A gente não vai continuar esse show até que alguém venha arrumar o som". Uma voz masculina de alguém da mesa de som surge nos alto falantes, tentando acalmar: "Aqui na frente o som está bom". Um técnico sobe ao palco segundos depois, mexe em qualquer fio e sai, provavelmente sem encontrar maiores soluções. O show prossegue.
Após uma série de golpes de Anderson, Sonnen consegue se levantar, mas novamente Silva encaixa socos potentes e o americano vai ao chão. O brasileiro parte para cima outra vez e após mais alguns golpes o juíz interrompe a luta, declarando o nocaute técnico e a vitória de Anderson Silva.
"Queria agradecer de novo o Madrid por ter ferrado a nossa noite", reclama Rosanne -- conforme relembra Castilho. Rosie, sempre tão dócil e tímida, nesse momento está quase irreconhecível. (Observação pessoal: apesar das reclamações, o som não está tão ruim quanto ela faz parecer. Vi shows da banda em que o som estava pior. O caso ali parecia mais ser a gota d'água de algo que teria acontecido antes). Ela agradece ao público que resiste às condições e ao horário avançado e, antes da última música, desabafa que é a primeira vez que fica aliviada de anunciar que o show estava terminando.
Anderson Silva levanta o cinturão. Quanta luta.
---
Bacana: entre duas músicas, Rosanne anuncia que o Rosie and Me recebeu autorização para gravar seu ótimo cover de Ready for the floor, do grupo inglês Hot Chip. Notícia boa! A versão transforma um hit de pista de dança em algo muito mais profundo e tocante, e até então era uma pena não ter isso gravado em algum lugar. Vem coisa boa por aí.
---
**Crédito das fotos dos shows: Karla Gironda
---
Bacana: entre duas músicas, Rosanne anuncia que o Rosie and Me recebeu autorização para gravar seu ótimo cover de Ready for the floor, do grupo inglês Hot Chip. Notícia boa! A versão transforma um hit de pista de dança em algo muito mais profundo e tocante, e até então era uma pena não ter isso gravado em algum lugar. Vem coisa boa por aí.
---
**Crédito das fotos dos shows: Karla Gironda






3 comentários:
Muito boa a relação entre o show e a luta.... incrível percepção jornalística!
dócil é com "c", eu acho..
Fato! Feita a correção. Obrigado pelo toque.
Postar um comentário