O belo e fofo e encantador grupo curitibano Rosie and Me acaba de lançar seu primeiro álbum cheio: na última quarta-feira, por volta das cinco da tarde, o belíssimo disco Arrow of my Ways deu as caras pela internet e agora está aí, esperando o seu download gratuito lá no site oficial da banda.
Achei que essa seria uma ótima oportunidade para resgatar um texto que escrevi por volta de fevereiro de 2011 e que acabei não publicando. O texto deu uma leve empoeirada, mas ainda dá pro gasto. No final do post há algumas leves atualizações sobre os fatos em questão, mas se você prefere saber as novidades já de cara, corra aqui no Scream & Yell para saber de tudo bem direitinho.
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Feito um passarinho
Ou: sobre sentimentos, violões e o mar
Rosanne Machado em show no Paço da Liberdade
Um passarinho pousou, há alguns anos, em alguma orquestra de Wisconsin, nos Estados Unidos. Uma garotinha brasileira se esticava para tocar string bass, aquele contrabaixo enorme com 1,80m de altura. Ela não sabia ler partitura e, para não dar pistas, aguardava o momento exato em que o baixista que tocava do seu lado virasse a página. A atividade acabou não a agradando muito; enquanto estava em solos norte-americanos ela preferiu outras experiências musicais como, por exemplo, participar de um festival de música tocando com uma banda de folk irlandês.
Tempos depois, ela está de volta ao Brasil – mais precisamente em Curitiba. Agora com sua própria banda de folk (que não é irlandês mas, quem sabe, algum tipo de folk brasileiro) formada por ela e outros quatro rapazes, que na primeira noite de outubro de 2010 aguardam dentro de um camarim no centro da cidade. Do outro lado da parede, na aconchegante Sala de Atos do Paço da Liberdade, estão ocupadas todas as poltronas espalhadas ao redor de um tapete redondo que irá servir de uma espécie de palco. Nele se aglomeram, pronto para serem tocados, todos os instrumentos da banda que irá se apresentar dentro de poucos instantes. Isolado entre vários violões, um banjo chama a atenção no meio das outras cordas.
Os espectadores que chegam atrasados vão tentando achar algum lugar para ficar em pé, entre as últimas cadeiras e a parede. Duas ou três câmeras de vídeo profissionais erguidas acima de tripés altos irão registrar o acontecimento.
Faz-se silêncio. Por uma porta lateral entram ela e os outros quatro. Um pouco baixinha, sensivelmente tímida, e um tanto nervosa com todos os olhares atentos em sua direção, a moça parece menos imponente do que nas fotos de divulgação da banda que circulam na Internet. O grupo é o Rosie and Me; ela é Rosanne Machado (ou só Rô). Juntos aos cinco integrantes da banda sobe ao palco-tapete a incontável quantidade de rasgados elogios em revistas e blogs especializados do Brasil e do exterior.
Acanhada, a moça quase some atrás de seu violão de cordas de aço. A plateia quase não a escuta dizer suas primeiras palavras, de tão baixinho que a vocalista fala, mesmo ao microfone. A timidez é notável. Ela mesma assume, alguns meses depois do show: “Morro de vergonha. Antes de eu ter banda, minha mãe nem sabia que eu cantava. Era tudo no quarto, sozinha.”
Então ela canta. Sua voz parece presa na garganta, mas em alguns momentos Rosanne se esquiva das reservas impostas pela própria timidez e suas notas escapam potentes, bonitas e tocantes, como um passarinho que se desvencilha, voa rápido encantando quem o vê e logo volta à própria gaiola. Ou à própria baleia.
Mar de distância
Um passarinho e uma baleia. No meio deles, carinho e um oceano. Não bastasse a distância geográfica, a relação entre os dois é complexa: um passarinho e uma baleia. Algo impossível. O passarinho nunca irá conseguir ficar perto da baleia. É a ideia do relacionamento à distância, da grandeza de um mar, que a vocalista explica ser visível em várias das músicas do grupo.
Os dois animais, desenhados por ela e pelo baixista Guilherme Miranda e que estampam a capa do EP “Bird and Whale” (2010), têm um quê de autobiografia do grupo que começou por volta de 2006 como uma dupla composta por Rosanne e Alex Souza (que alguns anos depois acabaria saindo da banda). Quando o projeto começou – “não era nem uma banda, era uma coisa” explica ela – a distância geográfica esteve sempre presente: ele morando no Rio de Janeiro, ela em Curitiba e depois nos Estados Unidos.
Assim nasceram as primeiras gravações do Rosie and Me: ela gravando alguma base de violão em um microfone caseiro e ele tentando mixar alguma coisa a milhares de quilômetros de distância. Todo esse processo acabou de alguma forma registrado nas composições que chamam a atenção, sentimentalmente falando, pela honestidade, pela melancolia e por alguns traços de esperança e felicidade.
Uma mistura emocional que desde então só faz conquistar cada vez mais fãs e simpatizantes, e que levam o passarinho a voos maiores e a baleia a mares mais distantes. Em janeiro de 2011, por exemplo, o Rosie and Me participou do M/E/C/A/ Festival, realizado na praia de Shangri-lá (RS), ao lado de nomes internacionais como Vampire Weekend e Two Door Cinema Club. Os curitibanos só não foram* ao South by Southwest, badalado festival anual de música independente que acontece em Austin, Texas, porque a banda teve problemas com o visto de entrada nos Estados Unidos.
O guitarrista Thomas Kossar no Paço da Liberdade
Bem resolvidas
O que leva o Rosie and Me a consolidar-se de maneira a conquistar corações em Curitiba, no Brasil e no exterior? As respostas podem ser várias. A qualidade das composições, o delicado e simpático rosto atrás do microfone, a facilidade com que um ouvinte pode se identificar com os sentimentos presentes em cada música, a dedicação pessoal dos integrantes ao cotidiano da banda... São muitas explicações. Talvez sejam todas elas juntas e misturadas.
O jornalista Cristiano Castilho, do Caderno G da Gazeta do Povo, fala da capacidade vocal de Rosanne e de sua atitude no palco. “A timidez da moça é um complemento àquelas melodias bonitinhas, mas muito bem resolvidas, e ao banjo bem tocado. Seu posicionamento, sua maneira de ser, tudo é sinérgico” explica. “Há menos guitarra e mais suavidade, leveza e contemporaneidade” diz Castilho, comparando Rosie com um grupo mais antigo, do mesmo gênero e de boa representatividade de Curitiba, o Bad Folks.
Entre fofura, timidez, sentimentos e boa música, é difícil achar algo a contestar. O jeito é se deixar levar pela baleia, se deixar encantar pelo passarinho. Eis aí uma das bandas mais apaixonantes dos últimos tempos. Não vá perdê-la de vista.
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*Agora, às rápidas atualizações:
Durante alguns meses de 2011, a banda enfrentou problemas com o selo com o qual tinham assinado: as partes se desentenderam e o selo retirou todos os vídeos do canal da banda no Youtube (alguns deles particulares) e as músicas dos sites da banda; o conflito foi resolvido amigavelmente e agora está tudo certo, mas o Rosie and Me não está mais no casting do selo.
A música "Darkest House", do EP "Bird and Whale", foi parar na trilha sonora do último episódio de uma das temporadas do seriado One Tree Hill.
Agora de álbum lançado, o Rosie and Me vai enfim ao SXSW 2012. E junto com o festival a banda emenda uma turnê pelos Estados Unidos para divulgar o "Arrow of my Ways".
Tudo isso está explicado melhor em um post no Scream & Yell que conta essa história toda e ainda traz uma entrevista com a Rosanne.
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