Os leitores ávidos por novidades e ineditices que me desculpem, mas hoje apelaremos para uma reprise. Estive pensando demais em um texto que escrevi no ano passado a respeito do show sensacional que o Bonde do Rolê fez aqui em Curitiba em outubro último. Faço aqui essa reprise por três motivos:
1) gosto demais desse texto;
2) ele não foi publicado aqui no defenestrando, mas lá no Mondo Bacana (e aqui o reproduzo da maneira como foi concebido originalmente, sem edições de terceiros -- os mais atentos perceberão mudanças principalmente nos tempos verbais); e 3) o Bonde do Rolê está voltando a Curitiba para se apresentar dia 27/08, próximo sábado, na Tribaltech. Não poderei ir ao show, mas espero que os parágrafos a seguir sirvam como um bom teaser e instiguem o leitor a se deslocar até o evento.
Bom, então está aí. Aproveite a viagem até o final, porque a segunda parte do texto é a entrevista bizarríssima que fiz com eles antes do show. As fotos que ilustram o post são do chapa Enio Vermelho Jr (tirando essa de cima, que é de divulgação)
A publicação original data do dia 19 de outubro de 2009. As opiniões expostas refletem o meu pensamento naquele momento e não são necessariamente as mesmas atualmente.
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Sabe aquele negócio que dizem quando algo é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser bom? Então. Existe um grupo curitibano que me parece cair perfeitamente nessa definição.
Três anos. O período que separa a última apresentação do Bonde do Rolê em Curitiba da que aconteceu nesta sexta-feira (16) não é curto: nele aconteceu ao grupo curitibano de funk tudo (e mais um pouco) do que pode acontecer a uma banda de rock – ascensão meteórica, turnês exaustivas pelo estrangeiro, menções em todo o tipo de publicação ao redor do mundo, rompimento dramático e estressante com vocalista no auge do hype, concurso na MTV, cotidiano com integrantes totalmente novos e desconhecidos e muito mais.
Por isso que o anúncio de um show do Bonde em sua cidade natal pôs os fãs em polvorosa. Munidos do natural sentimento de pais, irmãos ou donos da banda, os curitibanos foram em peso ao John Bull Music Hall para ver o que tinha acontecido àquele grupo que em seu último show aqui ainda era um trio desconhecido, que ninguém imaginaria ter futuro promissor. Por essa identificação do público com o agora quarteto e pela promessa de show intenso (como costumam ser todas as apresentações do Bonde), a noite tinha tudo para ser uma das mais especiais dos últimos tempos.
O que não se imaginava é que ela, ao mesmo tempo que inesquecivelmente incrível, seria extremamente suja. Em todos os sentidos, mas especialmente no literal. Explico isso melhor mais pra frente.

Mas antes da sujeira tocaram outras bandas: quem primeiro subiu ao palco foi a Rockajenny. Dando o pontapé inicial em uma noite de toque feminino (todas as bandas que se apresentaram tinham uma mulher no vocal ou eram compostas apenas por elas), as quatro meninas jovenzinhas do grupo subiram ao palco e apresentaram a um público ainda pequeno a sua mistura de rock clássico dos anos 60-70 com indie dos anos 2000. O material apresentado não é convincente, mas sem dúvida é promissor. Riffs ágeis, agradavelmente repetitivos (remetendo ao mesmo tempo a Strokes e Kinks) e linhas simpáticas de vocal chamam a atenção, mas as garotas pecam pela crueza excessiva dos efeitos de guitarra e pela pouca presença de palco. Acertando esses e mais algum outro detalhe, elas têm tudo para alavancar seu nome no cenário atualmente fortíssimo da cidade.
Depois delas, quem veio às luzes foi a Punkake. Já pelo nome, as garotas em nada lembram a delicadeza dançante do grupo anterior. Começaram tocando algo pesado e depois usaram e abusaram de covers que não tinham muito a ver entre si. Não que houvesse grandes defeitos, mas o grupo claramente ficou deslocado na programação da noite.
Após um intervalo demorado, o Copacabana Club subiu ao palco junto com todo o hype que tem carregado nas costas nos últimos meses. Agora de guitarrista novo (Rafael Martins, do ruído/mm), os copas fizeram seu animado show para um público agora em bom número. E o que eu percebo a partir dessa e de algumas outras apresentações do copa é que elas começam como algo extremamente normal – um show sossegado – e vão crescendo até chegar à apoteose. Nessa noite não foi diferente: a banda começou calma (salvo alguma empolgação em “King of the night”, a segunda do setlist), mas evoluiu até grande animação coletiva quando a vocalista Cacá V foi no meio da galera para encerrar o show com “Come back” e o hit “Just do it” e deixar o público no melhor estado possível para o esperado show do Bonde do Rolê, que faria uma apresentação espetacular.
Antes que o Bonde entrasse, amigo meu avisa que é melhor não ficar perto do palco, a fins de preservar a integridade da roupa. Ora, entendi isso como algo bom – coisa boa deve vir! – e busquei um lugar no gargarejo, onde a empolgação é sempre maior. Pouco tempo depois, Pedro D’Eyrot, Rodrigo Gorky, Ana Bernardino e Laura Taylor finalmente aparecem. E é agora que a agente volta a falar sobre a sujeira.
Os quatro estão alteradamente alegres e vestem trajes de bebê. Pedro está com a sua fralda notadamente cheia. Gorky, o DJ, dá o play e a “Dança do Zumbi” começa a sair das caixas de som. Os três vocalistas se revezam berrando a música, e a platéia, no ponto certo desde o Copacabana, está conquistada. Chove cerveja nos primeiros segundos. Em algum momento Pedro entorna uma garrafa inteira na cabeça de Ana enquanto ela canta e a moça parece nem perceber. Gorky, entrando no clima do traje, pega um pote de talco e começa a espirrá-lo para todos os lados (da banda ao público) e um inusitado cheirinho de bumbum de bebê surge no mesmo lugar onde há várias garrafas de cerveja estilhaçadas no chão.
A primeira música nem bem acaba, matadora, e “Geremia” começa logo em seguida, entoada como hino por vários fãs que cantam, dançam e pulam entusiasmadamente, “se jogando”, berrando o refrão emblemático que lembra grito de torcidas de futebol: “ih, fudeu, Geremia apareceu!”
Na terceira música, “Divine Gosa”, o público começa a subir no palco: a festa está feita. Com três músicas como essa logo no início, com uma banda disposta a fazer de suas apresentações eventos memoráveis e com uma platéia disposta a entrar no clima, não havia o que dar errado. O show do Bonde do Rolê tinha se tornado marcante já nos seus primeiros minutos.
Mas a sujeira ainda não acabaria ali. Em alguma hora Pedro tira de dentro de sua fralda o que a deixava cheia – uma pasta marrom, grossa e feia: seria cocô? – e espalha pelo próprio rosto, pela camisa, pelos braços, passa nas outras vocalistas e joga o resto no público. Bernardino aparece depois com uma sacola cheia de geladinhos (aqueles coloridos, lembra?) rasga alguns e espirra em quem estivesse perto, depois distribui para a galera, que faz a mesma coisa.
Sujeira, sujeira. Os quatro integrantes do Bonde agora estavam imundos: na pele e nas roupas, uma mistura de talco, cerveja, cocô falso e geladinho. A platéia estava quase do mesmo jeito, além de hipnotizada, estupefata com o quão trash era tudo aquilo que ela via. E o pessoal que quisesse dançar ainda tinha que tomar cuidado com a quantidade incrível de cacos de vidro no chão.
Passa tudo tão depressa que é quase um susto quando eles anunciam que vão tocar a última música. O público lamenta, mas logo em seguida Gorky manda o loop de “Solta o frango” e o palco é imediatamente tomado de fãs, que cantam o hit berrando e tentando aproveitar o máximo possível os últimos momentos desse evento que sabem ser único.
Mas a música acaba. O palco esvazia, o Bonde vai embora. Só fica a sujeira. Muita sujeira. Não teve como não sentir dó do pessoal da limpeza, que entrou em ação com uma cara de pouquíssimos amigos.
Assim como não teve como não ficar pensando que porcaria toda foi aquela. Que tipo de show, que tipo de banda é essa que atira geladinho e cocô falso ao seu público fiel, entusiasmado?
É o tipo de banda do Bonde do Rolê. O quarteto fez um show tão ruim, de tão elevado grau de tosquice, que deve ter sido um dos melhores e mais espetaculares shows vistos em Curitiba nos últimos anos.
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Bati um papo com eles um pouco antes de subirem ao palco e a conversa passou pelos assuntos mais variados possíveis: do disco novo à gravação de vídeo em favela do Rio de Janeiro, passando pela vidente do grupo e por um caranguejo encontrado vivo na comida de um restaurante do centro de Curitiba.
O negócio foi mais ou menos o seguinte: eu chego no camarim e estou me preparando para fazer as primeiras perguntas, quando escuto um barulho de porta abrindo e sinto um cheiro horrível, daqueles de banheiro depois do almoço. De repente todos no camarim se matam de rir. Olho para o lado e vejo Laura Taylor saindo do sanitário, gargalhando também.
Ana Bernardino – [gargalhadas] Foi você né Laura! Foi você né!
Laura Taylor – ai gente, não sei o que falar.
Alguém ainda tira algum sarro de Laura. Pedro mostra interesse no que eu quero perguntar, mas tanto ele quanto Gorky parecem cansados, e concluo que eles estão mais interessados em se livrar das perguntas e começar a beber mais intensamente, se preparando para o show. Pergunto como é tocar em Curitiba depois de três anos.
Pedro D’Eyrot – É muito louco, tem vários amigos meus aí...
Ana – ...seu pai está aí...
Rodrigo Gorky – O pai do Pedro tá aí.
Pedro – ...meu pai tá aí, a japonesa gostosa que eu era apaixonado no cefet ta aí... [todos se espantam]
Ana – nossa, aquela japonesa linda!
Pedro – você conhece a japonesa gostosa do cefet?
Respondo que conheço várias japonesas do cefet, mas nenhuma muito gostosa.
Pedro – o que mais você quer saber, meu filho?
Reza a lenda que o nome Bonde do Rolê vem da Lanches Rolê, lanchonete na Vicente Machado onde Gorky e Pedro comiam regularmente. Pergunto se já voltaram lá pra ver se rola algum tipo de homenagem.
Pedro – reformaram o Rolê cara!
Gorky – a gente passou do lado.
Pedro – não rola nem um pôster.
Não rola nem uma homenagemzinha. Gorky aponta para as meninas e pergunta para Pedro:
Gorky – cara, a gente podia levar elas lá amanhã né?
Pedro – é, vocês podiam ir no Rolê... que horas que é o voo, alguém checou?
Gorky – quatro da tarde.
Pedro – quatro? O do Copacabana é meio dia.
No dia seguinte (17) o Bonde do Rolê tocaria junto com o Copacabana Club em Porto Alegre. Não parece que estou entrevistando o grupo, mas que apenas estou dando tópicos para os quatro conversarem entre si. Mas mesmo assim continuo e pergunto a respeito do churrasco na laje, que foi um vídeo gravado em uma famosa locação numa laje na favela Tavares Bastos, no Rio de Janeiro.
Gorky – ah, era uma curtição, era uma vibe legal, era uma vibe praia no Rio, calor, sol, churrasco e bebida de graça para os amigos.
E como foi fazer aquilo no meio da favela?
Pedro – rolou uns pipocos, a gente se abaixava, passava bala perdida...
Gorky – é que com o suíngue as pessoas não percebem. Tinha granada...
Pedro – não, granada não tinha porque o povo era do bem. Tinha umas bombas caseiras, uns copinhos de mijo [risos]
Ana – a gente tava mostrando a favela mais linda do Rio de Janeiro.
Pedro – o pessoal lá era do bem.
Gorky – o Hulk foi gravado lá [naquela laje]. Do lado tem o estúdio da Record.
Pedro – não é estúdio.
Gorky – é, é locação.
Alguma das meninas fala que o lugar que ela queria morar era ali. Associo os fatos e pergunto se não era mesmo no meio da favela então.
Pedro – não.
Ana, Laura e Gorky – era!
Pedro – era uma favela mas era uma zona sem tráfico.
Gorky – do bem!
Próxima pergunta. O primeiro álbum do grupo, “With Lasers”, saiu pelo selo Mad Decent, do produtor norte-americano Diplo. O segundo está vindo aí. Vai sair pelo mesmo selo?
Pedro – vai... é que a Mad Decent licencia o disco para uma gravadora que a gente não sabe qual vai ser.
A partir daí Pedro e Gorky começam a conversar alguma coisa ininteligível sobre quantidade de discos, mas demora para cair a ficha que eles estão se referindo a alguma outra coisa subentendida entre os dois da qual eu não fazia ideia do que era.
Gorky – ...são dois discos...
Pedro – ...são DEZ discos...
Gorky – ...ah, vai tomar no cu!
A explicação veio em seguida:
Gorky – a nossa vidente falou...
Pedro – ...a gente veio pra Curitiba e foi ver nossa vidente...
Gorky – ela falou que a gente vai lançar dois discos... [para Pedro] puta, a gente tem começar a falar disso de verdade! [para mim] ...olha, ela falou que dos nossos discos, um fica pronto em março, o outro fica pronto em outubro, os dois vão ser lançados ano que vem e vão ser um sucesso. Foi isso que a nossa vidente nos disse e se você quiser o telefone dela você pode ir lá pra confirmar.
Nessa hora todo mundo começa a falar ao mesmo tempo e, não sei como, o tema da conversa descambou e foi parar em um restaurante chinês da Rua Comendador Araújo.
Pedro – o Fonk! O Fonk é zoado.
Gorky – [com nojo] eu vi uma foto que acharam um caranguejo vivo no meio da comida.
Pedro – [rindo] eu vi! Eu vi no facebook!
A conversa segue girando e agora chega no sebo Fígaro, no qual Gorky fala para Laura que ela iria pirar. Até o momento em que Pedro me fala que eu preciso interrompê-los se não eu ficaria ali até o dia seguinte. Faço uma última pergunta: se o disco novo realmente tem “travesti” como tema único.
Pedro – a gente fez um disco de samba na verdade, só com músicas de travesti. Não é “O” novo disco do Bonde do Rolê, é tipo um projeto...
Gorky – é tipo, sabe quando o Quentin Tarantino brilha e não dirige o filme, só produz? Sabe, ele diz que é um filme dele, mas é outra pira?
Pedro – “Bonde do Rolê apresenta Samba de Traveco”. Não é o nome oficial ainda mas a ideia é essa.
Quando estou saindo, Pedro vai até um canto onde estão depositadas várias latas de cerveja vazias e pergunta "cadê minha cerveja? eu sempre perco ela". Estou indo embora, desejo bom show a todos e Ana e Laura me olham com um sorriso meio sério, como que se divertindo mas concentradas. Cerca de uma hora depois o Bonde subiu ao palco e fez uma das apresentações mais sujas dos últimos tempos.