Alguns músicos são notícia principalmente pelo trabalho que fazem em cima do palco, ou dentro do estúdio. Outros aparecem mais por conta de escândalos da vida pessoal, que nada tem a ver com a vida artística. Já para Pete Dohertys e Amy Winehouses, é comum ser destaque em ambas as situações. Bem, talvez a maioria dos artistas não seja artista em tempo integral, e assim que descem do palco, saem do estúdio, ou mesmo quando a turnê acaba, os artistas de plantão deixam toda a arte de lado pra cuidarem de suas famílias, jogarem videogame ou quem sabe cortarem as unhas do pé. Ora, mas antes que vocês, leitores defenestrados, comecem a crucificar seus maiores ídolos ou convoquem toda a família restart para apedrejar este pobre blogueiro, vamos assumir que esse fenômeno é perfeitamente compreensível, e não condenável. Afinal, viver mergulhado na dimensão artística do universo durante 24 horas por dia é capacidade de poucos. Os mais excepcionais, talvez. E é justamente essa dificuldade em separar a face artística da face pessoal da vida de John Frusciante que o torna digno de um post especial.
John Frusciante é mais reconhecido pelo seu trabalho com os Red Hot Chili Peppers, que durou mais de 15 anos. Quem acompanha os noticiários musicais deve se lembrar que no início desse ano, Frusciante anunciou que estava de saída dos Peppers para se dedicar inteiramente às suas próprias músicas.
A carreira solo de John começou logo após seu primeiro período de afastamento dos Red Hot Chili Peppers, em 1992, ao entrar no que viria a ser um longo período de dependência química.
Não seria exagero algum chamar a carreira solo de John Frusciante de autobiografia, tamanha sintonia existente entre seu trabalho musical e sua vida pessoal. Seus dois primeiros álbuns (Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt e Smile from the Streets You Hold) mostram o período mais obscuro de sua existência. Foram gravados na própria casa de John, entre os anos de 1992 e 1993, sob reclusão total, num período em que o músico passava seus dias inteiros pintando, compondo, escrevendo e consumindo heroína. John chegou a afirmar que gastava cerca de dois cadernos por semana com letras de músicas. Toda essa atmosfera carregada motivou na época Johnny Depp, amigo próximo de John, a dirigir um curto documentário intitulado "Stuff", que retrata um pouco do ambiente em que vivia John Frusciante em seus dias mais sensíveis.
Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt é cheio de guitarras, violões, banjos e pianos melancólicos, e foi gravado com equipamento amador. Como muito bem definiu a revista Rolling Stone, ouvi-lo "é como caminhar dentro do apartamento de John". A baixa qualidade de captação de áudio (lo-fi) deixa o álbum mais íntimo ainda, e é ótima companhia para dias introspectivos. Smile from the Streets You Hold reúne as músicas que ficaram de fora do primeiro, lançadas mais tarde neste álbum que tinha como objetivo fazer dinheiro para comprar mais drogas.
John nunca ficou muito tempo sem lançar algo novo. Se recuperou da dependência química em 1998 e de lá pra cá lançou 8 álbuns e incontáveis EPs em parceria com Omar Rodriguez Lopez (The Mars Volta) ou Josh Klinghoffer (indicado por John para assumir as guitarras do Red Hot). Nada tão lo-fi e moribundo como os dois primeiros. O excesso de material não caracteriza a falta de qualidade, mesmo porque o que está em jogo não é a qualidade, mas a livre e pura expressão. Pouco chega às lojas de discos, ainda mais no Brasil, mas o trabalho de John Frusciante está espalhado pela internet pronto para ser explorado. Abaixo segue as principais recomendções defenestradas do artista, à quem possa interessar:
Niandra Lades & Usually Just a T-Shirt (1994)
To Record Only Water for Ten Days (2001)
Shadows Collide With People (2004)
The Will To Death (2004)
Ataxia - Automatic Writting (2004)
Ataxia - Automatic Writting II (2007)
The Empyrean (2009)