Basta a primeira nota da primeira música soar (grave, triste) e já podemos ter certeza de que o disco Samba 808, o novo lançamento de Wado (catarinense radicado em Maceió), é um álbum angustiante. Si próprio, a faixa de abertura, começa assim: angustiante, melancólica, complicada. Talvez seja ela o maior exemplo da angústia que permeia todo o disco; ela é um teste: só um ouvinte que tem certa resistência à angústia -- ou meramente angustiou-se alguma vez -- terá condições e vontade de seguir em frente e ouvir o resto de Samba 808. Os mais suscetíveis talvez não cheguem nem a ouvir Wado cantar a primeira frase, com a sua voz aguda e ultra característica: "Se é tudo por um triz, você prefere ter razão ou ser feliz?"
Chega a dar arrepios. Depois disso há um pouquinho de ritmo no refrão -- "você só pode vencer a si próprio", canta-se -- e surge em backing a voz de Zeca Baleiro, apenas uma entre tantas participações especiais do disco (vamos falando um pouco mais sobre elas conforme avançamos no texto). Baleiro fica um pouco oculto, aparece mais na ponte do final da música. E a angústia continua aí, no ritmo, na letra: "amor não há / em quase nenhum recanto / ainda assim eu canto / e ergo a voz / por você, por mim, por nós".
Esqueleto, a faixa seguinte, acaba com o clima devagar e taciturno da primeira música e explode num samba moderno, samba novo e culto dos anos 2010, com a participação especial de Curumin (este cara que é mestre nesse tipo de samba-pop-rock-alegria). Mas de algum jeito, apesar do entusiasmo do ritmo, a angústia ainda está lá. Wado tem um coração apertado e talvez consigamos perceber nele, por meio de Esqueleto, uma tentativa de se recompor e realegrar por conta própria. Reanimação angustiante.
E já lá começa Surdos da escola de samba, outro sambinha bom e esse sim, angustiante (repetiremos o termo quantas vezes for necessário). Aqui funciona muito bem a voz do convidado Chico César, em uma letra que brinca muito bem com a sinestesia -- ou algo parecido com ela: "os surdos das escolas de samba / expandem o grave do coração / os cegos das escolas de Braille / esfregam os dedos noutra canção". E depois, ainda: "os mudos das escolas de canto / esgoelam-se em mais um refrão / e os mancos das escolas de baile / dançam até gastar o chão".
E então chegamos na música mais contundente, angustiante e melancólica (embora talvez possa não parecer) de Samba 808. Na ponta dos dedos é joia rara do cancioneiro nacional atual e tem a participação de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães -- fato que pode espantar alguns céticos. A canção demora a começar e surge assim, bonitinha, num fade-in extenso: é ela, essa garota, que surge como quem não quer nada na vida de algum pobre rapaz. Ele começa a conhecê-la e ela acaba, com seu jeito natural de ser, deixando-o apaixonado. E isso não é bom: estamos falando de um disco sobre um coração angustiado.
com a ponta dos dedos você mexe
em seus cabelos
com a ponta dos dedos você mexe
a colher de chá
com a ponta dos dedos você mexe
em seus brinquedos
com a ponta dos dedos você
irá me negar
Ela o nega sendo graciosa: mexendo no cabelo, tomando chá, brincando. Ela o nega de um jeito sincero e amoroso, de tal modo a fazê-lo continuar apaixonado. Ela o faz sofrer. "Eu não me acostumo à tua beleza", diz ele, tocado, angustiado. "Bonito, um dia isso poderá passar", responde ela. "E se agora já vale a nostalgia / e algum dia essa hora irá chegar", diz ela, dando um quê de esperança quase inalcançável (talvez ela seja mais velha; quando a música repete, Macelo Camelo canta: "menino, um dia isso poderá mudar"). Ela vai embora e, talvez por ingenuidade, talvez por uma crueldade involuntária, sai assobiando. Sendo graciosa, embora zombando meio que sem querer. Ele suplica:
se você for, por favor, demora
se você for, por favor, não vá
Ela vai embora do mesmo jeito. E ao rapaz resta apenas o lamento e uma angústia explodindo na garganta. E a imaginação:
ninguém mais viu, fui eu que vi você dormir comigo
Dói.
Essas são apenas as quatro primeiras músicas de Samba 808. Uma grande sequência a ganhar corações angustiados assim, de pronto, ou em no máximo uns três ou quatro audições do disco. As duas músicas seguintes, Portas são para conter ou deixar passar (participação de Fernando Anitelli) e Recompensa, também são boas, mas não à mesma maneira que as quatro iniciais.
Depois destas, há uma brutal queda de qualidade nas quatro últimas músicas. Wado parece ter deixado para o final aquelas músicas das quais não estava completamente convencido. Nem mesmo as participações de Fábio Góes em Jornada e de André Abujamra e Alvinho Lancelotti em Beira mar são capazes de salvá-las.
A primeira metade do disco no entanto compensa muito bem o fato e garante Samba 808 como um dos grandes álbuns brasileiros de 2011. Vale ouví-lo por conta desse passeio de Wado pelo cavaquinho e guitarra elétrica em tempos de internet. Mas vale muito ouví-lo também para, quem sabe, identificar no seu coração apertado toda a angústia das letras e notas de Wado.
Baixe o álbum Samba 808 aqui.
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P.S: o 808 do nome do disco vem de Roland TR-808, um aparelho clássico usado para montar sequências de loops eletronicamente. O porque disso estar no nome do disco, Wado explica neste vídeo. Se houver curiosidade, aqui tem um outro vídeo de alguém usando o TR-808.

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