Luís Fernando Verissimo, escritor e jornalista (e também fonte de inspiração para este tão amado blog, tendo em vista que o nome "Defenestrando" é uma referência direta a uma de suas tantas crônicas) veio a Curitiba para participar de dois eventos: a palestra "Cronicamente Viável - A Informação e a Imaginação na Internet" (junto com Carlos Affonso de Souza) nessa quinta-feira (29/11) e, no dia seguinte, o show "Concerto para um mundo sem conserto" do seu "Conjunto Nacional", grupo de jazz que conta com membros como Paulo e Chico Caruso. Ambos no Museu Oscar Niemeyer, ambos proporcionados pelo Circuito Cultural Banco do Brasil.
Após a citada palestra, tentei um contato direto com esta tão bacana personalidade para verificar a possibilidade de se marcar uma entrevista. Fui notificado pelo próprio que este estava hospedado no Hotel Rayon e que a manhã de sexta-feira estava livre de compromissos. Então lá fui eu, no dito dia, tentando calmamente conciliar duas pessoas que brigavam dentro de mim: um fã inverterado e um futuro jornalista.
O Hotel Rayon é um dos mais chiques de Curitiba, e é a preferência de 90% das celebridades que vêm para cá. É praticamente impossível você morar em Curitiba e nunca ter visto nenhuma celebridade saindo da sua porta de entrada. Esperei cerca de vinte minutos na chique recepção do hotel quando ele apareceu saindo da porta do elevador, andando com toda a calma do mundo, acompanhado do que julguei ser sua esposa.
O que me surpreendeu foi a incrível imagem de um vovô bonachão (no melhor sentido possível da palavra) que todos gostaríamos de ter que ele passou. O que eu tinha na minha frente era uma figura que falava com calma, que demonstrava sabedoria no que falava e que, acima de tudo, me causava uma incrível e espontânea sensação de respeito.
Aproveite aí o ponto mais alto que o Defenestrando escalou até agora.
Defenestrando: Vamos começar do começo. O seu pai foi ninguém mais ninguém menos do que o seu pai [Érico Verissimo, escritor de clássicos como a série “O Tempo e o Vento”]. Isso com certeza deve ter ajudado você a ter traçado esse caminho que você traçou. Como que tudo isso começou? Como era o clima na sua casa? O que fez com que você começasse?
Luis Fernando Verissimo: Bom, antes de mais nada a minha casa era uma casa que tinha muitos livros... Eu convivi sempre com livros e com escritores, por isso sempre li muito, sempre gostei de ler. Mas eu não tinha nenhuma idéia de ser escritor; houve uma influência indireta do meu pai, e não direta. Nem ele me disse que gostaria que eu fosse escritor como ele e nem eu tive a intenção de ser escritor, tanto é que eu comecei a escrever bastante tarde, com uns trinta anos, no jornalismo. Tinha feito umas traduções do inglês para o português, mas fora isso nunca tinha feito nada. Mas claro, ter feito parte de uma casa com muitos livros e ter sido filho de um escritor, indiretamente influenciou sim.
O senhor começou no jornalismo mesmo então?
Foi. Foi quando eu entrei no jornal que eu comecei a escrever regularmente e eventualmente me deram espaço para pôr umas crônicas. E foi assim que eu descobri a minha vocação, um pouco tarde, mas...
...mas como que foi? Você chegou lá um belo dia com uma crônica e falou “ó, eu tenho uma história pra contar”? Você ainda não era escritor, era só jornalista, então...
...é, eu era só jornalista mesmo. Trabalhava na “cozinha” do jornal, como se diz. Fiz várias coisas... Aí quando o principal cronista do jornal saiu, eles me colocaram pra ficar no lugar dele e aí eu passei a escrever regularmente, agora assinando.
E o jornal, qual era?
O Zero Hora, de Porto Alegre.
E aí teve um belo dia que você chegou para o seu pai e falou “pai, eu vou ser escritor” ou não teve nada disso?
Não, na verdade não... Eu comecei a escrever crônicas e não anunciei nada pra ninguém...
Uma coisa que foi indo aos poucos então...
É.
Certo. Sobre o começo da carreira: ser escritor no Brasil não é nenhum pouco fácil, não é qualquer um que faz. Quando você percebeu que tinha chances, que dava pra tentar ser apenas escritor?
Na verdade nada disso foi decisão minha, nem começar a escrever crônicas (me convidaram pra escrever). E o primeiro livro que saiu também foi iniciativa da própria editora.
É mesmo?
É. Reuniram umas crônicas. A editora José Olympio lançou meu primeiro livro.
E nisso o senhor tinha uns trinta anos?
Mais ou menos, é. Isso foi em 73, eu tinha trinta e... por aí, trinta anos.
Bacana. E aí quando você lançou o primeiro livro você já conseguiu ser só escritor ou você continuou ainda no jornalismo?
Não, na verdade eu sou jornalista até hoje, né? Meu ganha-pão é jornalismo. Os primeiros livros não tiveram muita repercussão, até que eu lancei um chamado “O Analista de Bagé”, em 1981 acho, e esse sim teve bastante repercussão e a partir daí eu comecei a me dar bem. Mas eram sempre coleções de crônicas, só mais ou menos recentemente que eu escrevi o primeiro romance. Até então todos os livros que eu tinha escrito eram de crônicas.
Sobre as editoras...
Comecei pela José Olympio, depois lancei vários pela L&PM e aí passei pra Objetiva.
E com a Objetiva já era um contrato maior, uma distribuição maior, não?
É, por exemplo, a editora L&PM... [um garçom surge trazendo um copo de leite para o escritor] ...ah, muito obrigado. A editora L&PM é uma editora boa, importante, mas ela é mais ou menos restrita ao Sul, já a Objetiva é uma editora nacional... Dá licença? Eu tenho que tomar os meus remédios.
Não, não tem problema.
[tira do bolso uma pequena caixinha com vários comprimidos] ...então a distribuição já melhorou, né... [toma os remédios]
E como que foi a sua reação ao saber que você ia ter uma distribuição no Brasil inteiro?
Na verdade, a partir do Analista de Bagé eu tinha tido uma repercussão quase nacional, não só local. Depois que eu passei para a Objetiva eu já era de certa maneira conhecido. É fato que melhorou bastante a distribuição dos livros... a Objetiva é uma editora maior e mais forte.
Foi nessa época que começou a entrar mais dinheiro, que o salário aumentou...
É, se bem que até hoje eu não conseguiria viver só de direitos autorais. Certamente o Paulo Coelho vive, o Rubem Fonseca e tal... infelizmente escritor é uma profissão que continua praticamente não existindo no Brasil, não tem como viver de livros. Eu vivo com meu trabalho jornalístico e direitos autorais bons, mas não teria como viver só de literatura.
Voltando ao início da carreira, você achava que o fato de ser filho do Érico Veríssimo atrapalharia você? Algo do tipo “ah, ele só é famoso porque é filho do Érico Veríssimo”.
Certamente o nome ajudou quando eu não era reconhecido. Ajudou pelo menos a criar uma certa curiosidade nas pessoas quando eu comecei. Se havia esse pensamento eu não sei, não foi uma coisa que eu senti muito. Acho que ajudou sim, ter um nome reconhecido ajudou muito.
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Ainda tem mais, calma.