
Temas para boas investigações costumam aparecer em pequenos acontecimentos do cotidiano. O post de hoje surgiu exatamente em uma situação dessas:
Tempos atrás, enquanto minha mãe viajava a trabalho recebi dela um telefonema a cobrar. Fiquei sabendo que o custo da ligação iria para a linha que eu estava usando através da inconfunudível voz feminina que há anos foi gravada e que até hoje é repetida todos os dias à exaustão, em centenas de milhares de ligações que são feitas por todo o país.
A gravação é curta, e todos os brasileiros que têm um telefone em casa a sabem de cor: "chamada (local) a cobrar; para aceita-la continue na linha após a identificação". As exatas frase e entonação são folclóricas na telecomomunicação e no imaginário nacional. Existe também a variação menos rememorada "Após o sinal diga o seu nome e a cidade de onde está falando", que é tocada para quem origina a ligação a cobrar.
É inimaginável o cotidiano do brasileiro sem aquela voz, de tão impregnada que ela está é tão banal que é. Seria muito esquisito (para não dizer repulsivo) se ao atendermos o telefone escutássemos a voz de um homem dizendo com pouca delicadeza -- e talvez algum sotaque -- que alguém está querendo que você pague a ligação -- não bastasse a desagradabilidade da notícia.
Foi nesse ponto do raciocínio que fiquei curioso para saber de quem é a famosa voz: tive vontade de descobrir quando que a gravação foi feita, em que cidade, em que contexto, por que razão e o principal, como ela se sente por fazer parte de uma tradição tão forte do país em que vivemos.
Tratou-se de ir atrás da informação e logo o Defenestrando contatou a Anatel pela maneira mais difícil de se conseguir alguma informação nesse mundo: telemarketing.
Depois de horas de espera, muitas musiquinhas e transferências para diferentes setores daquela instituição, consegui -- com muita insistência através de uma mulher que se dizia uma antiga funcionária -- descobrir apenas que a dona da voz é Patrícia Gomes Ruiz e que ela costumava morar em Curitiba, mas isso era há muitos anos atrás e agora ela já não sabia de mais nada.
Localizei a lista telefônica e, cruzando os dedos, procurei pelo seu nome; para a sorte do blog e da reportagem, Patrícia ainda mora por aqui. Disquei o número e ela atendeu, com a voz inconfundível e a entonação marcante. Em uma conversa rápida e bem-humorada, fiquei sabendo que a gravação foi feita em 1983 e começou tocar nos telefones a partir do mês de agosto daquele mesmo ano; ela ainda me contou que o processo da gravação foi super rápido: em um dia normal de trabalho, lhe perguntaram se ela gostaria de gravar a sua voz para ajudar na modernização da telefonia e ela respondeu que sim. Cerca de 5 minutos depois, tudo já estava pronto e a mensagem automática começaria a tocar dentro de alguns meses.
Quando questionada se ela é de alguma forma reconhecida, Patrícia comentou que muitas vezes ao fazer pedidos em restaurantes os garçons reconhecem seu timbre e acabam reagindo de maneira engraçada ao descobrir que aquela voz tem uma cara. Mas apesar disso, disse que sua vida é normal e que ninguém a reconhece enquanto caminha na rua, e que não esperava nenhum pouco que uma coisa feita tão rapidamente como aquela gravação perduraria por tantos anos na vida de tantas pessoas assim.
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Quero comentários dizendo se essa história está convincente e se você acreditou nela.
