30/05/2010

vem aí: Thiago Pethit

Pausa para um exercício de imaginação: pense num rapaz meio magro, cabelo na moda, visual moderno. Ele está tocando um piano (desses de armário) de um pequeno auditório francês rebuscado, vazio e pouco iluminado. A música que ele toca tem melodia simples e algum grau de melancolia, mas sua voz canta alguma alegria em uma letra tristonha. Ele sofre cantando lembranças, mas se purifica no processo.

Deu pra visualizar mais ou menos? Essa na verdade é só uma das inúmeras imagens que podem vir à mente enquanto ouvimos o álbum Berlim, Texas do Thiago Pethit. Coisa fina. O disco já vem cheio de respaldo da mídia especializada e não é pra pouco. É mais um pouco de eufonia (ou seja, sons completamente agradáveis -- usarei muito esse termo daqui pra frente) pra gente se deliciar. Ouça com os seus próprios ouvidos:


Outra imagem bem imaginável do disco é um cidadão com seus 30 anos de idade, sentado sozinho em uma mesa num canto escuro de algum cabaré dos subúrbios de Paris. Ele está absorto em pensamentos e bebericando algo em um copo cheio, olhando para o palco mas sem prestar atenção nos movimentos espalhafatosos das dançarinas. Ninguém o percebe ali, nem ele quer perceber ninguém, nem ser percebido.

Thiago Pethit vem a Curitiba essa semana. Oportunidade imperdível de escapismo: indo ao show e deixando-se levar pela música, você foge dessa cidade em que vive tentando não ser assaltado e viaja por alguns minutos até alguma boate parisiense suja e espetacular.


Vai ser dia 4, sexta-feira agora, a partir das 22h lá no Era só o que faltava. O investimento é de 10 reais na meia entrada e 20 na inteira

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Um outro evento bacana: dia 2, quarta-feira agora, véspera de feriado, o Monaco Beach faz festa de lançamento do classudo EP Drowning in my dreams, lá no Sláinte. Mais informações aqui.


O Monaco Beach tem me chamado a atenção, juntamente com o Homemade Blockbuster. São duas bandas curitibanas que estão surgindo fortes aí, constituindo uma nova geração de bandas na cidade (isso já é possível?), posterior aos consolidados Sabonetes e Anacrônica que têm debandado para São Paulo. Fiz uns comentários rápidos lá no twitter, e quero ver se no próximo post eu alongo um pouco mais esses pensamentos. Vamos ver se as Forças Maiores (leia-se falta de tempo e/ou preguiça) não me impedem.


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23/05/2010

o caso Apanhador Só



Está aqui em cima da mesa. Uma caixinha quadrada fina, de papelão, verde escura, com uma bicicleta infantil desenhada na frente. A bicicleta, no caso, no lugar onde seria o guidão tem adaptada uma outra roda. Atrás da caixinha, em letras pequenininhas, estão escritas duas palavras que apresentam, quase que com timidez e/ou medo de se projetar, um nome: "Apanhador Só". Dentro estão cartões com ilustrações e letras de música e um disco: o disco de estreia do Apanhador Só. E um grande motivo para celebrar a música (ou mais particularmente o atual rock independente brasileiro).



A história a que tenho acesso começa ainda em meados do ano passado, quando a banda entrou em estúdio para gravar seu primeiro álbum (em um processo que foi devidamente registrado pela espertíssima Agência Alavanca -- responsável pelo agenciamento da banda -- em forma de um diário escrito pelo vocalista Alexandre Kumpinski). Depois, já em abril desse ano, o Apanhador levou a público a bolacha e foi extremamente bem recebido em incontáveis jornais e blogs especializados.

E essa recepção positiva é mais do que justificável, afinal, são 13 faixas que trazem sensacionais exemplos de música bem-construída; "música linda" talvez seja ainda um termo mais correto, a deixar como exceção "Jesus, o padeiro e o coveiro", que parte para um indie rock mais obscuro mas que não apresenta menos qualidade do que qualquer outro número do disco (gosto de comparar o porto-alegrense Apanhador com os curitibanos do Sabonetes: enquanto estes colocam uma nota bonita após outra ainda melhor mas esbarram numa superficialidade harmoniosamente hormonal, aqueles também procuram uma sequência linda, mas mergulham mais profundamente na complexidade de melodias mais difíceis de se compreender).


Kumpinski

Símbolo dessa "boa-construção" é a quarta faixa, "Maria Augusta", sossegadamente uma das melhores músicas que já ouvi, na qual tudo soa absolutamente bem e onde há quase uma dança eufônica de quadrilha. As linhas das duas guitarras e do baixo percorrem trilhas paralelas à voz, mas dão a ela todas as condições para fazer um ótimo trabalho, como um jogador que dá a assistência para o atacante fazer um golaço. E como um quentão que estimula a dança em uma fria festa junina sulista, a banda empurra a voz de Kumpinski para poucos e singelos versos: "Maria Augusta, Antônio, Vera e José / nos convidaram pra dançar um arrasta-pé / se por acaso tu disser que não me quer / eu vou correndo arranjar outra mulher".

Depois disso o arrasta-pé acaba repentinamente, muda-se o ritmo e inicia-se uma ciranda carnavalesca, quase uma roda infantil. A sensação é de alegria, mas o narrador ainda está no clima mais melancólico da dança anterior: "Tô rouco... / tô rouco aham... / tô rouco de saudade de você". Prestar atenção nos prolongamentos do "o" no primeiro "tô rouco" e do "ã" em "aham", os segundos mais bonitos desse grande disco.


"Nescafé" é outro destaque do álbum ao fazer uso de versos que fogem do comum ao caírem no campo poético do inesperado ("eu cuspo nescafé e você chora leite de manhã") para retratar a densidade de um casal que não se entende. E há lá um refrão que transmite uma sensação musical de grandeza que é difícil de explicar (fruto da voz filtrada, da guitarra distorcida e de acordes bem pensados), e que agrada muito.


Cada música desse compilado mereceria separadamente dois ou três ou ainda mais parágrafos de análise cuidadosa, mas há ainda outras coisas a serem ditas neste texto. Deixo a dissertação detalhada do disco para alguém que tenha ainda mais paciência.


O incrível sentimento agradável de se estar em uma grande noite


Ciente de que gravar um ótimo álbum não é o suficiente, de que é preciso divulgá-lo, o Apanhador saiu lá de Porto Alegre para realizar turnê de seu lançamento. Foram duas semanas fazendo muitos shows principalmente em São Paulo mas também em Presidente Prudente e Maringá, encerrando a série em uma noite de domingo agradavelmente especial no James, onde o Apanhador dividiu o palco com a Banda Gentileza (de cujos show e disco espetaculares e relação curiosa com este blogueiro já comentamos aqui).


Felipe Zancanaro, guitarrista, toca bicicleta no escuro


Foi bom. Quem estava lá sabe disso. "Uma das melhores noites da história recente do James" disse Eder Costa, colaborador do agitado In New Music We Trust, em seu twitter. É claro que o showzaço da Gentileza (ao qual alguns curitibanos já devem estar habituados) contribuiu muito para a memorabilidade da noite, mas as estrelas foram mesmo os gaúchos com toda a sua técnica, singeleza, descontração e musicalidade.


Quando subiram ao palco (onde estava, materializada, a bicicletinha que ilustra a capa do disco e que serve de percussão em uma das músicas), os quatro guris estavam visivelmente cansados da rotina dos dias anteriores, mas o cansaço não foi o suficiente para impedir que fizessem um show tão bonito quanto o esperado. Começaram logo com "Prédio", a alegre canção que registra um refrão precioso: "não é o prédio que tá caindo / são as nuvens que tão passando".



Alguns números depois, enquanto tocavam "Um rei e o Zé" e a plateia cantava alto mostrando que sabia a letra de cor, uma cena bonita: Pamela Leme, uma das cabeças pensantes por trás da Agência Alavanca, vira-se para mim e diz, com alegria: "tô quase chorando." Pamela acompanhou todos os shows e entrevistas que o Apanhador fez naquelas duas semanas e estava emocionada porque a turnê se encerrava agora com tanto êxito como começou e foi desenrolada; em cima do palco a banda também se mostrava tocada, feliz. E a felicidade dos músicos em estarem se apresentando é uma coisa que é sempre percebida pela plateia, que se estiver bem-disposta (como era o caso) retribuirá à banda, que ficará ainda mais feliz, como num círculo positivamente vicioso.


E cada música, conforme o show passava, dava a certeza de que o que se presenciava era uma grande noite, uma noite de felicidade, mas uma felicidade que só um Apanhador Só sabe proporcionar. Para finalizar, a banda encerrou sua apresentação com "Vila do 1/2 dia", na qual o repórter até foi convidado para subir ao palco e ajudar no coro dos felizes "laiá laiáá" que contrastam com uma letra tristonha ("a coisa tá ficando preta / o céu já vai perdendo azul"). No final, uma batucada grandiosa que finaliza a apresentação em apoteose. Coisa bonita de se ver.


Após tudo isso, olhando para a caixinha verde escura aqui em cima da mesa, essa pequena caixinha que guarda dentro dela um grande disco, dá pra ter certeza: o Apanhador Só pode ser ainda uma banda pequena, mas guarda dentro de si um espírito grandioso. Resta desejar-lhes um futuro tão grande quanto.


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Você leu todo esse post mas ainda não conhece o disco do Apanhador? Então corre pro site da banda pra fazer o download do compilado inteiro!


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pouco menos de um ano, o Sabonetes mudou-se para São Paulo com um objetivo bem definido. Embora alguns possam questionar o valor do objetivo, ele está sendo atingido. Conforme noticiaram brpress e Rock'n'Beats, os ensaboados assinaram com a empresa de Rick Bonadio para fazer o seu agenciamento de shows. Mais para a frente haverá um relançamento do disco físico, mas não dá pra ter certeza se isso tem algo a ver com a empresa de Bonadio, já que as informações dos dois sites não batem.


De qualquer jeito, as bolhinhas estão flutuando cada vez mais alto. Esses também merecem um grande futuro, que na verdade já começa a chegar.


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15/05/2010

eu, a helvetica e o top 5: músicas que começam "com tudo"


No penúltimo post nosso amigo Felipe nos contou duas grandes novidades que farão parte do defenestrando daqui pra frente. A primeira delas foi a apresentação deste que vos fala, sobre o qual logo vocês conhecerão melhor. A segunda novidade foi, para os designers mais conservadores, a mudança de fonte utilizada por aqui, que deixa de ser Arial, substituída pela (praticamente igual) Helvetica Neue.

Não sei se vocês sabem (e nem por qual motivo saberiam disso) mas Helvetia é a designação oficial em latim para a Suíça. Representa uma espécie de personificação do país. Sim sim, da Suíça. O país dos chocolates, do Roger Federer, das contas bancárias e tudo mais.

Pois bem, o que eu queria dizer é que eu não sou suíço, nunca fui a Suíça, não tenho ascendência suíça, não tenho uma conta na Suíça e nem conheço nenhuma banda da Suíça. Na verdade eu até acho que a bandeira deles parece uma cruz de hospital com as cores invertidas. Nada contra o país mas, na boa, essa é uma coisa que todo mundo já deve ter reparado.

Acontece que estou apenas começando a escrever nesse blog e eu podia até me sentir um pouco inseguro, afinal acabo de cair de paraquedas - absolutamente sozinho - neste outro lado do fantástico mundo defenestrado, onde habitam os escritores. Ainda mais se tratando de um mundo tão interessante e bem cuidado nesses 5 anos desde a sua criação (alguns dizem ter acontecido ao longo de 7 dias). O que eu começo a desconfiar agora é que foi justamente a Helvetica que me fez companhia nessa fase de transição e é por isso que eu não me sinto tão intimidado neste que é o meu primeiro post. Queria aproveitar o espaço para agradecer a fonte Helvetica Neue por ter me acompanhado nesse processo e ter sido minha companheira fiel.

Faz todo o sentido.
Estou até começando a gostar da Suíça. Acho que vou torcer pra eles na Copa se o Brasil cair fora.

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Bem, agora que eu já fiz uma introdução, já perambulei por assuntos que passam de latim até a Copa do Mundo, começo achar que eu deveria falar sobre música, afinal, esta é uma página destinada a tal assunto. A verdade é que é difícil chegar assim sem mais nem menos e dizer: "Olá gente, eu sou o novo por aqui e vou começar falando sobre o último disco do Kings Of Leon, ponto." Confesso que custei a pensar em algo para escrever logo de início. Decidi que o mais oportuno seria começar com algo que se relacionasse com o tema "início" e ao mesmo tempo transmitisse um pouco do que os frequentadores deste blog podem esperar dos meus posts. Então veio a ideia de fazer esse top five.

É com muito orgulho que eu apresento-lhes o I Top 5 Chequiniano: músicas que começam "com tudo":

5. Ida Maria - Louie
"Looouieeeeee..."



E quem foi é que disse que pra começar com tudo é preciso agressividade? A norueguesa Ida Maria dispensa qualquer tipo de introdução e já inicia a música soltando a voz, mas sem perder a feminilidade. A batida é no mínimo empolgante, e o que dizer sobre Ida Maria cantando? Fenomenal.

4. Franz Ferdinand - Take Me Out
"So if you're lonely, you know I'm here waiting for you..."



O som da guitarra já começa quase que num susto, que vai passando conforme o baixo dita um ritmo mais contínuo, porém ainda tenso. A letra que segue soa como um convite proibido pra se levantar e fugir, que com o passar da música se transforma praticamente num pedido de socorro na voz grave de Alex Kapranos. É um início frenético para uma música que apenas alguns segundos depois (0:54) muda totalmente o curso pra se adaptar facilmente a qualquer pista de dança indie. Uma boa saída pra descarregar a tensão inicial.

3. Los Hermanos - Azedume
"Tire esse azedume do meu peito e com respeito trate minha dor..."


Só é possível distinguir o início solitário da bateria do som de um metrônomo por conta do barulho metálico que se ouve ao fundo. De repente um acorde despretencioso soa, como que abrindo as portas para um Marcelo Camelo perturbado entrar em cena esbravejando os versos iniciais da música. O que chama atenção é a intensidade emocional interpretada pelo vocalista em cada mísero fonema. Imediatamente em seguida entra o resto do instrumental dando mais peso e continuidade ao desabafo de 1 minuto e 21 segundos que certamente deixou Camelo muito mais aliviado.
[pra você que ainda não sabe, esse cidadão barbudo andou falando por aí que o Los Hermanos talvez faça dois shows este ano, só que só no nordeste]

2. The Beatles - Help!
"Help, I need somebody, help, not just anybody, help, you know I need someone, help..."



Dessa vez os pedidos de socorro são assumidos pelos gritos de "Help!" de Paul e George, acentuados pelo mais do que estridente prato de ataque. Os berros são alternados com as falas do sr. Lennon, até que por fim ele se junta aos outros dois no último e mais sonoro help de todos. O encaixe milimétrico de todos os instrumentos e afinadíssimos vocais é bem a cara dos Beatles. E é assim que a banda de rock mais influente de todos os tempos solta seu grito de aflição sem perder a elegância.

1. Red Hot Chili Peppers - Right On Time
"One shot all I need, I've got rhythm when I bleed"


O tempo do disparo de um tiro é tudo que os Peppers precisam pra literalmente começar a música com tudo. Se você acha que as músicas anteriores nesse top tem inícios explosivos, talvez compare Right On Time à uma bomba atômica, ou quem sabe ao Big Bang. O baterista Chad Smith parece disposto a gastar seus pratos, o que não atrapalha a levada funk da guitarra do agora ex-membro da banda, John Frusciante. Nunca discreto, Flea contribui com uma linha de baixo ágil no refrão, parte mais leve da música, que parece ter sido feita para que o ouvinte feche os olhos e recomponha suas forças ao som da agradável voz do ex-guitarrista. É barulheira, sim, mas sem deixar de ser consciente.



E fica por aqui meu primeiro post neste blog. Desejo a mim mesmo um bom começo. Dizem que a primeira defenestrada a gente nunca esquece...

Eu e a Helvetica aguardamos ansiosos pelos comentários.


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09/05/2010

existem 3 coisas Na Cidade

Preciso dizer uma coisa antes de começar esse próximo texto: minha escrita é sempre muito influenciada pelo livro que li mais recentemente, exceto que seja algo muito ruim. Sendo assim, a resenha a seguir terá influência direta de Lester Bangs e de suas "Reações Psicóticas" (os leitores mais antenados perceberão), livro que aqui em casa me recomendaram a leitura e que retransmito a recomendação a todos que de alguma forma se interessem por crítica de rock: diz-se que Bangs foi o maior crítico de rock norte americano de todos os tempos, e não é pra menos. O cara escreve demais.

Colocada essa enrolação inicial, vamos discorrer sobre Na Cidade, o disco mais recente da Pata de Elefante.

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A primeira vez que ouvi Na Cidade eu estava dentro de um ônibus lotado. Não eram muito mais do que sete horas da manhã de uma segunda-feira feia, e todos estes fatores obscuros pareceram sumir quando os primeiros riffs do álbum começaram a tocar nos fones de ouvido. Fiz força, tentei me segurar, mas não resisti: a sonzeira era tanta, tão contagiante que comecei a balançar a cabeça de leve, sozinho, indo contra as convenções sociais do comportamento social que é esperado dentro de um ônibus e dando toda a chance para que achassem que eu sou um desses seres estranhos que ficam balançando a cabeça sozinho no ônibus.

Pudera. A Pata de Elefante colocou logo no início da primeira faixa um riff desgraçadamente sensacional, que já dá o recado de todo o seu som, que nada mais é do que o rock essencial e tradicional (que por esses anos tem andado tão sumido -- encontramos algo parecido lá no Nevilton, mas não é a mesma coisa), instrumental, produzido por uma cozinha simples de guitarra-baixo-bateria.

Lá pelo final do disco já estava decidido: aquele era um dos álbuns do ano e merecia uma rara resenha neste blog. A tarefa, no entanto, tinha um complicador engraçado: alguma coisa aconteceu quando fiz o download da bolacha (legalmente e de graça, lá no Álbum Virtual da Trama) e o mostrador do meu mp3 player não mostrava o nome das músicas, apenas o número das faixas. E sabe-se que o título de uma música instrumental influencia diretamente na sua interpretação, já que não há letras. Mas eu não tinha esse "auxílio" do nome e não me restava nada a não ser números para que eu não me perdesse nesse mar de ótimos riffs e solos presenciais.

Acabei ficando perdido, mas ao mesmo tempo estive livre para mergulhar fundo Na Cidade e perceber nela três grandes traços da personalidade desse grande disco: a autoafirmação, a marotagem adolescente e uma mania musical de grandeza. Estes três traços estão presentes o tempo todo, em todas as músicas do álbum, em umas mais e outras menos, mas em três faixas específicas eles se revelam proeminentes. E o negócio está dividido mais ou menos assim:

1) a autoafirmação - É logo na primeira música, "Diga-me com que andas e te direi se eu vou junto", que a autoconfiança de uma banda roqueira (dos velhos moldes?) surge consolidada entre solos de guitarra cruciais e um wah-wah muito bem pressionado (que sempre tento reproduzir abrindo e fechando a boca). É essa autoestima descarada transmitida através de notas musicais que quase me fez dançar sozinho no ônibus.

2) a mania musical de grandeza - É uma coisa difícil de explicar, mas o fato é que o riff devagar de guitarra, a caixa da bateria que tem um som grave e espalhafatoso e a linha sossegada de baixo da faixa três me davam uma sensação definida de largura, de uma grandeza que só é possível sentir em poucas músicas por aí. E qual foi a surpresa ao descobrir que o nome da música é justamente "Grandona"? 

3) a marotagem adolescente - o termo "maroto" não tem explicação. Um adolescente maroto é um adolescente maroto e pronto. E é um desses tipos de cidadãos que encontramos em "Sai da Frente", um adolescente que não bastasse a sua veia propícia à marotagem está afobado em seu clímax de hormônios. É o que esse surf-rock intenso e concentrado deixam transparecer.

Há ainda outras marotagens no álbum, como um pseudo-samba de guitarra e cuíca, uns blues ágeis e umas guitarras invertidas que remetem ao Revolver, dos Beatles.

Tudo isso, toda essa personalidade agitada permeia o disco inteiro, dá umas voltas pelo centro da Cidade e vai parar na última música, "Grande Noite": um riff grandioso, também lento mas extremamente agradável, tocado simultaneamente pela guitarra e por um mellotron (uma espécie de teclado) gostoso retoma ao mesmo tempo em grandes doses a autoestima, a mania de grandeza e o sentimento de marotagem. Tudo isso acaba resultando na confiança característica de um adolescente típico: o rapaz que é tranquilão, na dele, foi à festa, pegou a menina mais sensacional do colégio e agora está voltando pra casa caminhando, numa madrugada gostosa de verão, cheio de si. "Grande Noite" é a festa de encerramento do álbum: a Pata de Elefante foi ao estúdio, gravou um grande disco e agora está encerrando o acontecimento, caminhando pelas ruas numa madrugada saudável, cheia de si.

Sabe aquele guri de uns 15 ou 16 anos que ou todo mundo tem na família ou é aquele amigo seu, que nem aparenta ser roqueiro mas que de vez em quando pega uma guitarra e te surpreende com um solo animal? Então, é por aí. O álbum Na Cidade é um adolescente de uma grande capital tocando guitarra pra caralho.



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E você não pode esquecer que o final de semana que vem vai ser bom:


- BNegão e Os Seletores de Frequência se apresentam no Ambiental dia 14, sexta-feira.
- Otto vem a Curitiba apresentar um dos melhores álbuns brasileiros do ano passado. Também sexta-feira, no John Bull Music Hall.
- Banda Gentileza e Apanhador Só fazem grande noite de domingo, dia 16, no James.


Em qual você vai na sexta-feira, BNegão ou Otto? Deixe um comentário dizendo.


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