18/05/2008

Entrevista com o Gigante Curitibano - último capítulo



- Existem evidências de que foi você quem destruiu a Praça Rui Barbosa.
- Aquela outra praça lá? Pare com esse negócio de "ah, existem evidências de que fui eu". Fui eu mesmo e acabou. Ou você acha que foi uma pessoa do seu tamanho que arrancou todas aquelas árvores em uma noite só e sem fazer barulho ainda por cima?
- Ok. Mas como você, com toda essa envergadura, fez para caminhar pelo centro sem fazer nenhum barulho e sem acordar ninguém?
- Veja bem, eu me preocupo com as pessoas. Não queria acordar ninguém. Dava passos delicados e tentava não esbarrar em nada. Só que quando cheguei no calçadão da Rua XV eu não consegui não esbarrar em nada. Era tudo muito apertado ali.
- Mas então você consegue arrancar árvores de quatro metros de altura do chão sem fazer nenhum ruído?
- Adquiri este hábito já faz vários anos... tenho experiência nisso. Sei como fazer.
- Entendi. E o Parque Barigüi?
- O que que tem?
- Aquele estrago todo foi "sem querer" também?
- Não... Aquilo não foi sem querer não.
- Você quis acabar com o parque, então. Por vontade própria mesmo.
- Sim.
- Vai explicar o porquê?
- Não.
[silêncio]
- Próxima pergunta, por favor.
- Tudo bem. Uma última pergunta sobre você estar intencionado ou não: e a Rua da Cidadania?
- Rua da Cidadania? Que rua era essa?
- Na verdade não era uma rua, mas sim um pavilhão na Praça Rui Barbosa... De cor bordô...
- ...ah! Lembrei, o prediozinho de cor bordô! Bom, no caso em questão eu tropecei.
- Tropeçou?
- Sim, tropecei. Mas acho que até fiz um favor pra vocês, não? Porque aquela cor bordô era feia demais. [risos] Agora vocês estão livres dela.
- A cor era feia mesmo, mas você tem noção de que acabou com a única fonte de renda de várias pessoas?
- Meu filho, já falei que eu tropecei, não foi intenção minha. O que você quer que eu faça?
- Nada, nada. Vamos para a próxima: de onde você vem, afinal?
- De onde... Sabe que eu não sei?
- Não sabe?
- Não sei mesmo. A primeira coisa de que me lembro é de estar aqui por perto, nas redondezas... lembro de ter acordado há um mês no meio da Serra do Mar e nos arredores da BR-376 ou da BR-101, não tenho certeza sobre qual das duas era.
- E aí você resolveu vir para Curitiba?
- Resolvi resolvido, não. Apenas segui a estrada e vim parar aqui.
- Entendi. Mas e o quê você está achando da cidade?
- Bom, gostei demais da parte que eu consegui visitar sem destruir nada: achei muito bonito o Bosque do Papa (pelo menos visto de cima) e o Parque São Lourenço, que por pouco eu não destruí também. Quase enfiei o pé no lago. Mas ah... Teve um detalhe que me incomodou um pouco.
- O quê?
- Até onde você acha que o clima frio pode alterar o temperamento de uma determinada população?
- Você está me perguntando?
- Sim.
- Não entendi o que você quis dizer.
- Quis dizer que algo me impressionou muito negativamente ontem enquanto estive passeando por aqui.
- E o que foi?
- A dificuldade de se conversar com as pessoas.
- Como assim?
- Esta é a primeira conversa que dura mais do que dois minutos que estou tendo nessa cidade, e trata-se de uma entrevista que irá circular em um jornal matando a curiosidade que as pessoas têm a respeito de um gigante que invadiu o lugar onde elas moram.
- Aonde você quer chegar?
- Ontem, estive tentando conversar com quem fosse possível o máximo de tempo que me fosse viável. Tentando fazer novos amigos, em outras palavras. Mas sabe, em cada pessoa que eu puxava assunto parecia haver uma certa frieza, uma restrição gripada que parecia sempre me impedir de...
[pausa]
- ...impedir de...?
- Sei lá, de expor sentimentos ou qualquer coisa. A questão é que já decidi o que vou fazer com relação a Curitiba.
- O quê?
- Vou embora. A camada de gelo que envolve a maioria das pessoas que vi aqui é fria demais para mim.
- É mesmo? ...Mas vai quando?
- Agora mesmo. Não sei se devo dizer parabéns a vocês por isso, mas a frieza demonstrada por aqui foi capaz de repelir um gigante. Só espero que não fiquem vaidosos com essa característica e não se orgulhem dela por com ela terem se defendido de mim. Tchau.


E sem nem esperar alguma despedida ou qualquer última palavra do repórter, "O Gigante de Curitiba" iniciou deslocamento em direção ao Norte, não sem causar grandes estrondos a cada passo e provocando pequenos e involuntários tremores de terra com seus pés, fugindo de uma grande quantidade de pessoas que dias antes haviam fugido dele.

2 comentários:

Thomaz disse...

Rumo ao norte!
uhul!

imagine um baiano vendo esse gigante!!

cara, que texto fantástico!!!
parabens mesmo!!!

Marília disse...

Nossa!

Cara, eu sei q já disse isso antes,
mas eu adorei esse conto!

Acho que ele ainda vai ser publicado em papel... tvz num certo concurso... E se não for, eu mesma imprimo e distribuo por aí!