Ah, então voltemos à normalidade das atividades defenestradas, e para celebrar o fato nada melhor do que ressuscitar a Música Boa da Quinzena, o quadro que nunca respeita a frequência prometida no nome. Dessa vez trouxemos aqui a nona faixa de "Um labirinto em cada pé", o quarto e recém-lançado álbum de Romulo Fróes.
Eis Ditado, um samba, um rap, um experimento: parceria autoral de Fróes e Nuno Ramos, a música é quase falada -- é como se fosse um discurso com notas, algo que se perde em algum ponto do caminho entre o rap e o samba. As métricas não são respeitadas, as rimas estão deslocadas, há um cavaquinho moleque de dedilhados pontudos, mas não há samba, nem rap. É uma coisa muito própria do Romulo Fróes. Tão própria quanto o seu timbre de voz inconfundível e suas letras peculiares.
A música é um ditado. Óbvio, está no título. Mas parece mais um ditado alucinado, como um cara que está mudando, que está se sentindo estranho e não consegue entender bem o que está acontecendo consigo mesmo. É como se o cara estivesse pedindo para alguém registrar algo (já que por algum motivo esquisito, ele mesmo não consegue escrever -- ou mesmo não dar vazão a tudo que vai passando pela sua cabeça) para que possa ler depois, passado o estranhamento ou a alucinação:
Escreve aí que é pra lembrar, eu ando meio esquisito, agora anota o meu ditado
O coração está no meio de duas veias que bombeiam o sangue bom e o estragado
Tá tudo limpo e tem o sujo, tá tudo lindo
E vem o cujo, o bom e o feio se mascaram
Esse contraste difícil de evidenciar, mas ainda sim meio maniqueísta, costuma dar as caras em uma ou outra música de Fróes. Letras experimentais. O ditado continua:
...agora ouve o meu ditado
Sobe a ladeira, escala o topo de uma igreja ou de um morro e pula lá do alto
No meio um par de asas secretas, como as de borboletas, vai brotar nas tuas costas
Mergulha, afoga no mar salgado, tuas guelras vão brotar
Cê não percebe que pode morrer agora, que é maioral, que é pai geral, é sem igual, é imortal
Não sei se isso é psicodelia ou neo-tropicalismo: provavelmente não é nenhum dos dois e nem nenhuma outra coisa. Mas é uma viagem. E é legal de ouvir. Romulo Fróes é um cara bacana.