25/07/2012

Entrevista - Apanhador Só

Um álbum de estreia lançado em um CD que vinha com as letras das músicas estampadas em cartões coloridos; uma fita K7 só de versões acústicas-sucateiras das músicas do primeiro disco gravadas com violão, brinquedos e sucatas dos mais variados tipos. Com o belo single Paraquedas materializado em um vinil branco de sete polegadas, o Apanhador Só encerra um périplo por lançamentos em formatos físicos inusitados.

Encerra? Será mesmo? Os guris da banda de Porto Alegre acabam de abrir um projeto de financiamento coletivo (o tão falado crowdfunding) com o objetivo de viabilizar a produção do próximo disco. Se conseguirem o valor necessário, uma nova preciosidade da musica indie brasileira deve surgir por aí e dar sequência aos ótimos trabalhos anteriores do Apanhador Só.

Aproveitamos a passagem da banda por Curitiba no início do mês (os apanhadores fizeram um grande show de lançamento de Paraquedas no Teatro Paiol) para bater um papinho com o guitarrista e vocalista Alexandre Kumpinski. Em uma rápida conversa de tarde fria e chuvosa passeamos pelo single, pelo novo álbum, pela rotina da banda e outras coisas mais. Acompanhe:


Divulgação

Como é isso de ter uma banda que toca país afora, de cujo som as pessoas parecem gostar e aprovar?
Cara, é uma loucura. Até hoje é curioso para mim pensar que, o que nós tocávamos na garagem lá de casa quando a gente era piá, hoje em dia faz sentido para pessoas espalhadas pelo Brasil inteiro, com vidas tão diferentes das nossas.

Vocês percebem que as pessoas se identificam com o som de vocês? Como é esse retorno do público?
É muito louco ver que muita gente posta [na internet] letras e partes das músicas, é uma satisfação. É muito bom ver que o que a gente está fazendo faz sentido para outras pessoas também. E ao mesmo tempo é curioso, ficamos nos questionando porque será que isso faz sentido para outras pessoas. Às vezes é algo que parece ser tão próprio da gente.

E a rotina de viajar para fazer shows? Ainda estão achando isso cansativo ou já estão acostumados?
É mais cansativo do que parece. As pessoas quando sabem que a gente está fazendo alguma turnê, dizem: “Bá, isso deve ser muito legal, muito divertido!” Até rolam momentos muito divertidos, mas tem momentos muito cansativos também. Carregar equipamento, pegar estrada, carregar e descarregar, montar o palco, passar o som, dormir pouco e cada dia em um horário diferente, comer em horários diferentes também. É uma batida diferente. No final de algumas turnês a gente já está bem cansado, bem a fim de voltar para casa para dar uma descansada.

Vocês têm vivido apenas em função da banda atualmente?
O Fernão [Agra, baixista] está fazendo faculdade de música, e o resto da banda está só tocando mesmo. A gente se envolve muito com o lance da produção, de organizar as coisas que vão além da música. É como se a gente tivesse dois empregos: o de músico e o de quem mantém a estrutura funcionando. O que hoje em dia acaba sendo a mesma coisa.

Falando de “hoje em dia”, até há algum tempo rolava essa coisa do álbum pensado como um conceito artístico, tipo o Sargent Pepper’s ter sido um álbum planejado como um todo. Em tempos de internet, em que as pessoas baixam um disco, ouvem uma vez só e esquecem, dá para encarar o álbum dessa maneira ainda?
Acho que dá, mas acho que para fazer um álbum conceitual desses é preciso de uma maturidade artística que nós ainda não temos. Mas o álbum ainda é o formato de consumo de música. Isso não se perdeu por enquanto, pelo que eu percebo. A galera curte baixar discos ainda. Porque se você lança músicas avulsas, você não consegue situar direito do que aquela música faz parte. Parece que ainda precisa do álbum para que a unidade "canção" tenha essa ligação com o formato, com um lançamento que diz que esse é o momento do artista. Tipo: “O nosso som agora é esse álbum, e dentro desse álbum são essas músicas.” Se a gente fosse começar a lançar só singles, ficaria tudo meio espalhado e você não conseguiria ter uma noção da história da banda.

Nesse sentido, como vocês planejam os próximos lançamentos do Apanhador?
Estamos lançando uma campanha no Catarse para financiar o lançamento do próximo disco, um álbum que vai ter umas 11 músicas, provavelmente. Se der certo, a gente entra em estúdio ainda esse ano para lançar no início do ano que vem.

As músicas novas estão prontas já?
Já temos 16 ou 17 músicas compostas, e dessas irão sair as 11 que farão parte do disco.

Qual foi a ideia do single “Paraquedas”?
Esse compacto... a gente lançou muito como um pré-disco, para testar alguns limites sonoros (técnicos até) que a gente estava querendo desenvolver no próximo disco. É como se fosse uma prévia do próximo álbum, que a gente ainda não sabe como que vai soar. É mais para não sairmos da experiência do primeiro álbum e do Acústico-Sucateiro e entrar direto no outro disco. Achamos que seria bom dar esse passo menor antes, até para nós vermos como que nós estamos. Uma transição.

E a ideia de lançar em vinil? Como vocês viram que isso poderia ser uma coisa viável, que valeria a pena?
Desde o primeiro EP a gente cuida para ter projetos gráficos interessantes. Porque se for para comprar um disco ou um objeto, e não só baixar o mp3 da internet, é bom que esse objeto seja interessante, para que a pessoa queira ter isso em casa. Como foram só duas músicas que a gente gravou... duas músicas são o formato clássico do compacto de antigamente, que era esse vinil de sete polegadas com o lado A e o lado B. E acabamos pensando naturalmente: “Ah, já lançamos CD, já lançamos fita K7, vamos lançar um vinilzinho agora!” Essa opção meio que surgiu naturalmente.

Saindo um pouco disso e falando de algo mais amplo: você consegue enxergar o Apanhador Só em um cenário nacional? Em termos de grande ou pequena... qual é a visão que você tem da banda, do tamanho dela?
A visão mais concreta que eu consigo ter é que, a partir do Rio Grande do Sul, a gente é a banda que mais cresceu e apareceu nos últimos dois anos, desde que lançamos o [primeiro] álbum. Hoje em dia a gente é uma das bandas mais ativas e reconhecidas de lá. Já para o Brasil como um todo... como o país é muito grande e tem muitas cenas e tudo o mais, já fica um pouco mais difícil de dizer. Mas acho que é isso, a gente existe no cenário nacional, e nosso primeiro álbum foi bem recebido, mais do que a gente esperava. E isso nos levou a um patamar que está até além do que a gente tinha imaginado para a banda. 


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