14/11/09 – Aeroporto Internacional Afonso Pena, Curitiba, 11h05
Sentado numa das poltronas verde-escuras do avião da webjet e esperando a decolagem, começo a pensar que chego a um cúmulo ao ir até São Paulo só para ver um showzinho. Mas não se trata só de um showzinho, trata-se na verdade de ir acompanhar uma trajetória, uma evolução. Trata-se de ir até São Paulo para testemunhar um parente seu fazer o que ele melhor sabe fazer, e começar a ser reconhecido país afora por isso.
Por motivos que misturam ética e implicância entre irmãos, sempre me esforcei para evitar de comentar a respeito da Banda Gentileza no Defenestrando, salvo duas ou três ocasiões especiais. E quando o fiz, jamais mencionei que o Heitor, o vocalista, é meu irmão – talvez o principal responsável por encaminhar este que vos escreve aos textos e reportagens musicais.
Mas hoje, depois de tantos shows presenciados, de uma certa desconfiança de que suas músicas tivessem muita qualidade, depois da confirmação desta desconfiança por meio da gravação de um excelente álbum de estúdio e de tantos comentários extremamente positivos em tantos blogs, não vejo mais meios de resistir a essa barreira (naturalmente curitibana? mas reforçada pelo fato de sermos irmãos) que impede a troca de elogios. Venho por vias públicas, comovido depois de alguns anos, dizer algumas palavras boas a respeito do cara que dorme na cama de baixo do meu beliche e de sua banda competente. Ir até São Paulo para ver o show de lançamento do seu disco de estréia não deixou, de certa forma, de ser um pretexto para escrever este relato.
Marginal Tietê, São Paulo, por volta das 13h00
Enquanto observo a maior cidade do país se aproximar através do vidro do ônibus que cobre a linha Cumbica/Tatuapé, dou uma relembrada nos fatos e no que já presenciei: o Heitor estava nos primeiros anos de jornalismo na UFPR quando fez, no festival de cinema universitário, o primeiro show “oficial” com o seu grupo, que nem tinha nome ainda. Eu estava lá e fiquei surpreendido com um som bom e divertido (porque um irmão não costuma esperar que o outro vá fazer algo de bom, você me entende). Alguns meses depois fui pela primeira vez a um inferninho para vê-lo tocar (embora o Vanguart tivesse tocado no mesmo bar na mesma noite e eu não fizesse idéia de quem eles fossem).
Depois vieram as gravações dos EPs, que denunciaram um som de qualidade. Mas como saber se a música era boa mesmo? Eu poderia muito bem só estar achando isso porque o grupo era do meu irmão – será que eu acharia a mesma coisa se a mesma banda fosse composta só por desconhecidos? Mas os shows eram sempre ótimos, algumas músicas me arrepiavam, mas não havia parâmetros confiáveis. Como saber?

na Grande Garagem que Grava em 2007, ainda com o Jota na guitarra
E a minha presença naqueles showzinhos era regular: james, korova, jokers, ambiental, praças públicas e vários outros lugares. Estive em tantas apresentações deles que comecei a achá-las entediantes. Para a minha sorte, em julho desse ano de 2009 a Banda Gentileza entrou em estúdio para gravar seu primeiro álbum. Competente, de qualidade, gostoso de ouvir. Nas primeiras ouvidelas cheguei a ficar emocionado, como uma mãe orgulhosa. O disco tinha qualidade para figurar com facilidade entre as listas das melhores compilações brasileiras do ano. E agora, depois de ler tantos comentários e tantas resenhas em tantos blogs, não tenho como duvidar: tenho aqui um irmão que é ótimo compositor e que tem ótima banda para apoiá-lo.
Talvez até valesse a pena, quem sabe não seria uma extravagância ir até São Paulo só para prestigiar o cara.
Espaço +Soma, São Paulo, 21h30
O Espaço +Soma é uma mistura de galeria de arte, bar, lanchonete, casa de shows e loja que vende revistas, livros, pôsteres e outros produtos descolados. Fica localizado na Vila Madalena, que me pareceu um animado bairro boêmio capaz de comportar numa mesma rua bares de motoqueiros, de samba, chopperias, restaurantes japoneses, botequins, borracharias e locais como o Espaço +Soma.
Quando a Gentileza sobe ao palco,Heitor manda o público se deslocar de um lado e vir para o outro, porque o som estaria ruim onde a maioria das pessoas estava, e começa o show logo com a nebulosa “Coración” – sempre ótima, mas que está longe de ser o melhor começo de show que o grupo pode fazer – e passando logo para outras mais animadas como “O indecifrável mistério de Jorge Tadeu” e “Pseudo-eu”, depois indo para as participações de Plínio Profeta (o produtor do disco da Gentileza e de gente como Xis, Pedro Luís e a Parede e Tiê e ganhador de Grammy Latino pela produção de disco do Lenine) no cavaquinho no samba “Preguiça” e na suave “Sempre quase”.

Espaço +Soma. Foto por Bruno Stock
Mas o clímax mesmo é quando Emílio, o guitarrista, faz o solo de cadência brega de “33 B” e Heitor se solta, berrando “aiaiai!” como mexicano, agitando maracas, dançando descontroladamente, berrando spice girls em uma pausa rápida. Todos os espectadores são conquistados ali. Heitor dá espetáculo e deixa várias bocas abertas.
Outro ponto alto é o último número da apresentação, “Afinal de contas”, de letra emocionante e melodia idem, que começa em referências de Los Hermanos e vai parar no rock balcânico. Uma pena que o violino, o instrumento que nas mãos de Heitor (sempre ele) rouba a atenção nessa música, passe por problemas técnicos e que seu som quase não saia nas caixas acústicas – mas o show é encerrado apoteótico mesmo sem ele.

Heitor. Foto por Bruno Stock
O problema, do ponto de vista pessoal, é ter de ver todo esse circo e não mais me surpreender com nada disso. Chega a ser crime ver uma apresentação tão boa e não ficar espantado. Já vi esse show e ouvi tantas vezes essas músicas que o negócio saturou. Perdi os poucos parâmetros que tinha para esse caso.
O que fica são algumas certezas: 1) apesar do parentesco, consigo, ao observar tantas reações positivas do público, finalmente chegar a uma imparcialidade e a partir dela afirmo, com um pouquinho de segurança, que a Gentileza está entre os melhores grupos de rock do Brasil da atualidade e 2) não quero ir a nenhum outro show deles tão cedo. Está bom por enquanto. Vou ao Rio quando o Heitor cumprir a promessa de tocar no Criança Esperança.
O futuro promissor que me parecia evidente à Banda Gentileza dá sinais de estar chegando. Desejo, como irmão, que ele venha bem mais frutuoso do que eu tenha previsto e que Heitor e sua trupe façam dele o melhor proveito possível.
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Para você que ficou atiçado, dia 28 de novembro (sem ser esse, o outro sábado), tem piquenique de lançamento do disco aqui em Curitiba. E depois, no dia 5 de dezembro, eles voltam pra São Paulo para tocar na Funhouse. Mais informações no twitter da banda.
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