19/08/2011

A loja de discos

Marco e a Vinyl Club. Atrás, os únicos CDs encontrados na loja: curitibanos (foto: Mateus Ribeirete)

Não tive sucesso logo na primeira vez que tentei encontrar Marco. Era uma terça-feira pela manhã quando cheguei à Vinyl Club, sua loja de discos, e o que encontrei foi a porta de vidro fechada e as luzes apagadas. Decidi esperar por algum tempo, imaginando que o dono poderia chegar perto da hora do almoço. Durante a minha espera, um senhor de idade avançada vestido numa jaqueta de couro transitava de um lado para o outro do corredor da galeria, localizada na esquina da Ébano Pereira com a Cruz Machado. Ia até a beira da rua, fumava um cigarro, olhava as vitrines. Fazia o tipo roqueiro antigo, como se fosse um integrante de alguma banda de rock local como o Blindagem. Quando eu já deixava o local conformado por ter que voltar novamente no dia seguinte, o velho me abordou.

- Também está esperando o Marco?

Respondi afirmativamente, explicando que, segundo a dona da loja da frente – também especializada em discos – Marco estava doente e talvez não fosse abrir a loja naquele dia. O velho soltou um suspiro de frustração. Me contou que era compositor e amigo de Marco, e que tinha ido apenas fazer uma visita ao amigo. Até então, eu só havia entrado em contato com Marco pelo telefone, e o encontro com o velho serviu apenas para reforçar uma ideia que eu fazia a respeito dele: um velho roqueiro colecionador de discos.

Alguns dias depois, desci próximo à Biblioteca Pública e caminhei duas quadras até a galeria. De longe percebi as luzes da loja acesas, mesmo que isso não mudasse muito os tons bege e cinza das paredes e piso do estabelecimento, respectivamente. O ambiente só era colorido pelas capas e mais capas de discos espalhadas por toda a parte. Atrás do balcão, porém, o sujeito que me esperava não tinha tantas rugas assim e também não fazia o tipo “integrante do Blindagem”. Perto dos 42 anos, Marco Antônio Cunha é um sujeito esguio com boa parte dos braços tatuados. Quando fala, se expressa em alto volume, pausada e claramente, sem esconder o sotaque carioca de Niterói, sua cidade natal.

Fisicamente, a Vinyl Club não passa de uma sala retangular de, no máximo, 40 m². Nas duas paredes mais longas do retângulo estão encostadas as prateleiras, negras como vinil, mas coloridas pelas capas de discos. No fundo da loja, apertada entre o balcão e a parede, uma misteriosa escada em espiral que sobe até um estoque, possivelmente. Algumas camisetas de bandas e uma geladeira antiga preenchem o resto do ambiente. Quase todos os elementos que compõem a sala parecem estar juntos ao máximo às paredes. Obviamente, pelo bem da circulação dos visitantes. Mas olhando bem, parece mesmo que tudo se afasta para dar espaço ao objeto principal. Como a principal estrela de um sistema solar, cercado por objetos que certamente não sobreviveriam sem a sua existência, no meio da sala fica a vitrola. Ao invés de luz e calor; o som, acompanhado pelo chiado discreto e charmoso da agulha que toca o vinil.

As personalidades de Marco Antônio Cunha e da Vinyl Club se confundem num certo desleixo. Se o lojista me surpreendeu por ser relativamente jovem, a loja, apesar de parecer um ponto tradicional e antigo de encontro entre colecionadores, tem apenas 8 anos de funcionamento. O local não costuma abrir cedo, e nem tem horários de funcionamento bem definidos. O dono não gosta de acordar cedo e também não está sempre em Curitiba. Participa, eventualmente, de alguns encontros de colecionadores de discos pelo Brasil afora. Às vezes viaja apenas para buscar novos vinis, sejam eles para o acervo da loja ou para a coleção própria.

Inevitavelmente a Vinyl Club se tornou referência em Curitiba se tratando de elepês. Não tem o maior acervo e talvez nem os mais caros. Têm, sim, discos valiosos, como o do grupo argentino Aeroblus, muito bem avaliado. Mas o diferencial se faz justamente na comunicabilidade de Marco. Quando adquiriu o ponto, em 2003, mobilizou-se para que aquela galeria fosse ocupada em suas 4 lojas por comerciantes de discos. Teve resposta negativa da maioria dos comerciantes, todos julgando prejudicial a concorrência.

- Veja só que pensamento pequeno. Todos esses caras estavam enganados, se essa galeria fosse só de lojas de discos a gente teria um movimento bem maior. Você vê aí a Rua Teffé, que tem várias lojas de sapatos e nenhuma quebra a outra. Tem a Riachuelo, que no meu tempo era rua de prostituição, agora tem uma série de lojas de móveis. Tem umas coisas que eu não consigo entender no curitibano.

Marco vive em Curitiba desde 1986, ano em que seu time, o Botafogo, voltava a ganhar um título no Rio. O último havia sido um anos antes dele nascer, no Carioca de 68. Com mais de 20 anos em Curitiba, o carioca criou certa identificação com a cidade. Indigna-o saber que seu amigo pessoal Waltel Branco, maestro nascido em Paranaguá e dono de brilhante carreira musical no Brasil, seja pouco reconhecido na capital. Guarda com carinho um disco de Waltel autografado, exposto num lugar privilegiado da parede à direita de quem entra.

Na parede atrás do balcão, há alguns CDs. À primeira vista, estranhei, pois colecionadores costumam ser até certo ponto xiitas resistentes às tecnologias que substuíram os LPs. Mas quando me aproximei, percebi que todos eles pertenciam a bandas ou artistas curitibanos.

- É a maneira que encontro de fazer o que a maioria dos curitibanos não fazem. Valorizar o que é próprio daqui.

Enquanto Marco falava, entrou na loja um sujeito de pouca altura, pele quase parda e dentes tortos. Cumprimentou Marco com um aperto de mão e um leve abraço. Ele era Jota Eme, cineasta curitibano pouco conhecido, mas que, conforme me apresentou Marco, ganhou alguma notoriedade no underground por ter dirigido um documentário chamado O Argentino que Derreteu a Jules Rimet. O nome me soou familiar, então Marco me mostrou que uma cópia em DVD do filme estava exposto na pequena vitrine abaixo do balcão, junto a uma camisa do New York Cosmos, um rádio antigo, algumas flâmulas antigas, uma câmera Super-8 entre outros objetos relacionados a futebol, como um filme antigo da Copa de 70.. Perguntei se todas aquelas coisas também estavam à venda. Marco riu.

- Isso aqui é o seguinte, todo mundo que vem aqui quer comprar flâmula, quer comprar camisa, o rádio, a câmera, mas ninguém compra a porra do filme! É a única coisa que quero vender. O resto é só pra fazer o cenário.

Jota Eme e Marco começaram a conversar sobre um assunto qualquer, enquanto eu observava com mais atenção os cartazes de bandas curitibanas que estampavam a porta de vidro da loja. Parecia que era um bom momento para sair de fininho, deixar a conversa dos dois ir longe. Em certo momento, Marco notou minha postura de observador e fez questão de interromper, dizendo tudo que eu tentava traduzir daquele momento.

- Cara, sabe por que as pessoas vem comprar aqui? Primeiro porque nas megastores ainda não tem vinil. Segundo, por causa dessa relação com as pessoas. Numa megastore você não tem uma intimidade maior com o lojista como numa loja pequena. Aqui na verdade eu fiz amigos, não fiz clientes. Então tem gente que tá estressada no dia-a-dia e dá uma passadinha aqui, vem com uma caixinha de cerveja, joga nessa geladeira, e fica batendo papo e depois vai pra casa. Aqui é mais um ponto de encontro do que uma loja mesmo. Eu acho que bato mais papo aqui do que vendo disco.

Marco falou aquilo com uma sinceridade tão grande que, mesmo vendo de fora, pude compreender a essência de tudo aquilo. Os discos, os encartes, o chiado do vinil, as coleções, as fotos. Tudo podia ser apenas um “cenário” de preferência dos aficcionados por música. A Vinyl Club é, sim, um ponto de encontro de colecionadores, mas antes disso, um ponto de encontro de pessoas. Já estava escuro lá fora, então me despedi de Marco e Jota Eme e me pus no frio da Ébano Pereira. Passei por dois ou três Cafés, mas ainda pensava na cerveja e num disco dos Mutantes.

* * *

Este relato de Matheus Chequim veio de uma aventura para o blog Lado B do Futebol,  para o qual ele, Felipe Gollnick e Mateus Ribeirete também colaboravam. O resultado é uma videoreportagem que se encontra aqui (parte 1) e aqui (parte 2).

2 comentários:

Anônimo disse...

Sotaque carioca de Niterói é de rachar os ouvidos de dor! Ou se é carioca ou de Niterói.

Anônimo disse...

Fiz uma crítica no comentário anterior e me esqueci de elogiar: muito boa história e descrição envolvente, deu até vontade de conhecer a loja.