No final de semana passado, a pretexto de participar da festa de comemoração dos cinco anos do bar Jacobina, o Móveis Coloniais de Acaju veio a Curitiba para fazer mais um de seus shows já tradicionalmente memoráveis.
Mesmo com uma agenda abarrotada de entrevistas durante a curta estadia da banda na cidade, o Defenestrando conseguiu achar uma brecha e bateu um papinho rápido com André Gonzales, aquele cidadão alto, cabeludo e mega carismático, responsável pelos aconchegantes vocais do grupo. Em pauta, as gravações do primeiro e do segundo disco, a série de shows feita na Europa ano passado e a ciranda que se abre em meio ao público toda vez o Móveis toca Copacabana.
Quando vocês foram gravar o primeiro disco, como que foi a estrutura e tudo mais? Vocês estavam com pouca grana?
Cara, a banda tem doze anos. A gente começou em 1998, sem nenhuma ambição profissional, de forma despretensiosa, por diversão, aquela historinha de sempre, saía junto com os amigos, aí tinha o projeto e tal. E a partir de 2003 a gente começou a ganhar alguma visibilidade, participamos de um concurso pra entrar (e a gente entrou) em um festival enorme... isso exigiu montar uma equipe, estruturar uma equipe com pessoas para trabalhar. E aí de 2003 pra 2005 a gente começou a pensar no disco, que foi mais um registro do que éramos até então. E claro, a gente não tinha grana, então corremos atrás de edital. Aí a gente conseguiu aprovar um lá na secretaria de cultura do Distrito Federal, o FAC, que é o Fundo de Apoio à Cultura. Só que ele não pagava o disco inteiro, pagou só a metade e a tivemos que tirar a outra metade do nosso bolso. Aí no lançamento do disco... a gente produziu o show do lançamento e fez no boca a boca, cada um saiu com uma caixa de discos pra vender. São dez [na banda], a gente conseguiu vender 2010 discos em dez dias. A gente não tinha a quantidade de fãs que a gente tem hoje.
E aquele rolê que vocês deram na Europa, foi antes do segundo disco?
Na verdade foi durante a produção e criação do segundo disco. A gente não conseguiu parar pra fazer o disco, que foi resultado de um ano de trabalho. E aí durante essa época tivemos a oportunidade de receber o convite pra tocar no festival lá da Bélgica. Aí a gente foi pra Bélgica e conseguiu tocar em outros festivais menores... durante a criação do disco. Assistimos uns shows impressionantes, ampliou a visão.
Foi daí que veio a feijoada búlgara?
É, a feijoada búlgara foi o que eu escutei muito antes de fazer o primeiro disco, que tinha muito mais do leste europeu... o segundo disco já vem, digamos, mais processado. Então a gente buscou no segundo uma identidade mais nossa ainda mais evidente. No primeiro disco as referências tão muito claras, do tipo "isso aqui é um samba, isso aqui é um ska, isso aqui é um leste europeu". Já nesse segundo disco não, a coisa já é mais misturada...
...menos identificável.
É, mas continua uma feijoada búlgara.
Eu tava lendo que vocês iam gravar o "C_mpl_te" ao vivo, que rolou uma correria.
Ah é! Cara, foi a maior confusão. Perto de gravar, acho que tava faltando um mês antes de a gente começar a gravar a gente tinha combinado de fazer tudo ao vivo e fazer um DVD junto com o disco. E aí no final o DVD caiu e o Miranda falou "vamos fazer um discão então." E aí em pouco tempo a gente tentou mudar a estética do ao vivo para um disco cheio de dobras, coisa que a gente nunca tinha vivido antes.
E pra gravar esse segundo disco, como que foi o contato de vocês com a Trama? Vocês conversaram com ela, ela conversou com vocês...?
Cara, na verdade a gente foi estimulando o contato da banda com a Trama. Em 2007 fizemos um circuito intenso de festivais e a Trama tem um programa virtual que cobriu todos os eventos e a partir daí a gente se conheceu. Aí concorremos também ao Trama Universitário, no site, e ganhamos em Brasília, no Centro-Oeste. E aí a gente fez um show em São Paulo com a Maria Rita pelo Trama Universitário, e aí demos uma entrevista bacana [para eles] que deu visibilidade. Aí a gente foi se relacionando, foi virando amigo do pessoal. A gente já tinha conversado com o pessoal da Trama sobre o segundo disco mas até então não tínhamos caminhado muito. E aí quando a coisa foi andando, foi se tornando mais palpável, a gente casou isso com o processo do Álbum Virtual e aí foi perfeito cara. Era o que a gente queria, porque a gente não queria deixar de liberar as nossas músicas pela internet.
Vocês estão conseguindo ganhar um dinheirinho legal aí com o negócio?
Pô, foi uma grana legal cara. E isso foi muito bom.
Eles fazem por download ou é um pacotão?
Não, eles pagam por tudo, pelo disco inteiro. Na verdade o patrocinador praticamente paga o disco e paga o artista.
E na forma de tratamento? Quando vocês foram gravar já era uma megaestrutura por ser da Trama?
Cara, é um estúdio excelente. Mas a Trama já tá botando ele pra rodar há muito tempo. Então todos os programas da Trama Virtual, todas as bandas que tocaram por lá passaram por um estúdio que é referência no Brasil, onde gravaram Tom Jobim, Elis Regina, Novos Baianos, muita gente foda.
Um estúdio fraquinho...
É, é! Pô, lá tinha uma mesa sem noção, que eu acho que só tem duas ou três no Brasil.
Muito bom. E esse negócio de ter cada vez mais fãs? Fui num show de vocês aqui em 2008 e tava cheio mas nem tanto, aí depois teve o show que vocês fizeram naquele festival aqui...
...no Lupaluna.
Isso, tava cheiaço lá. E aposto que amanhã [06/03/10] vai estar lotadaço também. Como que é isso?
Cara, isso é muito bom, porque é o nosso trabalho, o nosso objetivo primeiro é esse, de estar interagindo com o público, de estar chegando em mais gente, de estar trocando [sic] com mais gente. E eu acho que o show reflete isso, porque é um show que depende muito do público para acontecer. A gente utiliza muito desse diálogo entre a banda e o público e é isso que faz o show, isso que faz acontecer.
Vocês já largaram os empregos de vocês para tocar?
A gente já largou, só tem um integrante que trabalha ainda, que de vez em quando faz uns bicos, mas atualmente a gente já vive de banda.
Dá pra viver legal?
Digamos que ainda não estamos na melhor situação, que ainda é difícil né, mas a gente consegue pagar aluguel, essas coisas. Dá pra viver cara.
Pra terminar, e aquela rodinha em Copacabana? Vocês vão continuar fazendo até o final da vida? Vão tentar se livrar dela uma hora?
Até então é difícil se livrar dela. [risos] A gente até tentou, teve uns shows que eu não cheguei a ir, a gente não conseguiu abrir uma roda, mas sempre existe a intenção. Acho que é uma coisa que aconteceu que deu certo e acho que simbolicamente representa muito, porque o público quer que a gente esteja junto com eles, que é um momento que reflete a nossa proposta artística mesmo. Então é difícil a gente largar isso e o dia que a gente largar vai ser porque vão existir outros momentos que vão representar essa relação.
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Escrevi também um texto contando um pouco sobre o show deles que aconteceu nessa cidade sábado passado e sobre o crescimento deles nos últimos cinco anos. Deve sair em algum site. Quando publicarem, aviso aqui.
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