Música Boa da Quinzena. O quadro que nunca respeita a frequência prometida está de volta. E agora com uma música que não é nenhuma novidade: Tudo o que eu sempre sonhei, de 2009, é a música-título do quarto álbum da extinta banda Pullovers.
Não fosse um indie melódico e lamentoso, Tudo o que eu sempre sonhei, composto por Luiz Venâncio, seria um rap. A letra extensa e quase falada retrata (com uma precisão admirável) as... agruras -- será mesmo essa a palavra? -- sofridas pela juventude vinte-e-poucos-anos classe média-alta/média-média brasileira. Baixa auto-estima presente desde o berço parece ser o sintoma mais visível.
Feio, meio assim desconfiado,
perna em xis, já barrigudo,
duvidando que eu conseguisse crescer.
Mesmo assim, contudo,
o tempo foi passando
e eu fui adiando, mudo,
os grandes dias que ia conhecer
Quem sabe amanhã, próximo ano
Cebolinha com seus planos
infalíveis ia me ensinar a ser
forte, corajoso e bom de bola
um dos bonitos da escola
muito embora eu nem fizesse questão
Fim da década de 2000, início dos anos 10. O Brasil cresce a passos largos, a economia se estabelece. O poder aquisitivo aos poucos vai subindo e a qualidade de vida, de um modo geral, melhora (o muito ou pouco que seja). Posto tudo isso, a juventude classe média brasileira sofre agruras? De algum modo torto, sim.
Ou não. Talvez seja justamente a falta delas. Depois de ditadura, caras pintadas e inflações ridículas, a agrura deixa de ser um mundo complicado e passa ser a própria vida -- que o jovem agora começa a enfrentar enquanto recém-adulto. A faculdade para pagar, a namorada para arranjar, os pais para agradar. O futuro e o emprego certo a escolher. Tanto drama.
Ainda bem que eu sou brasileiro,
tão teimoso, esperançoso,
orgulhoso de ser pentacampeão,
já que se eu fosse americano
pegaria uma pistola
e a cabeça ia perder a razão
mataria quinze na escola,
estouraria a caixola
e apareceria na televisão
Drama pior é o que vem depois disso. Para quê se matar de estudar e se formar na faculdade? Para quê agradar os pais? Para quê se esforçar e se esforçar mais ainda a ser uma pessoa honesta e de bem? Há algum sentido em tudo isso? Há alguma recompensa? Será que seus sonhos serão realizados? Quais são seus sonhos? Que espécie de sonhos são esses? E se seus sonhos forem conquistados, o que vem depois?
E por fim cresci, de insulto em insulto
eu me vi como um adulto,
culto, pronto pra o que mesmo? Já nem sei
[...]
Tudo que eu sempre sonhei
Tanto que eu consegui
É tão bom estar aqui
Quanto ainda está por vir
Tanto drama. O jeito é esquecer tudo isso e viver. Ir ao bar de vez em quando, tentar ser feliz. Voltar à vida normal na segunda-feira seguinte.
Mas bobagem, quanta amargura,
eu já sei que a vida é dura,
agora é pura questão de se acostumar
Basta ter coragem e finura
e o jogo de cintura
aprendido dia a dia, bar em bar
Pra que reclamar se tem conhaque,
se na tevê tem um craque
e o meu Timão só entra pra ganhar?
Pra que imitar Chico Buarque,
pra que querer ser um mártir
se faz parte do momento se entregar?
Para quê querer ser um mártir se faz parte do momento se entregar? Eis a passividade de um povo (ou, mais especificamente, do jovem) que pouco se manifesta. A corrupção está aí. Há a pobreza. As drogas. O aquecimento global, florestas devastadas. Nossa reação é quase sempre a mesma cara de paisagem -- acompanhada de uma grande esperança de que algo ou alguém fará com que, no futuro, as coisas sejam melhores.
[...]
pensando que então, dali pra frente,
seja qual for tua idade,
o melhor ainda vai estar por vir.
É muita coisa. E, ao mesmo tempo, não é nada. E há drama. Estamos perdidos entre os nossos próprios problemas (tão pequenos, mas que parecem crescer à medida em que os encaramos) e os problemas do mundo. Mas sabemos -- no fundo, no fundo -- que no final vai dar tudo certo.
Tudo o que eu semprei sonhei é um retrato fiel de mim, de você, de todos nós que, por exemplo, iremos fechar a aba do navegador após a leitura deste texto, faremos cara de paisagem, lamentaremos qualquer coisa e seguiremos a vida normal (cheia de horas corridas e parcelas a pagar).
Vale a leitura da letra completa da música aqui.

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