
Não é ficção mesmo. Deixa eu contar: estava eu a caminhar por uma das Marechais (não sei se a Floriano ou a Deodoro, nunca sei qual que é qual) quando avistei a famosa figura do folclore curitibano empurrando sua bicicleta calmamente, desviando das multidões que costumam freqüentar as calçadas do centro durante a tarde.
Ainda munido do ímpeto "Curitibanesco" que o Gigante me despertou, quis tentar saber alguma coisa sobre esse personagem tão querido de nosso cotidiano. Logo em seguida brotou-me na cabeça uma dúvida: "se o oilman passa o dia inteiro e todos os dias andando de bicicleta, como então ele se sustenta, financeiramente falando?"
Armado da curiosidade que deve mover os jornalistas e vencendo a minha tradicional timidez, me aproximei do cidadão mais oleoso dessa cidade e perguntei, sem mais delongas:
- Rapaz, me diga uma coisa que eu tô meio curioso aqui, como você se sustenta? tipo, você trabalha, tá aposentado, como que é?
Julgo que o que eu disse foi ou grosso demais, ou idiota demais, ou ele me entendeu errado, ou ainda ele é meio esquisito da cabeça (torço para que esta última não seja verdade). Só sei que ele estremeceu, irritou-se e respondeu algo como:
- Cara, você tá achando que eu não sou homem pra fazer o que eu faço? Por que você não pega uma sunga, sobe em cima de uma bicicleta e começa a andar pela cidade?
Quando vi que falei alguma coisa errada, tentei concertar:
- Não, não foi isso que eu quis dizer... -- mas ele aparentemente ficou bastante irritado e não me deixou explicar.
- Olha, eu sou homem de estar fazendo isso, entendeu? Eu ando nessa bicicleta já faz 11 anos.
E ele fazia questão de falar alto, e é claro que ao redor algumas pessoas paravam para ver o que estava acontecendo. Já imaginou, o Oilman passando sermão no meio da rua em um piazote, de óculos? Eu mesmo pararia pra ver, também. Continuei tentando me explicar:
- Não, não é isso, eu acho muito nobre a sua causa e ainda... -- pode parecer ridículo, mas eu falei alguma coisa bem assim.
- ...beleza, obrigado, mas eu queria ver VOCÊ andando aí pelas ruas de sunga...
É válido lembrar que os diálogos não são exatos, posto que a emoção no momento era forte. Não me lembro de outras coisas mais que ele disse, mas sei que ele perguntou o meu nome e idade, e ainda continuou dando esporro. O pessoal ao redor ainda olhava, e percebi com o canto do olho que um velhinho, desses que pela aparência você julga serem bonachões e freqüentadores dos cafés da Boca Maldita, estava acompanhando o acontecimento de perto. Percebendo que havia um mal-entendido, ele interviu:
- Calma, calma, poupa o menino...
- Ele fica aí dizendo essas coisas, pô... -- Oilman se explicou.
- Ele não agiu de má fé, não é? -- o homem perguntou para mim.
- Não, não! De maneira nenhuma! -- respondi, já arrependido de ter começado aquilo tudo.
Ainda houveram umas palavras rápidas, mas depois daquilo o Oilman também não fez questão de prosseguir. Aproveitei para sair logo dali e me esforcei para não olhar para ninguém que estava ao redor, para não ficar com vergonha. Ainda ouvi ele comentando com alguém:
- Ah, cara de 17 anos fica falando essas coisas aí...
Fui embora sem sentir remorso ou ficar bravo, mas saí sim angustiado porque não estou nem um pouco acostumado a discussões, muito menos discussões esquisitas como essa. Na vedade, me pareceu que ele estava com alguma coisa intalada, que aquilo foi a gota d'água e ele explodiu.
Se por algum acaso o próprio Oilman estiver lendo isso (e olha que, com o Google, isso não é impossível), quero deixar claro aqui o meu pedido de desculpas, por o que quer que o que pareceu o que eu disse. Compreendo que uma vida dessas não deve ser nada fácil, já que a distância a ser percorrida entre ser motivo de piada e ser motivo de respeito é enorme. Admiro o valor que este personagem tem na cultura curitibana, e repito o que o amigável velhinho disse: não quis, de maneira alguma, agir de má fé.
E assim foi descrito, de maneira breve porém sucinta, O Dia em que o Oilman me entendeu errado.
