27/04/2008

Entrevista com Gigante Curitibano - capítulo 5



Escondido nos subterrâneos do shopping Mueller, Munhuriel tentava sem sucesso extrair de seus companheiros de esconderijo qualquer informação que lhe fosse esclarecedora; a sua pequena empreitada fora mal-sucedida não porque ninguém sabia de nada, mas porque as pessoas pareciam não estar dispostas a querer trocar notícias ou informações ou qualquer coisa do gênero. Nem mesmo numa segunda tentativa na qual o rapaz tentou apenas puxar conversas fiadas apenas para quebrar o forte clima tenso no ar e fazer o tempo passar ele não obteve êxito. Descobriu apenas que uma das mulheres que ali estavam se chamava Lúcia e que esta morava ao lado do Parque Barigüi, que como o leitor bem lembra foi destruído dias antes.

O adolescente raciocinou e por alguns instantes chegou a crer que os seres humanos ao seu redor não queriam conversar com ele por motivos pessoais, mas descartou tal pensamento assim que lembrou de algo muito importante sobre as relações sociais nesta cidade. Não explicaremos ao leitor sobre o item que Munhuriel rememorou, mas contaremos que o personagem em questão não é um curitibano nato e contaremos também que ele obteve certas dificuldades para fazer novos amigos quando para esta cidade se mudou. Até aquele dia, mesmo já bastante familiarizado e habituado ao dito povoamento, ele ainda sentia dificuldades em iniciar novos relacionamentos – por mais simples que estes fossem – como na cena que o leitor bem presenciou.

Lembrando-se subitamente que ele havia esquecido que na fuga perdera contato com dois de seus tios que o faziam companhia naquela corrida evasiva a qual toda a cidade estava submetida, o rapaz logo tratou de sacar o celular de seu bolso para tentar localizá-los; no entanto o aparelho não recebia nem sinal nem linha, e muito menos havia sinal de alguma linha telefônica dentro daquele esconderijo.



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Marechais, generais, coronéis, capitães, tenentes, subtenentes, aspirantes, cabos e soldados do Exército e da Aeronáutica ainda não tinham entendido porque que a ordem expressa e oficial necessária para permitir que material bélico pesado seja utilizado para qualquer fins diferentes de treinamento em qualquer cidade do país emitida apenas pelo presidente ainda não havia chegado a nenhuma base, nenhum quartel ou qualquer coisa do gênero. Sabia-se que a ordem já havia sido enviada, mas o que ninguém contava era com o fato de que os papéis esbarrassem em uma emaranhada burocracia ainda mais complicada do que a costumeira, já que toda a narrativa aqui narrada tem seu desenrolar durante a noite, faixa de horário essa na qual nós bem sabemos que ninguém trabalha.

O calmo observador de algumas páginas atrás faria então uma observação rápida, clara e coerente: "mas as ordens governamentais emitidas em casos especiais como estes não deveriam estar providas de mecanismos que as isentassem de qualquer tipo de burocracia?", à qual o autor responderia "casos especiais como este, especificamente, nunca sequer passaram pela cabeça de qualquer político, nem sequer o mais 'mente aberta' que já foi membro do Poder Legislativo, então ninguém nunca bolou qualquer tipo de mecanismo que isentasse de burocracia as ditas ordens".



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Contrariando o texto "você não pode querer sair daqui! Lá fora você tem bem mais chances de morrer!" pronunciado pelo segurança, Munhuriel deixou o esconderijo subterrâneo alegando que preferiria correr reais riscos de morte a ficar naquele local isolado passando angustiantes momentos de espera sem poder conversar com as pessoas. Aliás, é bom esclarecer ao leitor que, naquele grupo de refugiados naquela trincheira improvisada embaixo de um shopping center havia sim bastante conversa, mas ela acontecia em três pequenos grupos de três pessoas e em nenhum deles o jovem conseguiu penetrar, o que o fez se sentir mal. Parecia haver em cada grupinho daqueles um certo bloqueio que o repelia, uma fria restrição... Munhuriel saberia explicar melhor ao leitor o que significava o dito bloqueio e que este não tinha nada a ver com a sua pessoa, mas evitemos questioná-lo neste momento: um gigante está destruindo a sua cidade e ele ainda precisa localizar seus dois tios. Não queiramos dividir conosco a atenção de um jovem que está completamente atordoado.

Ao chegar à saída que o levaria à Cândido de Abreu, Munhuriel percebeu que o segurança havia trancado as portas do shopping. Sem descrevermos maiores detalhes, o rapaz – munido de muita vontade – conseguiu dar um jeito de arrombar o portal e se juntar, naquela larga avenida do Centro Cívico, aos parcos indivíduos que haviam sido deixados para trás pela multidão que há pouco passara por ali se afastando do centro e correndo em direção ao Palácio do Iguaçu.




25/04/2008

tanta poesia



Sociedade

Era João das Idéias
e de tanto pensar tinha a cabeça deformada
Vivia reflitindo e descobrindo soluções

Mas quando algum filho
fazia alguma pergunta complicada para o seu pai
este logo respondia
"Não faça perguntas tão complicadas
se não você vai ser que nem João das Idéias
e sua cabeça vai ficar toda deformada"

Quando andava pela rua
as pessoas comentavam
de maneira equivocada
"Lá vai João com sua cabeça
cheia de idéias deformadas"

Um dia, no banheiro,
escorregaram João e todas as suas idéias
a pia deixou sua cabeça ainda mais deformada
e o coitado não se lembrou de mais nada


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Mas, Felipe, um poema? Tanta coisa para escrever e você vai lá e me escreve um POEMA??


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Por estes dias chegou até mim um recado via orkut, aqui integralmente reproduzido:

"fato 1:
voce está publicando um folhetim sobre um gigante em curitiba

fato 2: acontece um terremoto em curitiba

conclusão:esperemos que seja apenas coincidência"


O texto tem remetência do velho amigo Eduardo (ou Dú, como preferem alguns), o mesmo que escreveu o texto dos irmãos filósofos aqui publicado há alguns meses. O referido acabou de criar o blog Mesóclise Panamenha, cuja crônica de estréia sobre o tema "Pecados Capitais" merece meu destaque por aqui.

Aos que se perguntam "tá, mas e o folhetim? Desistiu, mais uma vez?", eu respondo que o quinto capítulo será publicado no domingo próximo.


20/04/2008

Entrevista com o Gigante Curitibano - capítulo 4

Parte 2


Coloquemo-nos agora na Avenida Cândido de Abreu, onde carros e pedestres fugiam todos no mesmo sentido e direção: qualquer lugar longe do centro. De qualquer ponto da cidade podia-se avistar a silhueta do gigante causando reboliço no seio financeiro desta urbe.

O adolescente Munhuriel corria desesperado junto à massa quando, ao passar ao lado do shopping Mueller ouviu um encorpado segurança uniformizado gritando “entrem, entrem!” e apontando para dentro daquela grande construção. Obedeceu-o prontamente imaginando se tratar de um local seguro para proteção, sendo imediatamente seguido por mais algumas pessoas que chegaram a conclusões semelhantes. O mesmo segurança tratou de o mais rápido possível conduzir o grupo até o piso mais inferior do pavilhão e em seguida até uma das lojas que possuía em seu interior uma passagem para um depósito que ficava ainda um nível abaixo do que eles estavam.

Considerando o esconderijo suficientemente protegido, alegou que ali eles não deveriam correr grandes riscos e que o mais recomendado agora era esperar por ali mesmo até que o caos passasse. Esbaforido, Munhuriel contou naquele grupo dez pessoas incluindo ele mesmo e o vigilante, e procurando ajudar perguntou para cada uma delas se estava tudo bem e se não precisavam de auxílio em qualquer coisa. Todas responderam que não, estava tudo tranqüilo e que queriam na verdade era saber como seus parentes estavam.



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Com a ajuda da Internet e do meio televisivo, o país inteiro acompanhava em tempo real o que estava acontecendo em Curitiba. E o leitor deve saber que quando mencionamos o país inteiro significa o país inteiro mesmo, inclusive o nosso ilustríssimo presidente que fora acordado pela ilustríssima primeira-dama que, naquela noite sofrendo de insônia, resolvera ligar a televisão esperando que as luzes da tela lhe causassem algum torpor.

O mais importante operário metalúrgico brasileiro resolveu então tomar atitude que lhe parecia mais plausível naquele momento (já que a mulher tinha o acordado e ele custaria a voltar a dormir, mesmo): enviou cartas brancas às forças armadas do Exército e da Aeronáutica, permitindo-as que fizessem o que bem entendessem com relação ao gigante.



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Sabendo-se que para ir a qualquer lugar de Curitiba deve-se "pegar a Marechal", e sabendo-se também que a "Marechal" pode ser tanto a Avenida Marechal Floriano Peixoto quanto a Avenida Marechal Deodoro e que estas duas entram na trajetória de qualquer rota que envolva a cidade, não é de se estranhar que era nas mencionadas vias que se concentrava o maior número de fugidios. Devo informar o leitor de que no cruzamento destas duas então, caramba. Talvez não houvesse na dita urbe local onde o caos, a balbúrdia e a desordem fosse maior do que naquela encruzilhada. O desespero ali era enorme e era possível encontrá-lo estampado em cada rosto, e somava-se a isso o fato de que os Políciais Militares e os Guardas Municipais simplesmente pareciam ter fugido junto com todo o resto da população ao invés de ficarem e tentarem controlar a confusão.




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12/04/2008

Entrevista com o Gigante Curitibano - capítulo 3

19/08/07 - Sábado

Deixa-se como tarefa do leitor imaginar o estado emocional da população e do governo curitibano durante aqueles dias; cabe aqui apenas informá-lo de que circularam boatos de que algumas das enormes árvores arrancadas da Praça Rui Barbosa supostamente foram encontradas algum tempo depois em pontos mais afastados da cidade (citam-se locais como as proximidades do estádio do Pinheirão, o Terminal de ônibus do Campo Comprido e algumas ruas do Boqueirão).

Colocando de lado assuntos que não nos interessam (como as repercussões e conseqüências destes bizarros acontecimentos) e passando a ocorrências que verdadeiramente importam, deve-se saber que durante a noite do sábado acima citado um grupo de seis mendigos, todos homens e na faixa dos quarenta anos, localizava-se em um dos bancos de madeira da Praça Santos Andrade. Espremiam-se como podiam neste único assento numa notável demonstração de repartimento de calor humano (digo notável porque não se pode esquecer que em Curitiba quase não há calor humano – pelo menos não à primeira vista) compreensível se o leitor lembrar que as noites curitibanas de agosto costumam ser bastante frias.

Entre exclamações de “chega pra lá!” e de “não me empurra”, um dos andrajosos perguntou se os outros não achavam que aquela noite estava meio esquisita. Todos concordaram prontamente, ao que um respondeu que estava pensando justamente nisso, mas não tinha a mínima idéia do por quê. “Vocês estão todos bêbados” comentou um terceiro, ao que o primeiro respondeu com um “nada a ver, hoje eu nem consegui dinheiro pra uma ardida”.

A conversa logo mudou de assunto, mas esta última figura permaneceu calada e pensativa. Quando ouviu um estrondo enorme mas distante vindo de algum ponto do centro da cidade, pensou estar ficando paranóico e considerou seriamente a possibilidade de procurar por uma garrafa de cachaça, já que estava ouvindo coisas. Antes, verificou se algum de seus companheiros tinha ouvido o mesmo: “ninguém ouviu nada e você ta precisando de uma ardida pra pensar melhor e se esquentar” confirmou um deles.

O homem já ia se levantando do banco quando um novo estrondo foi ouvido, agora bem mais intenso, bem mais perto deles e seguido por um certo tremor de terra. O leitor imagine agora a reação que o mesmo homem teve ao virar-se para trás e verificar que, à não menos de trinta metros de distância estava um indivíduo que tinha não menos de trinta metros de altura e formas muito antropofas que demonstrava em seu colossal rosto sentimentos nada cordiais.

O leitor visualizou agora, de maneira imprecisa mas satisfatória, o que daquele momento em diante foi apelidado, por razões óbvias, de “O Gigante Curitibano”.



De maneira lógica, os seis maltrapilhos de dimensões “normais” resolveram seguir a coerente decisão tomada por um deles: fugir. Sendo assim, deslocaram-se da maneira mais rápida que seus mal-preservados corpos lhes permitiam instintivamente em direção à Rua das Flores, parecendo-lhes um local mais seguro do que onde eles estavam naquele exato momento, e onde também já era possível encontrar mais pessoas desesperadas tentando se salvar de algo que elas nem sabiam direito o que era.

Atrás deles, o titã parecia bastante empenhado em destruir edifícios da região central; questão de segundos depois da coerente decisão fugidia tomada pelos mendigos, o Teatro Guaíra – que naquela noite de sábado tinha todas as suas cadeiras ocupadas por espectadores de uma ópera que não nos convém mencionar o nome – encontrava-se derrubado no chão. Alguns poucos apreciadores de música erudita conseguiram escapar ao lado de um número pequeno de funcionários do local. Instantes depois, o prédio central da Universidade Federal do Paraná (que àquela altura da noite encontrava-se vazio) já estava dotado de uma nova arquitetura exclusivamente concedida pelo gigante. Um observador que estivesse calmo o suficiente para observar calmamente e com olhar crítico o novo visual da construção ao invés de sair correndo relataria que a construção agora estava dotada de formas certamente rudes, tendo-se em vista que não existia mais nada acima do segundo andar.

O colossal ser humano atravessava agora uma das extremidades do calçadão da Rua XV de novembro. Se o leitor imaginar uma criança na seção de limpeza de um supermercado correndo com o seu braço direito estendido derrubando todos os tubos de detergente, ele terá uma idéia que exemplifica muito bem o que o gigante estava fazendo com as edificações da região citada no início do parágrafo.

É claro que no pouco espaço de tempo em que estes acontecimentos aconteceram quase todos os cidadãos já tinham percebido que algo de muito errado estava ocorrendo e já tinham tomado as devidas providências que lhes eram cabíveis: numa atitude coerente muito semelhante à apresentada anteriormente pelos mendigos, todos estavam tratando de fugir para algum lugar distante o mais rapidamente que seus carros, suas pernas, seus patins e skates e até seus helicópteros lhe permitiam.

Se agora o leitor relembrar as cenas clichês dos clássicos filmes antigos de monstros gigantescos que invadem metrópoles causando destruição massiva e fugas de multidões pelas ruas e adaptá-las a Curitiba (prometo que esta é a última analogia), ele fará uma visualização estereotipada porém correta do que estava acontecendo na cidade naquele momento.

Deixando um evidente rastro de destruição às suas costas e causando vendavais de desespero nas pessoas à sua frente – e ainda tomando o cuidado de não pisar em ninguém, o que evidentemente não foi percebido – o enorme homem caminhou até a Praça Osório, onde teve o zelo de arrancar do chão todas as árvores – uma por uma – como supostamente ele teria feito na Praça Rui Barbosa. Após tê-las recolhido, jogou todas simultaneamente para trás, onde cada uma descreveu uma parábola diferente até que se atingisse o chão. Considerando as consideráveis altura e força do homem, cada uma das parábolas traçadas possuía enormes elevação e distância, de modo que ao serem observadas pelo mesmo calmo observador que não fugira citado há alguns versos atrás, o fariam concluir que várias delas chegariam sem dificuldades até locais mais afastados como as proximidades do estádio do Pinheirão, o terminal de ônibus do Campo Comprido e algumas ruas do Boqueirão.



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05/04/2008

Entrevista com o Gigante Curitibano - capítulo 2


10/08/07 - Sexta


O acontecimento no Parque Barigüi fez a cidade viver uma semana polvorosa. Até os Estados Unidos ficaram sabendo da história e logo se tratou de colocar na cabeça de alguns cidadãos de que havia suspeitas de que o evento tinha ligações com o grupo terrorista Al Qaeda. Por conta disso, não foi difícil encontrar militares nas ruas durante esta semana (e até o dia narrado em questão).

O que ninguém contava (muito menos Dona Lúcia) era com o fato de que, na segunda sexta-feira do mês de agosto daquele ano, a Praça Rui Barbosa acordasse do jeito que ela acordou. Para tanto, verificou-se que tanta parafernália bélica e todo o esquema de preparação intensiva (para o que quer que fosse) feita com os policiais militares, civis, seguranças particulares, patrulheiros navais, guardas rodoviários e até mesmo florestais foi em vão.

Mas o leitor já deve estar irritado e quer saber o que foi, afinal, que aconteceu com a Praça Rui Barbosa. Descrevamos os fatos:

Todas as árvores e sem exceções haviam sido arrancadas do chão e colocadas ou arremessadas ou esfareladas ou jogadas sabe-se lá aonde e sabe-se lá por qual motivo, mas é fato que elas não estavam pelas redondezas da praça. E o que deixava muitos observadores intrigados era o fato de que as árvores do local eram dotadas de bem-dotada envergadura e sendo assim seria literalmente impossível que ninguém, no momento do evento, não percebesse que árvores deste tamanho estivessem sendo arrancadas do chão e nem que ninguém não percebesse algo que tivesse tamanho ou força suficiente para arrancar as tais árvores se movimentando pela praça de madrugada.

De fato, algumas poucas pessoas disseram que ouviram um barulho esquisito, mas nenhuma delas disse ter com seus olhos visto algo suspeito.

Mas a questão não era só essa; o vandalismo em proporções colossais não havia sido restringido apenas às arvores mas também aos pontos de ônibus. Em toda a praça, para um sem-número de pontos não havia um único que não tivesse sido encontrado completamente amassado ou retorcido. Nem as estações-tubo haviam sido poupadas.

O leitor entenderá melhor o que foi dito se ele imaginar que um gigante invadiu a praça e resolveu arrancar do chão todas as árvores, amassar com as mãos os tubos e pisar com os pés em cima de todos os outros pontos de ônibus. No entanto o leitor não irá imaginar que foi um gigante quem fez isso porque não foi um gigante que de fato passou pelo local.

A última coisa que se deve saber é que a Rua da Cidadania não havia sido poupada por o que quer que tivesse destruído tudo o que foi destruído. A famosa Matriz encontrava-se agora absolutamente desfigurada: bonés baratos encontravam-se misturados a cal e cimento, balas e chocolates estavam agora espalhados por todo o terreno junto à correntinhas jamaicanas e camisetas esportivas falsificadas. Só era possível associar os destroços a o que antes era aquele centro social devido à inconfundível cor bordô que enfeitava as paredes externas do pouco que havia remanescido.

A destruição da Rua da Cidadania central afetou diretamente os donos das pequenas vendas que lá existiam, principalmente Seu Olegário, vendedor de artigos de lã peruana que lá encontrou equilíbrio financeiro. Ele bradava inconformado para quem quisesse ouvir que perdera toda a sua mercadoria e que, pior ainda, agora só lhe sobraria a feirinha de domingo do Largo da Ordem para trabalhar.

Como feito na semana anterior, a Polícia logo tomou providências para que a área fosse isolada e que o acesso à localidade fosse vetado. Tal decisão resultou em um declarado estado de calamidade no centro da cidade: A maioria das linhas de ônibus não tinha agora sua parada mais central, resultando em desvios planejados às pressas pela prefeitura que já não sabia mais quais decisões tomar por primeiro.

Sem poder cortar caminho pelo local, milhares de pessoas tiveram que optar pelas calçadas “regulares”, superlotando-as, já que essas obviamente não foram projetadas para casos incríveis como esse. Não tendo por onde andar, muitos acabaram ultrapassando os limites dos meio-fios tendo assim que transitar a pé pelo espaço dos carros, fazendo com que todos os motoristas tivessem que dirigir com cuidado redobrado, por fim diminuindo a velocidade de circulação geral causando enormes congestionamentos. O veto ao acesso dos pedestres à praça causou também paranóia em alguns cidadãos: atravessar a Rui Barbosa era uma ação que estava tão impregnada no cotidiano de certas pessoas que elas simplesmente não conseguiram suportar a idéia e surtaram.

02/04/2008

Entrevista com o Gigante Curitibano - capítulo 1

É com prazer e orgulho que anuncio a mais nova série do Defenestrando: "Entrevista com o Gigante Curitibano". Os leitores mais antigos que têm todos os motivos para desconfiarem da continuidade dos folhetins que aqui são publicados podem ficar tranqüilos pois todo o conto encontra-se já escrito até o final e será aqui colocado por partes.

É válido comentar que, como a história se passa em Curitiba, os leitores que não moram ou nunca moraram nesta cidade sentirão-se perdidos no que se diz respeito às localidades e ao comportamento do povo curitibano, o que reduzirá a "impactância" do conto mas de forma alguma impedirá a leitura como forma de passa-tempo.

O que me cabe aqui é desejar a todos uma boa leitura.

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Parte 1


02/08/07 – Quinta

O Sol, com toda sua opulência costumeira, distribui tardiamente seus primeiros raios em mais um típico começo de manhã de quinta-feira de inverno em Curitiba. O despertar da cidade segue rotineiramente tranqüilo e nada nos chama a atenção até o momento em que conhecemos a reação nada comum de Dona Lúcia a uma observação nada comum feita por seu marido que recém havia aberto as cortinas de seu quarto.

Aposentada e vizinha do Parque Barigüi há pelo menos 10 anos, Dona Lúcia conhecia todos os pontos do parque que as janelas de sua casa lhe deixavam enxergar. Ela sabia, de todos os dias da semana, a hora exata em que o trânsito de pessoas aumentava e diminuía e detalhes menos importantes que não nos interessam, conhecimentos estes frutos de uma aposentadoria que proporcionava certo ócio a essa personagem.

Nessa quinta-feira em especial, ao verificar que seu esposado estava estático em frente à janela, ainda deitada ela soltou um sonolento “o que foi, Pedro?” ao qual obteve como resposta um incrédulo “venha você mesma ver”. Dona Lúcia se virou para o outro lado da cama treplicando com um “ai Pedro, conta logo, que eu tô com preguiça de levantar da cama”, mas não obteve nenhuma resposta. Observando na fisionomia do marido a mesma incredulidade de outrora, resolveu se levantar e observar o que de fato tinha acontecido.

Ao observar o que foi observado, narramos aqui a incomum reação da mulher citada no primeiro parágrafo: uma progressiva perda de pressão sangüínea que culminou em um desmaio. Agora, informemos ao leitor o que a fez reagir desta maneira:

O Parque Barigüi com seus extensos gramados verdes, com suas ciclovias e o rio poluído que o cortava e aos quais ela conhecia tão bem havia sumido; no lugar dele havia um imenso banhado lamacento sem nenhum resquício de seus tapetes esverdeados. O leitor entenderá melhor o que foi dito sobre a paisagem se ele imaginasse que algum gigante tivesse invadido o parque e que este com seus grandes pés tivesse se divertido de maneira mui grandiosa ao desmanchar com facilidade tudo o que no local havia. No entanto o leitor não irá imaginar que foi um gigante quem fez isso porque não foi um gigante que de fato destruiu o local.

Despertada do desmaio pelo marido, Dona Lúcia tratou logo de vestir seu roupão e deslocar-se rapidamente até a rua da frente de sua casa – agora repleta de lama – para verificar mais de perto o que havia acontecido. Com a mesma expressão de incredulidade que ela havia visto no marido agora estampada em seu rosto, encontrou outros vizinhos igualmente incrédulos com a incrível visão que tinham. Ao perguntá-los do que havia de fato ocorrido, a aposentada não obteve respostas que a ajudassem a entender coisa alguma. A única informação que tinha alguma relevância ela ouviu de uma mulher que morava no outro lado do Parque que havia dito que o filho caçula tinha visto umas sombras esquisitas na rua durante a madrugada, mas nada que naquela hora lhe chamasse a atenção.

Instantes depois viaturas da Polícia Militar já se encontravam no local para tentar averiguar o incidente; com milhares de metros de fitas plásticas de “Não Ultrapasse” os guardas proibiram a entrada de qualquer pessoa no que no dia anterior ainda era o Parque Barigüi, dizendo aos curiosos circunstantes que o acesso não seria permitido até que todas as investigações fossem concluídas.

Em questão de minutos todos os jornais televisivos e radiofônicos matinais emitiam boletins que expressavam com uma falta de detalhes confusa a situação do local; algumas horas depois, a destruição total de um dos cartões postais de Curitiba era assunto de todas as rodas de conversa da cidade, sem exceção.

O leitor nem precisa saber que a Boca Maldita foi naquele dia palco de polvorosos diálogos, especulações e discussões, dos quais os mais antigos sem dúvidas sentiam muitas saudades.