O Defenestrando segue em sua viagem pelas bandas mais expressivas de Curitiba. O grupo que expomos nesse post não segue o mesmo estilo das bandas que costumamos expor por aqui, mas é importante saber o que que está acontecendo no geral. Então você fica agora com um trabalho jornalístico pseudo-sério, semelhante (mas em menor escala) do que quero realizar com as Grandes Reportagens. Se acomode aí que a viagem é longa.
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Certa vez, este que vos escreve estava saindo de um estúdio de ensaio com sua modesta bandinha quando o grupo que ia ensaiar no horário seguinte chegou na sala. Eram três garotas, todas aparentando estarem ali na faixa da pós-adolescência. Uma delas tinha cabelo vermelho; uma outra, descolorido. A primeira tocava baixo; a segunda, cantava e tocava guitarra. Na hora fiquei um pouco curioso, mas fui embora poucos minutos depois e esqueci o fato.
Alguns meses mais tarde, para minha surpresa, o mesmo trio subiu ao palco instalado na praça 29 de março para o Expressões Oi (como você leu aqui). Na frente dele, considerável fã clube cantando várias músicas com fé. O nome da banda era Mixtape, um apresentador havia anunciado. As meninas tocaram um rock emo pop com influências de algo mais pesado e entre o repertório de músicas próprias brotaram covers de Marilyn Manson e Cranberries.
O espanto se completou instantes depois: a menina de cabelos descoloridos anunciou que elas fariam o show de lançamento de seu primeiro álbum no Castelinho do Batel. Não seriam vendidos ingressos; eles seriam distribuídos gratuitamente para quem fosse na comunidade da banda no orkut e participasse das promoções. A curiosidade só aumentava.
Mais algumas semanas e o trio sai estampando a capa da Gazetinha, o caderno infanto-juvenil da Gazeta do Povo. Se não me falha a memória, eram três páginas inteiras falando só sobre essas garotas: quem são, o que fizeram, que a gazetinha estaria sorteando um bom número de pares de ingressos para o show no castelo, e que as duas meninas de cabelo colorido tinham 28 anos de idade e eram proprietárias da Vira o Disco, conhecida marca virtual de roupas descoladas (a baterista, de cabelos de cor preta "normal", diz não revelar a idade de jeito nenhum).

Curioso, entrei em contato com a banda e consegui convites. Retirei-os em loja de roupas moderninhas no shopping estação e de quebra ganhei de bônus uma promo (CD com cinco músicas que visa promover um álbum a ser lançado futuramente).
Uma pesquisa rápida na internet antes de começar a escrever alguma coisa sobre a banda e chego no myspace da Mixtape, que já tem mais de 450 mil plays em pouco mais de um ano. Outra pesquisa no youtube e descubro que o clipe da música "Meu mundo", hit da banda, tem mais de 40 mil visualizações naquele site. O vídeo é super produzido. Dá uma olhada:
Somando os fatores, temos um trio de meninas de cabelos coloridos (duas delas têm 28 anos e a outra faz segredo) que toca emo-rock pop, gravam videoclipe caro e fazem show de lançamento de álbum na locação mais chique da cidade, disponibilizando convites gratuitamente. O leitor agora entende a extrema curiosidade deste repórter farsante.
O show em si
Em meio às típicas maratonas de dias feios e frios no inverno curitibano, são comuns ilhas de dias quentes e agradáveis de céu azul. Para a sorte do evento, fazia um final de tarde agradabilíssimo no último domingo (30): temperatura agradável com o sol se pondo devagar pareciam condições ideais para que as pessoas se sentissem estimuladas a sair de casa e ir até o show.
Do lado de fora do castelo, um bom público aguardava o início da apresentação: havia rodinhas de adolescentes emo que aparentavam ter não mais do que 13 anos; havia adolescentes cujos pais foram junto com os filhos; havia grupos de pessoas com roupas descoladinhas; havia uma roda de emos mais marrentos do que muito mano por aí; e havia vários outros que, assim como eu, pareciam ter ido lá por pura curiosidade.

O castelo do Batel. (foto: aqui)
Promoters foram até cada grupinho avisar que o show estava prestes a começar dentro do castelinho. Lá, em um salão chique digno de receber festas da mais alta sociedade de Curitiba, pequena multidão se aglomerava em frente ao palco. Um cabelo rosa e outro descolorido são vistos em uma janela do segundo andar e o resultado é uma surpreendente histeria na frente do palco: parecem ídolos pop. A "girl-band" de Curitiba.
Pouco depois, a música ambiente para e o choro de um bebê anuncia que o show vai finalmente começar. Enquanto uma contagem regressiva de dois minutos é exibida em um telão, as integrantes da Mixtape sobem ao palco sob os gritos da plateia, assumem suas posições, empunham seus instrumentos e congelam feito estátuas, esperando a regressiva acabar. Os últimos segundos são gritados em coro e quando eles acabam, a banda continua estática, provocando alguns risos ansiosos. Depois o espetáculo começa.
Quem está cantando e tocando guitarra é Pris Elias, a de cabelos descoloridos. Ela sobe ao palco com um microfone desses que ficam presos no ouvido: assim ela não tem a necessidade de ficar próxima ao pedestal do microfone convencional. Por causa disso a pose é estranha, não parece a de uma vocalista roqueira mas de uma cantora pop. A voz naquele microfone acaba ficando estourada nas caixas de som e ela passa a cantar no mic normal.
Pris exerce a função de carismática do grupo e chama as atenções para si pelo visual trabalhado e pela presença de palco. De vez em quando ela deixa a guitarra de lado para tocar um teclado ou ficar apenas no microfone. Nessas horas quem segura as pontas é uma outra guitarrista que fica mais atrás, discreta, sem visual chamativo, tocando bem.

Pris Elias. (foto: aqui)
No baixo e nos cabelos rosas, Helen Negrão. A mais quietona no palco, parece ficar no limite entre timidez e discrição de baixista. Em alguns momentos se solta e dança um pouco mais. Em uma brincadeirna numa pausa entre duas músicas, finge cavalgar o baixo enquanto segura um megafone. Em um dos intervalos volta vestida de viúva.
Atrás, na bateria, Renata Monteiro. É a mais energética do grupo. Marca o tempo com força, fazendo cara de brava. De vez em quando toca levantada, tirando o pé esquerdo do chimbal e usando-o de apoio; nessas horas ela grita a letra e por vezes sua voz pode ser ouvida mesmo sem microfone. Atira algumas de suas baquetas à plateia, que as disputa como recordação.
O show é interrompido ainda no começo para as acrobacias de um trapezista de circo, que fica balançando no meio do salão. No meio de uma manobra difícil, ele cai no chão, mas levanta logo em seguida e continua sua apresentação como se nada tivesse acontecido. Mais tarde outra interrupção bota em evidência um malabarista. As duas apresentações parecem não ter ligação nenhuma com o show, mas ajudam a construir o espetáculo e desviam a atenção dos fãs para que a banda possa trocar seu figurino.
As covers de Marilyn Manson e Cranberries estavam lá, junto a outras de Katy Perry e Cindy Lauper. Em termos de qualidade, o som não convence, mas ele é bem trabalhado, se é que o leitor me entende. De qualquer jeito, há legiões de fãs que, a julgar pelos comportamentos no show desse domingo, estão dispostos a comprar qualquer coisa da banda. E o leitor sabe muito bem que, para vender, a música não precisa ser nenhuma nona sinfonia. Pelo contrário.
Depois do show, enquanto voltava andando para casa aproveitando o gostoso clima da noite, me restaram uma certeza e uma dúvida: a certeza é de que, dados os fatos científicos como os 8 mil membros na comunidade do orkut, as 450 mil plays no myspace e o lançamento do disco em um lugar como o Castelo, a Mixtape é uma das mais relevantes bandas de Curitiba, mesmo apesar do som nada original. A dúvida que fica é de que maneira as meninas conseguiram todos os inúmeros apoios anunciados ao final da apresentação, suficientes para alugar o Castelo e deixar a entrada franca. "Elas devem ser correria", disse meu irmão.
P.S: Outra certeza: a jogada de marketing foi sensacional. A ver por este blogueiro que foi até o show, conheceu as músicas da banda e agora está aqui repercutindo.
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A Redação tem o prazer de anunciar que está no prelo a quarta edição do Podcast Defenestrado, depois de quase um ano e meio do lançamento da terceira. O leitor segue ávido pelas músicas que são carinhosamente defenestradas para ele, e nós o entendemos. Aguenta aí que essa semana o negócio já deve estar acontecendo.
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E com esta aqui chegamos à quinta postagem do mês de agosto. O Defenestrando não anda tão corrido assim desde setembro do ano passado. É nóis.
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