29/08/2010

entrevista Rosie and Me


O Rosie and Me é uma daquelas bandas que começaram ganhando espaço na internet com gravações descompromissadas e de baixa qualidade de captação. Em contrapartida, a boa qualidade musical das canções levou a banda à certa popularidade antes mesmo de gravar seu primeiro EP, o Bird and Whale, lançado em março deste ano. Com canções gostosas de se ouvir, hoje pode-se dizer que o Rosie and Me contribui agradavelmente para a multiplicidade de estilos pela qual a cena curitibana é conhecida, se responsabilizando pela parte do twee pop/folk. Também por isso é uma das bandas locais mais bem colocadas na Rádio Levi's.

Após passar alguns dias assobiando "Bonfires" pra lá e pra cá, a equipe defenestrada decidiu que seria interessante trocar uma ideia com o Rosie and Me, e quem gentilmente nos atendeu foi a vocalista Rosanne Machado, a Rô, que contou um pouco sobre o início, os planos da banda e também garantiu que independente do sucesso continuará dando entrevistas para blogs modestos como o nosso. A entrevista você confere a seguir:


Falem um pouco de vocês: quem são os integrantes do Rosie and Me?

No começo, não existia exatamente uma banda formada, porque as músicas eram gravadas no computador, sem compromisso, e depois colocadas na internet. Quando notei que o número de ouvintes estava aumentando e que as pessoas estavam recebendo bem nosso trabalho, convidei o Tiago e o Guilherme para tocar ao vivo, porque conheço os dois há bastante tempo. Foi assim que chegamos a uma formação próxima da atual, que inclui também o Thomas, recém chegado nas guitarras.

De onde vem essa pegada mais folk?

Acho que de folk mesmo, nosso som tem só a levada, já que somos brasileiros e, em tese, o “folk” daqui seria composto pelos estilos regionais. Nós gostamos de nos espelhar em outros estilos como o twee pop/americana/bluegrass e tentamos sempre adaptar essa influência às nossas músicas. Nossa maior referência são bandas como The Weepies, Stars, Gregory Alan Isakov e Band of Horses.

As letras são bastante introspectivas... É daí que vem o nome Rosie and Me?

Nossas letras refletem idéias sobre relacionamentos, decepções e crescimento, o que permite que nosso público se identifique com as experiências nelas descritas. São temas sobre os quais eu me sinto mais à vontade para escrever. "Rosie and Me", na verdade, vem do nome do arquivo da primeira música gravada no computador, que era “rosieandme”. A gente enviava os arquivos para os amigos mais chegados e percebia que o pessoal ouvia no last.fm e acabava “scrobelando” as músicas com aquele título, então, nós só abraçamos a idéia.

Jurei ter ouvido 'Bonfires' num comercial da Claro. Foi isso mesmo ou eu tava delirando?

Sim, Bonfires tocou no comercial de Dia das Mães da Claro. Foi uma ótima exposição para a banda, porque várias pessoas que ouviram nossa música foram atrás pra descobrir quem cantava.

Vocês começaram bombando na gringa e depois foram ter repercussão aqui...

Quando soltamos nossas primeiras demos na internet, grande parte dos ouvintes era estrangeira, de países como Estados Unidos e Polônia, por exemplo. Depois, tivemos a idéia de divulgar nosso trabalho para blogs especializados em música, a maioria em inglês. Como o retorno foi muito bom, resolvemos buscar mais ouvintes aqui no Brasil, porque não fazia muito sentido focar somente no público estrangeiro, sem tentar ganhar mais espaço por aqui.

A divulgação de vocês é bastante voltada pra gringa. A exemplo de bandas locais como o Copacabana Club e o Bonde do Rolê, o Rosie and Me pretende fazer carreira internacional?

Por enquanto, tocar no exterior é apenas um sonho, pois exige uma estrutura maior, tanto por parte da banda quanto de quem produz shows. Queremos muito ganhar mais público no Brasil, por isso temos nos concentrado em marcar shows em São Paulo, Rio, Porto Alegre e outras capitais. Mas, sem dúvidas, queremos ter uma carreira internacional também.

E novidades? O que o público pode esperar da banda num futuro próximo?

Nosso plano agora é investir em alguns festivais nacionais e dar continuidade a novas gravações. Já temos músicas suficientes para lançar um álbum completo e estamos nos preparando para entrar em estúdio em breve. Quando o álbum ficar pronto, planejamos tocar em várias cidades do Brasil para divulgá-lo.

Pra finalizar: e depois de conquistarem o mundo, vocês ainda vão dar entrevistas pra blogs modestos como o defenestrando? hahahaha

Claro! Sem blogs como o defenestrando, não estaríamos aqui hoje. Por mais "modestos" que alguns blogs sejam, o que realmente importa é alcançar ouvintes em potencial, por meio de pessoas que se dispõem a conhecer música nova e dar espaço a bandas pequenas.

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E se você também ficou com vontade de ver o Rosie and Me ao vivo anote aí na sua agenda: eles tocam no dia 16/09 no James em mais um James Sessions, junto com a banda Tiny Cables Ink. Todas as informações estão aqui, mas quem nos acompanha não precisa se preocupar porque mais perto da data fazemos questão de relembrar.

21/08/2010

o show mais sujo de todos os tempos

Os leitores ávidos por novidades e ineditices que me desculpem, mas hoje apelaremos para uma reprise. Estive pensando demais em um texto que escrevi no ano passado a respeito do show sensacional que o Bonde do Rolê fez aqui em Curitiba em outubro último. Faço aqui essa reprise por três motivos:

1) gosto demais desse texto;
2) ele não foi publicado aqui no defenestrando, mas lá no Mondo Bacana (e aqui o reproduzo da maneira como foi concebido originalmente, sem edições de terceiros -- os mais atentos perceberão mudanças principalmente nos tempos verbais); e
3) o Bonde do Rolê está voltando a Curitiba para se apresentar dia 27/08, próximo sábado, na Tribaltech. Não poderei ir ao show, mas espero que os parágrafos a seguir sirvam como um bom teaser e instiguem o leitor a se deslocar até o evento.

Bom, então está aí. Aproveite a viagem até o final, porque a segunda parte do texto é a entrevista bizarríssima que fiz com eles antes do show. As fotos que ilustram o post são do chapa Enio Vermelho Jr (tirando essa de cima, que é de divulgação)

A publicação original data do dia 19 de outubro de 2009. As opiniões expostas refletem o meu pensamento naquele momento e não são necessariamente as mesmas atualmente.

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Sabe aquele negócio que dizem quando algo é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser bom? Então. Existe um grupo curitibano que me parece cair perfeitamente nessa definição.

Três anos. O período que separa a última apresentação do Bonde do Rolê em Curitiba da que aconteceu nesta sexta-feira (16) não é curto: nele aconteceu ao grupo curitibano de funk tudo (e mais um pouco) do que pode acontecer a uma banda de rock – ascensão meteórica, turnês exaustivas pelo estrangeiro, menções em todo o tipo de publicação ao redor do mundo, rompimento dramático e estressante com vocalista no auge do hype, concurso na MTV, cotidiano com integrantes totalmente novos e desconhecidos e muito mais.

Por isso que o anúncio de um show do Bonde em sua cidade natal pôs os fãs em polvorosa. Munidos do natural sentimento de pais, irmãos ou donos da banda, os curitibanos foram em peso ao John Bull Music Hall para ver o que tinha acontecido àquele grupo que em seu último show aqui ainda era um trio desconhecido, que ninguém imaginaria ter futuro promissor. Por essa identificação do público com o agora quarteto e pela promessa de show intenso (como costumam ser todas as apresentações do Bonde), a noite tinha tudo para ser uma das mais especiais dos últimos tempos.

O que não se imaginava é que ela, ao mesmo tempo que inesquecivelmente incrível, seria extremamente suja. Em todos os sentidos, mas especialmente no literal. Explico isso melhor mais pra frente.


Mas antes da sujeira tocaram outras bandas: quem primeiro subiu ao palco foi a Rockajenny. Dando o pontapé inicial em uma noite de toque feminino (todas as bandas que se apresentaram tinham uma mulher no vocal ou eram compostas apenas por elas), as quatro meninas jovenzinhas do grupo subiram ao palco e apresentaram a um público ainda pequeno a sua mistura de rock clássico dos anos 60-70 com indie dos anos 2000. O material apresentado não é convincente, mas sem dúvida é promissor. Riffs ágeis, agradavelmente repetitivos (remetendo ao mesmo tempo a Strokes e Kinks) e linhas simpáticas de vocal chamam a atenção, mas as garotas pecam pela crueza excessiva dos efeitos de guitarra e pela pouca presença de palco. Acertando esses e mais algum outro detalhe, elas têm tudo para alavancar seu nome no cenário atualmente fortíssimo da cidade.

Depois delas, quem veio às luzes foi a Punkake. Já pelo nome, as garotas em nada lembram a delicadeza dançante do grupo anterior. Começaram tocando algo pesado e depois usaram e abusaram de covers que não tinham muito a ver entre si. Não que houvesse grandes defeitos, mas o grupo claramente ficou deslocado na programação da noite.

Após um intervalo demorado, o Copacabana Club subiu ao palco junto com todo o hype que tem carregado nas costas nos últimos meses. Agora de guitarrista novo (Rafael Martins, do ruído/mm), os copas fizeram seu animado show para um público agora em bom número. E o que eu percebo a partir dessa e de algumas outras apresentações do copa é que elas começam como algo extremamente normal – um show sossegado –  e vão crescendo até chegar à apoteose. Nessa noite não foi diferente: a banda começou calma (salvo alguma empolgação em “King of the night”, a segunda do setlist), mas evoluiu até grande animação coletiva quando a vocalista Cacá V foi no meio da galera para encerrar o show com “Come back” e o hit “Just do it” e deixar o público no melhor estado possível para o esperado show do Bonde do Rolê, que faria uma apresentação espetacular.

Antes que o Bonde entrasse, amigo meu avisa que é melhor não ficar perto do palco, a fins de preservar a integridade da roupa. Ora, entendi isso como algo bom – coisa boa deve vir! – e busquei um lugar no gargarejo, onde a empolgação é sempre maior. Pouco tempo depois, Pedro D’Eyrot, Rodrigo Gorky, Ana Bernardino e Laura Taylor finalmente aparecem. E é agora que a agente volta a falar sobre a sujeira.

Os quatro estão alteradamente alegres e vestem trajes de bebê. Pedro está com a sua fralda notadamente cheia. Gorky, o DJ, dá o play e a “Dança do Zumbi” começa a sair das caixas de som. Os três vocalistas se revezam berrando a música, e a platéia, no ponto certo desde o Copacabana, está conquistada. Chove cerveja nos primeiros segundos. Em algum momento Pedro entorna uma garrafa inteira na cabeça de Ana enquanto ela canta e a moça parece nem perceber. Gorky, entrando no clima do traje, pega um pote de talco e começa a espirrá-lo para todos os lados (da banda ao público) e um inusitado cheirinho de bumbum de bebê surge no mesmo lugar onde há várias garrafas de cerveja estilhaçadas no chão.

A primeira música nem bem acaba, matadora, e “Geremia” começa logo em seguida, entoada como hino por vários fãs que cantam, dançam e pulam entusiasmadamente, “se jogando”, berrando o refrão emblemático que lembra grito de torcidas de futebol: “ih, fudeu, Geremia apareceu!”


Na terceira música, “Divine Gosa”, o público começa a subir no palco: a festa está feita. Com três músicas como essa logo no início, com uma banda disposta a fazer de suas apresentações eventos memoráveis e com uma platéia disposta a entrar no clima, não havia o que dar errado. O show do Bonde do Rolê tinha se tornado marcante já nos seus primeiros minutos.

Mas a sujeira ainda não acabaria ali. Em alguma hora Pedro tira de dentro de sua fralda o que a deixava cheia – uma pasta marrom, grossa e feia: seria cocô? – e espalha pelo próprio rosto, pela camisa, pelos braços, passa nas outras vocalistas e joga o resto no público. Bernardino aparece depois com uma sacola cheia de geladinhos (aqueles coloridos, lembra?) rasga alguns e espirra em quem estivesse perto, depois distribui para a galera, que faz a mesma coisa.

Sujeira, sujeira. Os quatro integrantes do Bonde agora estavam imundos: na pele e nas roupas, uma mistura de talco, cerveja, cocô falso e geladinho. A platéia estava quase do mesmo jeito, além de hipnotizada, estupefata com o quão trash era tudo aquilo que ela via. E o pessoal que quisesse dançar ainda tinha que tomar cuidado com a quantidade incrível de cacos de vidro no chão.



Passa tudo tão depressa que é quase um susto quando eles anunciam que vão tocar a última música. O público lamenta, mas logo em seguida Gorky manda o loop de “Solta o frango” e o palco é imediatamente tomado de fãs, que cantam o hit berrando e tentando aproveitar o máximo possível os últimos momentos desse evento que sabem ser único.

Mas a música acaba. O palco esvazia, o Bonde vai embora. Só fica a sujeira. Muita sujeira. Não teve como não sentir dó do pessoal da limpeza, que entrou em ação com uma cara de pouquíssimos amigos.

Assim como não teve como não ficar pensando que porcaria toda foi aquela. Que tipo de show, que tipo de banda é essa que atira geladinho e cocô falso ao seu público fiel, entusiasmado?

É o tipo de banda do Bonde do Rolê. O quarteto fez um show tão ruim, de tão elevado grau de tosquice, que deve ter sido um dos melhores e mais espetaculares shows vistos em Curitiba nos últimos anos.

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Bati um papo com eles um pouco antes de subirem ao palco e a conversa passou pelos assuntos mais variados possíveis: do disco novo à gravação de vídeo em favela do Rio de Janeiro, passando pela vidente do grupo e por um caranguejo encontrado vivo na comida de um restaurante do centro de Curitiba.
  
O negócio foi mais ou menos o seguinte: eu chego no camarim e estou me preparando para fazer as primeiras perguntas, quando escuto um barulho de porta abrindo e sinto um cheiro horrível, daqueles de banheiro depois do almoço. De repente todos no camarim se matam de rir. Olho para o lado e vejo Laura Taylor saindo do sanitário, gargalhando também.

Ana Bernardino – [gargalhadas] Foi você né Laura! Foi você né!
Laura Taylor – ai gente, não sei o que falar.

Alguém ainda tira algum sarro de Laura. Pedro mostra interesse no que eu quero perguntar, mas tanto ele quanto Gorky parecem cansados, e concluo que eles estão mais interessados em se livrar das perguntas e começar a beber mais intensamente, se preparando para o show. Pergunto como é tocar em Curitiba depois de três anos.

Pedro D’Eyrot – É muito louco, tem vários amigos meus aí...
Ana – ...seu pai está aí...
Rodrigo Gorky – O pai do Pedro tá aí.
Pedro – ...meu pai tá aí, a japonesa gostosa que eu era apaixonado no cefet ta aí... [todos se espantam]
Ana – nossa, aquela japonesa linda!
Pedro – você conhece a japonesa gostosa do cefet?

Respondo que conheço várias japonesas do cefet, mas nenhuma muito gostosa.

Pedro – o que mais você quer saber, meu filho?

Reza a lenda que o nome Bonde do Rolê vem da Lanches Rolê, lanchonete na Vicente Machado onde Gorky e Pedro comiam regularmente. Pergunto se já voltaram lá pra ver se rola algum tipo de homenagem.

Pedro – reformaram o Rolê cara!
Gorky – a gente passou do lado.
Pedro – não rola nem um pôster.

Não rola nem uma homenagemzinha. Gorky aponta para as meninas e pergunta para Pedro:

Gorky – cara, a gente podia levar elas lá amanhã né?
Pedro – é, vocês podiam ir no Rolê... que horas que é o voo, alguém checou?
Gorky – quatro da tarde.
Pedro – quatro? O do Copacabana é meio dia.

No dia seguinte (17) o Bonde do Rolê tocaria junto com o Copacabana Club em Porto Alegre. Não parece que estou entrevistando o grupo, mas que apenas estou dando tópicos para os quatro conversarem entre si. Mas mesmo assim continuo e pergunto a respeito do churrasco na laje, que foi um vídeo gravado em uma famosa locação numa laje na favela Tavares Bastos, no Rio de Janeiro.

Gorky – ah, era uma curtição, era uma vibe legal, era uma vibe praia no Rio, calor, sol, churrasco e bebida de graça para os amigos.



E como foi fazer aquilo no meio da favela?

Pedro – rolou uns pipocos, a gente se abaixava, passava bala perdida...
Gorky – é que com o suíngue as pessoas não percebem. Tinha granada...
Pedro – não, granada não tinha porque o povo era do bem. Tinha umas bombas caseiras, uns copinhos de mijo [risos]
Ana – a gente tava mostrando a favela mais linda do Rio de Janeiro.
Pedro – o pessoal lá era do bem.
Gorky – o Hulk foi gravado lá [naquela laje]. Do lado tem o estúdio da Record.
Pedro – não é estúdio.
Gorky – é, é locação.

Alguma das meninas fala que o lugar que ela queria morar era ali. Associo os fatos e pergunto se não era mesmo no meio da favela então.

Pedro – não.
Ana, Laura e Gorky – era!
Pedro – era uma favela mas era uma zona sem tráfico.
Gorky – do bem!

Próxima pergunta. O primeiro álbum do grupo, “With Lasers”, saiu pelo selo Mad Decent, do produtor norte-americano Diplo. O segundo está vindo aí. Vai sair pelo mesmo selo?

Pedro – vai... é que a Mad Decent licencia o disco para uma gravadora que a gente não sabe qual vai ser.

A partir daí Pedro e Gorky começam a conversar alguma coisa ininteligível sobre quantidade de discos, mas demora para cair a ficha que eles estão se referindo a alguma outra coisa subentendida entre os dois da qual eu não fazia ideia do que era.

Gorky – ...são dois discos...
Pedro – ...são DEZ discos...
Gorky – ...ah, vai tomar no cu!

A explicação veio em seguida:

Gorky – a nossa vidente falou...
Pedro – ...a gente veio pra Curitiba e foi ver nossa vidente...
Gorky – ela falou que a gente vai lançar dois discos... [para Pedro] puta, a gente tem começar a falar disso de verdade! [para mim] ...olha, ela falou que dos nossos discos, um fica pronto em março, o outro fica pronto em outubro, os dois vão ser lançados ano que vem e vão ser um sucesso. Foi isso que a nossa vidente nos disse e se você quiser o telefone dela você pode ir lá pra confirmar.

Nessa hora todo mundo começa a falar ao mesmo tempo e, não sei como, o tema da conversa descambou e foi parar em um restaurante chinês da Rua Comendador Araújo.

Pedro – o Fonk! O Fonk é zoado.
Gorky – [com nojo] eu vi uma foto que acharam um caranguejo vivo no meio da comida.
Pedro – [rindo] eu vi! Eu vi no facebook!

A conversa segue girando e agora chega no sebo Fígaro, no qual Gorky fala para Laura que ela iria pirar. Até o momento em que Pedro me fala que eu preciso interrompê-los se não eu ficaria ali até o dia seguinte. Faço uma última pergunta: se o disco novo realmente tem “travesti” como tema único.

Pedro – a gente fez um disco de samba na verdade, só com músicas de travesti. Não é “O” novo disco do Bonde do Rolê, é tipo um projeto...
Gorky – é tipo, sabe quando o Quentin Tarantino brilha e não dirige o filme, só produz? Sabe, ele diz que é um filme dele, mas é outra pira?
Pedro – “Bonde do Rolê apresenta Samba de Traveco”. Não é o nome oficial ainda mas a ideia é essa. 

Quando estou saindo, Pedro vai até um canto onde estão depositadas várias latas de cerveja vazias e pergunta "cadê minha cerveja? eu sempre perco ela". Estou indo embora, desejo bom show a todos e Ana e Laura me olham com um sorriso meio sério, como que se divertindo mas concentradas. Cerca de uma hora depois o Bonde subiu ao palco e fez uma das apresentações mais sujas dos últimos tempos. 


18/08/2010

vem aí: ruído/mm

Já faz tempo hein? Já estava ficando com saudades. Alguém aí me corrija se eu estiver errado,  mas o último foi láá em março, em uma noite foda junto com a Yokofive, não? O fato é que depois desse tempo todo poderemos finalmente presenciar mais um show do ruído/mm. É sim senhor. Sexta feira agora, lá no Wonka.


Este que é o grupo que tenho poucas dúvidas na hora de afirmar que, entre os que estão em ação na cidade no momento, é um dos melhores (se não ele próprio) e que uma vez já foi esmiuçado aqui, volta a entrar em ação: agora como um pré-aquecimento para o festival Pequenas Sessões, a ser realizado no final desse mês de agosto em Belo Horizonte.

Entre profundezas climáticas, colinas enevoadas, paredes sonoras, viagens ultradimensionais, texturas densas, efeitos bolha e, será?, gestalt, estão as músicas do ruído/mm, e ter a chance de vê-las "fora do papel", "fora do disco", ou melhor, "ao vivo", é coisa indispensável. Tanto mais porque esses shows ruidosos são competentíssimos e rareados.

Bom, me derramei em elogios aqui, mas é isso mesmo. E pra deixar a noite ainda mais especial, a discotecagem fica por conta do pessoal da Antipista. Coisa fina: música boa para dançar comportado. Vale a pena hein.

SERVIÇO:
ruído/mm + Antipista
Wonka bar
20 de agosto de 2010, sexta.
Entrada: R$8 até 00h, depois R$12.

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E quinta agora, dia 19, um dia antes do show do ruído, tem Homemade Blockbuster e Some Community no James. Também vale a pena hein.

15/08/2010

brincando de fazer música

Foto: Divulgação


Que o Pato Fu é perfeito quando o assunto é fazer releituras de músicas de outros artistas todo mundo já está cansado de saber. Que a Fernanda Takai é das musicistas mais adoráveis desse país, também não é nenhuma novidade (se você não se lembra, falamos nesse post). Como é que eles conseguem continuar nos surpreendendo?

Imagine a seguinte situação: você acaba de chegar em casa, tarde da noite, voltando do trabalho ou faculdade, quando se depara com uma imensa bagunça em seu quarto. Seu irmão caçula (ou filho, ou sobrinho, ou quem quer que seja o pequeno homicida) parece ter passado o tempo todo em que você esteve fora brincando com absolutamente todos os brinquedos que ele tem, e agora dorme como um anjo deitado em sua cama. É carrinho jogado pra um lado, boneco pro outro... Agora vem a pergunta: como você reage a essa situação? Opção a) dá uma surra no moleque pra ele não fazer isso de novo, b) mantém-se calmo, arruma tudo e vai dormir, c) dorme na sala e no dia seguinte faz a criança organizar tudo, ou d) fica com vontade de ser criança de novo e começa a brincar com tudo.

...

E então? Já decidiu? Ainda não? Pois então lamento lhe informar que seu tempo acabou. Enquanto você permanecia de pé em frente aquela cena pensando no que fazer, 5 pessoas estranhas vindas do além entraram no quarto quase que te atropelando, sentaram no meio de toda a bagunça, procuraram qualquer objeto que emitisse algum tipo de som e começaram a brincar de fazer música. E ainda acordaram a criança pra participar.

Essas cinco pessoas podem ser Fernanda Takai, John Ulhoa, Ricardo Koctus, Xande Tamietti e Lulu Camargo, e o resultado desse gracejo se chama Música de Brinquedo, novo trabalho do Pato Fu. São 12 faixas releituras de canções que vão de Zé Ramalho a Paul McCartney, passando por Rita Lee e Elvis Presley, em rearranjos compostos por pianos de brinquedo, saxofones de plástico, realejos, instrumentos de musicalização infantil, entre outros. Difícil de acreditar? Então dá só uma olhada em um dos vídeos que a banda disponibilizou:


O álbum inteiro é incrível, a começar pelos arranjos muito bem adaptados aos instrumentos de brinquedo. É surpreendente, não podia ser diferente. A imprevisibilidade das crianças que cantam ao longo de todo o disco proporciona ao ouvinte situações adoráveis, como no refrão de Live and Let die. Ouvir os pequeninos falando inglês por si só já é adorável, mas fazê-los cantar no idioma estrangeiro e gritar hey hey hey! em My Girl já é jogo baixo. Entre as nacionais, Pelo Interfone sintetiza toda a inocência encontrada no álbum, enquanto Ovelha Negra é como uma criança fazendo pose de adulto. Desconfio até que Música de Brinquedo seja capaz de amolecer o coração de qualquer marmanjo.

O mais legal é que o Pato Fu já estreou o show de brinquedo no último dia 8, no Rio de Janeiro e garantiu em seu site oficial que deu certo. Algumas fotos podem ser vistas aqui, pra matar um pouco da curiosidade. Se bem que a minha só vai ser matada quando esse show vier pra cá. Fica a expectativa...

11/08/2010

o caso patológico Arcade Fire



Nome do paciente: Arcade Fire
Nacionalidade: Canadense
Plano de saúde: Mercury/Merge Records
Situação clínica: 3° álbum recém lançado


Não é de hoje que aparecem por aí aquelas bandas indies super legais que lançam um álbum ou EP aclamado, geram grande expectativa por parte da crítica, e logo após acabam subitamente, ou não conseguem atingir o nível esperado nos próximos trabalhos. Daí origina-se a temida e tão falada síndrome do segundo álbum, que passa a ser uma prova de sobrevivência pra algumas dessas bandas que originaram-se de um surto de criatividade, muitas vezes único, infelizmente.

Tendo conseguido emplacar um segundo álbum, as coisas ficam um pouco mais fáceis para os músicos, mas também não adianta se iludir. Para os que conseguem se sair bem frente a síndrome do segundo álbum, por algumas vezes parece deixar uma sequela no álbum seguinte. Esse trauma pode se manifestar como um leve enlouquecimento (crise de meia idade?), digamos assim, que leva os músicos a quererem trazer algo bastante diferente no terceiro disco, aparentemente cansando do já apresentado nos trabalhos anteriores. Assim foi com os Strokes no First Impressions Of Earth, exemplo positivo de reformulação na construção das novas músicas, e também com o Arctic Monkeys, que chamou ninguém mais que Josh Homme pra comandar a inovação do terceiro disco que, bem, deixa pra lá...

The Suburbs foi lançado pelo Arcade Fire oficialmente no último dia 3. Nos dias seguintes (4 e 5) a banda já emendou dois shows lindos no Madison Square Garden (NY), o segundo deles, inclusive, com transmissão ao vivo pelo Youtube. Por conta de todo o desgaste decorrente da jornada intensa de época de lançamento, o grupo canadense esteve sob observação da equipe médica defenestrada, que se reuniu durante a última semana para analisar o caso Arcade Fire.

Breve histórico patológico do paciente

Chega até a ser contraditório, mas o Arcade Fire nasceu com Funeral, disco de 2004. A mídia já de cara apontou-o como grande promessa, e apesar da infância mimada, uma boa dose de disciplina musical fez com que a banda passasse pelo segundo álbum quase sem sintomas de síndrome alguma: Neon Bible (2006) é tão bom quanto o primeiro. Desde que era pequeno o Arcade Fire já demonstrava ótima capacidade de lidar com diversos instrumentos musicais (como violino, violoncelo, acordeão...) sem se tornar intragável num conceito de banda de rock.

O diagnóstico


A equipe médica defenestrada vem dar boas notícias ao público. O Arcade Fire vai muito bem, obrigado. Melhor do que nunca, aliás. The Suburbs não tem crise alguma, muito menos de meia idade. É um belo álbum conceitual, inspirado na infância dos integrantes nos suburbios de Houston, que exibe nítida evolução, mas sobretudo mantém o que o Arcade Fire tem de mais fascinante: a capacidade de ser nostálgico, mesmo ao ser ouvido pela primeira vez. O psicólogo chegou a ser solicitado para avaliar mais detalhadamente a melancolia considerável apresentada ao longo da maior parte do álbum; e o cardiologista também notou alguns momentos de aceleração súbita do ritmo cardíaco (faixas Ready To Start, Empty Room e Month Of May), mas o clima gostoso da faixa inicial (a homônima The Suburbs) é capaz de desmentir qualquer suspeita de complicação maior. A variação de ritmos está mais pra uma virtude do álbum do que pra outra coisa. Além das já citadas, destaque para Rococo e Wasted Hours, a baladinha ao modo Arcade Fire, ou seja, grandiosa.


Levando em consideração o mais do que perfeito estado de saúde, declaramos que o Arcade Fire recebe alta hospitalar e portanto está liberado para seguir turnê. Há, contudo, um risco considerável de que haja um avanço no quadro de status musical da banda, que pode passar a integrar um grupo seleto de artistas que fazem shows em grandes estádios.

08/08/2010

enquanto isso na Rádio Levi's




A Rádio Levi's tem uma iniciativa bacana. Fazer uma "parada de sucesso" das bandas independentes brasileiras. Segundo a bio da rádio, "quem decide quem fica no topo é você, e não o jabá das gravadoras". Coisa bonita, dá pra ter uma ideia bacana do que o pessoal tá curtindo, mas é sempre bom ficar com aquele pé atrás.

De qualquer jeito, há uma coisa muito importante a ser comentada por aqui, e é o seguinte. Na vigésima primeira hora desse domingo, oitavo dia do mês de agosto do 2010º ano de Sua graça, o ranking do site aponta, entre todas as outras, as seguintes bandas nas seguintes colocações e com as seguintes músicas:

3º - Rosie and Me - Bonfires
7º - Monaco Beach - Drowning in my dreams
11º - Narciso Nada - Objeto
14º - Copacabana Club - Just do it
15º - Subburbia - U R here
28º - Anacrônica - O que será
31º - Charme Chulo - Três Marias
34º - Dasvelas - Eu acredito em você
39º - Terminal Guadalupe (cof! cof! pigarro.) - O gongo 
43º - Homemade Blockbuster - Dance moves

Se a parada de sucessos da Levi's tem 61 artistas/bandas, e se dez dessas 61 são de Curitiba, uma coisa aqui fica muito clara. Bem clara. Não vou dizer o que é pra você tirar suas próprias conclusões, mas o negócio é óbvio.

É bom fazer uma ressalva: os grupos estão em campanha. Quem arrecadar mais votos no site ganha o direito de se apresentar no South by Southwest (SXSW) ano que vem através da Levi's, se entendi direito (e alguém por favor me corrija se eu estiver errado!). Tal fato tira um pouco da espontaneidade dos votos, e a gente sabe que votações populares são complicadas de se lidar, especialmente em campanhas como essa.

De qualquer jeito, não espantemos o otimismo! A coisa está bem boa, como você vê acima. Prestou atenção nos novos nomes? Pois então. E que fique bem claro, a nova geração não se restringe apenas àquelas bandas que colocamos aqui naquele post, muito pelo contrário! Tem muita coisa boa mais além rolando por aí e que ainda não conseguimos captar. Pra você ter uma ideia.

Sugestão de mais outras bandas novas bacanas? Deixa nos comentários ou manda e-mail pra defenestrandoblog [@] gmail.com, all right? 

tchau!

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Veja bem, esse post não foi pago. É mídia espontânea. haha.
O dia que resolverem pagar pra gente fazer um post... tá longe hein?

01/08/2010

garoto laranja

Quinta feira passada, numa grande noite que este blog gostaria muito de ter presenciado, Rodrigo Lemos, ex-vocalista da Poléxia, lançou oficialmente seu EP de estreia em carreira solo num show de abertura para o NeviltonEste último (já comentado meio rapidamente uma vez por aqui) não vem ao caso, não nesse momento. O que queremos falar aqui é a respeito do EP lançado naquela noite. 


No que diz respeito à musica, Lemos vai bem, obrigado. As cinco músicas do compilado estão leves, urbanas, gostosas de ouvir. Dessas que grudam na sua cabeça e você fica ouvindo repetidamente, tranquilo. Tirando Menina Laranja, rock guitarrado que parece meio estranho aos primeiros segundos mas que vai se desenrolando e entrando no seu organismo até fazer você se sentir bem. Há uma dorzinha presente quando Lemos canta "ma-a-a-ais", alguma espécie de incômodo, o rapaz parece que está passando mal, há alguma coisa tentando sair de sua garganta. Mas aí você precisa ouvir a música para entender o que estou falando.

Temos também nesse EP uma das melhores canções do ano até agora em Curitiba, Alice, música tão singela quanto bonita. O que dizer daquele comecinho suave de Ukulele em que Lemos entra cantando e descrevendo a garota que "veio dividindo o bem e o mal"? Coisa fina. A coisa vai crescendo até que chegamos ao ápice de singeleza: "onde mora o seu sorriso durmo eu no assoalho" canta o compositor.

Agora, há alguma coisa aí muito importante a se dizer: quando um músico se afasta do grupo que o consagrou (sejam quais forem os motivos) e lança-se em carreira solo, as comparações serão sempre inevitáveis. Lemos não se vê longe dessa premissa: quem conhece bem a Poléxia irá notar as semelhanças lógicas, que o diga em Menina Laranja. Alguns timbres e mesmo a construção das músicas remetem ao grupo que encerrou as atividades no ano passado. Mas isso não é ruim, apenas confirma a posição de Lemos como cabeça pensante dentro dessa que foi sem dúvida uma das bandas mais marcantes da cidade.

Por essas e outras o EP solo de Lemos vale uma boa ouvida. É tanto uma ótima escapada para os órfãos de Poléxia quanto uma oportunidade para os que desconhecem o grupo conhecerem mais esse ótimo artista. 

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Você baixa o EP inteirinho aqui.