31/12/2007

Cinema / Democracia



Creio que um dos espaços mais democráticos do mundo moderno atual é o cinema.

Vamos então tomar umas pré-definições: suponhamos que o cinema está cheio, que o filme que será assistido é uma comédia romântica que está estreando e que a classificação indicativa do filme é livre.

É sempre assim: primeiramente todos aguardam ansiosamente na fila pela sua vez de comprar o ingresso. Chegada a hora, pede-se pela metade do ingresso ou pelo ingresso inteiro e em seguida dirige-se até a fila da pipoca. Talvez a espera pela pipoca seja ainda mais ansiosa ainda do que a espera pelo ingresso, tendo em vista que têm-se à vista todas aquelas pipocas, refrigerantes, doces, balas e afins, e ainda aquele cheiro todo no ar. Enfim.

Com os pacotes cheios de pipoca até um pouco acima do topo, faz-se o maior esforço para não derrubar nada no chão enquanto tenta-se pegar o ingresso que está no bolso com uma das mãos que estão segurando, respectivamente, o balde de pipoca ou o copo de refrigerante.

Entrega-se o ingresso ao cara que está cuidando da parte de receber ingressos (não sem derrubar algumas pipocas no chão) e entra-se naquela grande sala, cheia de poltronas aparentemente confortáveis para finalmente procurar-se por um lugar ali mais pro meio ou então mais pra trás.

Senta-se enquanto espera-se que o filme comece enquanto outras pessoas vão chegando com seus baldes também cheios de pipoca e enfim, as luzes apagam e os trailers começam, enquanto alguns atrasados vão entrando apressados tentando procurar por um lugar sem conseguir enxergar nada e, é claro, derrubando pipocas no chão.

Pois bem, os trailers acabam e o filme começa e lá estão todos, comportados, desviando toda a atenção para projeções de luz em uma tela branca. Passam-se trinta minutos e agora sim, chega a hora da verdade, chega a hora de eu explicar o motivo desta história, chega o momento em que eu explico porque eu disse que "um dos espaços mais democráticos do mundo moderno atual é o cinema".

Veja bem, a sala está cheia e não sobra nenhum lugar. Lá na frente, na segunda ou na terceira fila e inclinando a cabeça para cima o quanto é possível, estão um grupo de quatro ou cinco pré-adolescentes que estavam dando uma volta pelo shopping e que tiveram a idéia de ir no cinema, porém nada melhor do que aquela comédia romântica estava passando naquela hora.

Mais para o meio da sala avistamos um casal bem apaixonado, os dois com seus 30 e poucos anos, troca beijos carinhosos e cochicham comparando o casal desastrado da comédia com eles mesmos.

Para a direita e duas fileiras para frente, apesar do escuro conseguimos enxergar um Vovô que leva seu primeiro netinho ao cinema pela primeira vez. Mais pro fundo é possível ver um casal adolescente que troca toques atrevidos achando que não estão atrapalhando ninguém, porém incomodando quem está sentado ao lado dos dois.

Bem no meio da sala encontramos uma quarentona solteira que se emociona ao ver o filme por dois motivos: uma porque o filme é emocionante e outra porque ela acredita fielmente que nunca mais terá um namorado, marido, amante ou qualquer coisa do gênero.

...

Pois bem, esse texto perdeu seu rumo, melhor eu parar com ele por aqui, antes que vire algo absurdo.

Feliz 2008.

26/12/2007

digite seu nome


Bom, o blog continua sem assunto e pior, sem tempo para escrever a prometida história de Santa Ingênua, então encontro como solução escrever algo mais simples que demande menos tempo e menos esforço mental:

Eis, que num momento de curiosidade, repito o ato que todos que estão mais ligado em internet do que uma porta já fizeram pelo menos uma vez na vida: colocar o próprio nome no google.

Logo leio a frase "Resultados 1 - 10 de aproximadamente 442 para Felipe Emanuel Gollnick Costa (0,39 segundos)", mas eu não me deixo enganar: o primeiro resultado é o nome do meu irmão do meio na lista de aprovados do vestibular da Universidade Estadual de Ponta Grossa de 2001, creio. Ora, veja só.

É exatamente nesse momento que lembro que esqueci de colocar o meu nome entre aspas. Bom, vamos ver os outros resultados para não perder a viagem: o mesmo irmão aparece em uma lista de alunos da PUC, depois aparece algo sobre a monografia da minha tia que está cursando faculdade (mas que já terminou o seu mestrado) de filosofia. Claro, não aparecem apenas parentes diretos meus; vários outros nomes estranhos surgiram, mas ignoro para irmos mais direto ao ponto.

Vou para a segunda página da pesquisa e encontro o nome da minha prima (a filha dessa tia que faz filosofia) na lista dos aprovados no vestibular da UFSC de, caramba, 2000.

Não encontro mais nada de interessante, então refaço a pesquisa, agora colocando o meu nome inteiro entre aspas. E eis que me lamento pois "Sua pesquisa - "Felipe Emanuel Gollnick Costa" - não encontrou nenhum documento correspondente."

Tudo bem, desisto do google. Mas então vamos para o orkut. No canto superior direito da página inicial, onde está escrito "pesquisa do orkut", digito apenas "Felipe Costa", que é como me apresento nesse tão famoso site de relacionamentos. Pois bem: "Resultados 1 - 12 de mais de 1000 para Felipe Costa".

E qual não é a minha surpresa quando eu descubro que, de mais de 1000, eu sou o primeiro da lista? Mas se bem que, sendo realista, acho que deve ter algo a ver com o fato de eu mesmo ter feito a pesquisa. Se eu pesquiso o meu nome, é claro que vai aparecer o meu por primeiro. Bom, se algum desses maravilhosos leitores que frequentam este não tão humilde blog se der ao trabalho de fazer essa pesquisa com o meu nome e depois me informar o resultado, eu desde já agradeço.

Pois bem, digo-lhe que tive mais paciência desta vez para observar das bizarrices de que esse nosso orkut dispõe. Encontrei já na primeira página um Felipe Costa que no seu "quem sou eu" diz "Sou Felipe, filho de Moacir Costa e Neli, irmão de Lupercio Costa e Alceu Costa; tio de Rafael, Daniel e Juliana Costa, e tb de Arthur e Carolina da Silva Costa.". Tal cidadão mora em Nova Garnada (ou seria Nova Granada?), sabe-se lá em que parte do estado de São Paulo.

Alguém se apresenta como "felipe costa!!!! desejo um feliz natal p tds!". Tem um Felipe Costa que é um bebê, tem outro que é um mano, tá ligado? Vou para a segunda página.

Neste parágrafo, apenas copiarei o colarei o início do "quem sou eu" de vários dos figurões encontrados aqui: "√ FeLiPe CoSta Vai aDD?? DeiXa Um ScRaP!! ;] ... ", "[b][u]Um aninho...[/b][/u] [:)] [:)] _[i ... ", "O DA FOTO AI DO LADO... 'não ande pelo caminho ja traçado, assim chegará somente onde outros ja ... ", "[b][blue]Sou feio? tem quem goste! Sou chato? tem gente mais ainda! Sou simples? simplisidade é ... ", "Eu sou o Felipe tenho 14 anos estou á procura da mulher perfeita............... Num pode ... "

Ainda na segunda página aparece um guri que pela foto aparenta não ter mais do que 7 anos: "um garoto legal, simpatico, gosto muito da minha irma, dos meus pais , dos meus amigos, de estherzinha, que fica toda hora me beijando, e eu nao gosto de beijo, so da minha mae e da minha madrinha!!!!!!!!! bom , pra saber quem eu sou tem que me conhecer!!!!!!!"
E aliás, me chamou a atenção a quantidade de garotos dessa idade e com esse nome.

Na 6ª página tem um Felipe Costa cuja foto de exibição é uma caveira com duas guitarras atravessadas, outro tem o antigasso Eminem mostrando os dois dedos meios, outro se diz como "Felipe Costa seu criado" e por aí vai.

Vamos lá, não perca mais tempo, digite seu nome no google ou no orkut, vai.

24/12/2007

24 e 25 de dezembro

Gente, então é oficial. Estamos no natal. Gostaria muito de desejar feliz natal para todas as pessoas que vêm até este não tão humilde blog e para as que não vêm também, mas essa não é a questão. A questão aqui é mais... é mais... mais o quê?

O problema é o seguinte: tem gente que considera que o natal é mesmo no dia 25 de dezembro, portanto hoje, dia 24 é só a véspera, naturalmente. Sendo o dia 24 apenas a véspera, nada significa então o dia 24, porque é só a véspera, entendeu?

Mas tem muita gente também que, não se sabe o porquê, só comemora na noite da véspera, deixando assim de comemorar no dia 25, que é o próprio dia em que as coisas aconteceram. E aliás, citar as coisas que aconteceram naquele dia há tantos não vem ao caso porque o caso aqui não é esse.

Bom, então justamente para evitar conflitos de opinião e não-aceitação de bons desejos, este blog se abstém de desejar ao leitor qualquer tipo de clichês que são desejados no natal. Ficou entendido então? Que fique bem claro que o natal do ano de 2007 representa para o Defenestrando o ato de evitar confusões, ou seja, eu já nem sei mais o que eu estou falando.

Eu? Eu comemoro o tal do natal tanto na véspera quanto no dia em si, aceitando assim o seu desejo de feliz natal em qualquer um dois dias (ou vários dias ou vários dias depois) sem causar nenhuma confusão.

Tudo bem, deixemos as confusões de desejo de lado e levantemos uma discussão de cunho bem pré-adolescente: se a contagem dos anos como conhecemos hoje tem como referência o nascimento desta pessoa que todos bem conhecemos, por que então não comemoramos o natal no dia 1º de janeiro?

Ah, que seja.

Feliz Natal.

20/12/2007

a walk to remember

Em tempos em que a gente não tem tempo, a estratégia é recorrer a posts antigos. Fique aí com o "Troféu Felipe de Ouro, de Lama e de Tomate" do ano passado, que é pra você já ir se aquecendo para a premiação desse ano.

"Aí está o tão aguardado Troféu Felipe de Ouro 2006! A maioria dos campeões tem um linkzinho pra você poder conseguir mais informações sobre o indicado.

Troféu Felipe de Ouro 2006

melhor ídolo do felipe do ano: Amarante (Guitarrista, baixista, vocalista e compositor do Los Hermanos)

melhor banda do ano: KT Tunstall

melhor filme do ano: Happy Feet (filme infantil com uma puta mensagem óbvia para o mundo inteiro se ligar que ninguém que eu conheça gostou)

melhor filme assistido pelo Felipe nesse ano, não havendo necessidade de ter sido feito nesse ano: O iluminado

melhor comunidade do orkut descoberta pelo felipe do ano: Rá!

melhor mulher do ano: KT Tunstall (segundo prêmio na noite)

melhor cara do ano: Marcelo Tas

melhor iniciativa do ano: Sabe a CNT? aquele canal aberto que ninguém vê? eles começaram a passar clipes famosos e transmitiram o mundial de clubes.

melhor cd do ano: Mamonas Assassinas ao vivo

melhor cd do ano não sendo necessariamente desse ano: The Beatles - Sargent Pepper's Lonely Hearts Club Band

melhor filmezinho do youtube do ano: kiwi!

melhor evento do ano: Copa do Mundo

melhor evento presenciado pelo Felipe do ano: Show de Los Hermanos e Mombojó no Teatro Guaíra

Troféu Felipe de Lama 2006

pior ator do ano: Lula

pior grupo de pessoas do ano: Emos em geral (levaram 99,9999987% dos votos da comissão julgadora. Quem não votou neles é emo. viadinho.)

pior personalidade do ano: Zidane

pior conjunto de personalidades do ano: políticos (levaram 100% dos votos)

pior mulher do ano: Táti Quebra-Barraco

pior frase do ano: "Tô ficando atoladinha - calma, calma, foguentinha"

pior acontecimento do ano: Eleições

pior acontecimento do orkut do ano: "LiverJuice - emagreça dormindo", "ninfetinhas.net" e todos aqueles spams que invadiram o orkut.

pior estação de TV do ano: Globo (bicampeã disparada - levou o título do ano passado também)

Troféu Felipe de Tomate 2006

tombo mais bizarro do ano: o do Lula, no qual ele quebrou a perna

fato mais bizarro do ano: Brasil na Copa do Mundo

cara mais bizarro do ano não sendo desse ano: Marcelo Tas (segundo prêmio na noite)

resposta mais bizarra do ano: Rodrigo Amarante desvencilhando um repórter burro

clipe mais bizarro do ano: Fergalicious (Fergie)

moda mais bizarra do ano: aqueles videozinhos do youtube de pessoas colocando "mentos" em garrafas de coca-cola



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Todo blog que se preze possui uma lista de fim de ano, é óbvio que este aqui não poderia ser diferente.


16/12/2007

super novidade

Franco e direto: vem aí o "Podcast Defenestrando #1"

issaê.

Música Boa da Quinzena - Coración


Pois bem, mais uma quinzana que se encerra.






E a música boa da quinzena é "Coración", de "Heitor e Banda Gentileza".
Esta aqui é uma das melhores que eu já ouvi, posso te garantir.

Trata-se de algo que eu não consigo definir bem em um gênero único. Talvez seja algo que fique localizado naquela zona neutra que fica entra entre o rock e essa nova mpb que a gente vai vendo surgir por aí (mombojó, por exemplo). Enfim.

A questão é que essa música tem tudo o que eu acho que uma música boa precisa ter: Bons arranjos (incluindo aí metais), ótima letra, ótimas guitarras, ótima linha de baixo, ótima bateria e o principal, a capacidade de fazer você se emocionar (e a emoção aqui pode significar qualquer emoção em qualquer música, e não aquela emoção daquele movimento emotivo lá que eu não pronuncio o nome. Digo, um pagode pode te emocionar, e é isso que eu considero fundamental).

A ótima letra utiliza de trocadilhos inteligentes e espertos jogos de palavras, como em "o coração anda dormente / já faz tempo que não sente / já faz tempo que não bate / eu bato nele e ele consente" e o refrão "o que você faz não me diz respeito mais / mas desrespeitou".

Finalizando, quando você perceber que o refrão está acabando pela segunda vez na música, pare tudo o que estiver fazendo, aumente o som, feche os olhos e se deixe levar pelo trompete, pelo saxofone e pela guitarra com delay (e aliás, se for delay mesmo o efeito que ele usa nessa música, me confirme porque eu estou dizendo isso com certeza nenhuma).

"Coración" foi lançada no 2º EP da banda, também o segundo ao vivo, gravado pelo projeto "A Grande Garagem que Grava" daqui de Curitiba.

Vamos lá, tem dois links ali em cima e mais um aqui, clique logo e ouça o som, porque esse é bagulho da boa.


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E vem aí o troféu "Felipe de Ouro 2007"! Não perca sob hipótese nenhuma!

10/12/2007

Santa Ingênua - Capítulo 2

Sobre uma breve apresentação de Santa Ingênua

Bom, podemos dizer que Santa Ingênua é um vilarejo esquecido. É um vilarejo que proporciona a si mesmo o fato de ser esquecido e que não faz nada para escapar desta situação.

Distante a não se sabe quantos quilômetros da cidade mais próxima (ninguém nunca fez uma medição oficial para saber qual a distância exata de Santa Ingênua até Orizona) e localizada no meio de um deserto, ninguém nunca se separou mais do que duzentos metros dela. Nenhum de seus moradores jamais tentou chegar a Orizona, ninguém nunca sequer teve vontade de ir até algum posto para comprar um Misto Quente de posto.

Ah não, mas eu já ia me esquecendo: houve sim uma vez em que um adolescente de 16 ou 17 anos fugiu dizendo que não aguentava a monotomia do lugar, que não aguentava mais tanta areia fofa, e a sua principal reclamação era a pouca importância que as pessoas davam às coisas. E cabe a mim te dizer que isso é uma característica bem marcante do pessoal desse vilarejo: pode-se ter quebrado um vaso de cristal lindo, que já estava na família a séculos, mas não se dava importância. "Tudo bem, isso acontece", alguém dizia, "agora vamos limpar a sujeira".

Surpreendentemente, ninguém se importou muito quando um certo dia, sob o calor forte das 13 horas, o tal do adolescente fugiu correndo da casa de seus pais com uma mala na mão, apavorado, como se tivesse visto um monstro, não querendo voltar nunca mais. Quando sua mãe leu o bilhete de despedida que ele havia deixado na porta da velha geladeira da cozinha, sua reação foi algo do tipo "meu filho foi embora... que pena... pelo menos isso não vai acontecer de novo."

A reação do pai não foi muito diferente. Sua mulher lhe transmitiu o recado da partida ao mesmo tempo em que preparava o café da tarde, parecendo prestar mais atenção no café do que na trágica notícia que ela transmitia. "Azar," ele comentou após ouví-la; "agora a gente segue a vida em frente. Eu já desconfiava que isso iria acontecer... o café está cheirando bem!"

A última frase que se tem notícia do rapaz é algo como "Vou embora e nunca mais volto! Vou embora para algum lugar que tenha alguma coisa para se fazer, para algum lugar que dêem importância para alguma coisa! Para algum lugar que dêem importância para a vida!", assim mesmo, bem dramático. Pelo menos era assim que sempre dizia o velho Profeta Lírico. Quem é o velho Profeta Lírico? Você descobrirá no próximo capítulo.

Para terminar essa história do rapaz revoltado de uma vez, preciso dizer que alguns anos após a sua partida virou um costume entre os moradores responder "Só não vá querer dar uma de adolescente fujão, hein?" quando alguém reclamava que não havia nada para se fazer. Quando tal resposta era ouvida, a reclamação cessava instantaneamente, como se fosse uma das maiores ofensas do mundo ser um "adolescente rebelado que foge à toa".

Mas a questão não é essa. Leitor, não pense que isso aqui é uma história de protesto contra a sociedade real em geral que não admite adolescentes rebelados. Não, a crítica aqui será outra. Mas ela ficará nas entrelinhas e você terá que descobrí-la sozinho, porque se não não tem graça e assim talvez um dia minha história seja considerada inteligente, mas isso não vem ao caso.

Vamos passar para a descrição do vilarejo em si: são apenas 25 casas, todas de tamanho razoavelmente bom e padrão financeiro médio-alto. Todas as casas, sem excessão, possuem uma decoração antiga, com destaque para as já citadas geladeiras velhas com um design que hoje seria considerado bizarro e para as luminárias que hoje seriam consideradas elegantes. Assim, olhando meio desatento, parece que toda a decoração, todos os móveis, parece que tudo foi comprado nos anos 50.

Enfim, os dois detalhes do vilarejo que julgo serem mais importantes para essa história são:

1º - Santa Ingênua fica localizada ao lado de uma enorme duna. A tal duna é bem mais alta do que qualquer uma das casas e tem uma área maior do que a vila. Se ventasse forte para um mesmo lado por dois anos seguidos, o vilarejo sumiria sem deixar rastros.

2º - Se existem uma grande duna, significa (não necessariamente) que o terreno é formado exclusivamente por areia fofa. O que por sua vez nos faz entender que Santa Ingênua está construída sobre um mar de areia fofa. Já disse isso no capítulo anterior, mas quero reafirmar, para deixar bem claro. Porque isso, senhores, é um detalhe importante.


De tanto conviver com a areia, os ingênuos (como os habitantes se auto-denominam) criaram um inteligente método de realizar menos esforço nas caminhadas: construíram enormes calçadas de madeira, como se fossem grandes trapiches extremamente bifurcados construídos sobre a areia. É como se formassem a malha rodoviária de uma cidade que não tem ruas.

O motivo destes trapiches? É simples, todos sabem que andar na areia cansa muito, ainda mais na areia fofa. Assim, com as tais das calçadas de madeira seria muito mais fácil e muito menos cansativo andar de um lado para outro e o principal, visitar os vizinhos para reclamar de alguma coisa que não estivesse muito certa na vila. E aliás, este era o principal esporte dos ingênuos, reclamar de algo que não estivesse indo bem.

Então mesmo que tudo estivesse indo razoavelmente bem no local, eles sempre arranjariam algum detalhezinho para ficar praguejando. Até as crianças o faziam, de tanto verem os adultos reclamando.

07/12/2007

Santa Ingênua - Capítulo 1

Sobre como se faz para chegar até Santa Ingênua




No Brasil não há desertos; ou pelo menos não se tem notícia deles. O que quase ninguém sabe é que existe sim um deserto no Brasil, só que escondido. Como se faz para chegar lá? Bom, vamos tomar como referência a cidade de Goiânia. Saindo de lá, você deve pegar a BR-352, ou então a GO-020, que é a mesma coisa, indo no sentido Sudeste. Mais ou menos na altura da cidade de Bela Vista de Goiás a estrada em que você está irá cruzar com a GO-147. Continue em frente. Uns vinte minutos depois você encontra a GO-139, mas não desvie do seu caminho.

Uns 40 quilômetros depois você encontra a cidadezinha de Pires do Rio e aí sim você vira para a esquerda, sai da BR e pega a GO-330, seguindo agora na direção Norte até chegar em Orizona. Se quiser, pare para tomar um lanchinho, porque talvez essa seja sua última oportunidade de comer um sanduíche de posto. Cá entre nós, sanduíches de posto sempre são ótimos, não importa o posto. Em um Misto Quente não há erros. Saboreie bem, porque aonde vamos não há ruas nem carros e conseqüentemente não existem postos, o que torna nula as possibilidades de se comer um Misto Quente de posto a não ser que você queira sair de onde estaremos para voltar até alguma cidade vizinha. Mas dá muito trabalho, e uma vez estando onde estaremos, você não vai querer voltar à alguma cidade vizinha.


Pois bem, agora com a barriga cheia, podemos voltar à nossa viagem. Enquanto você ainda estava na GO-330, você virou à direita na primeira entrada para Orizona. Agora é preciso atenção: apenas uns 20 metros depois de você ter saído da estrada, procure por uma estradinha de terra discreta à direita. É necessário diminuir bastante a velocidade do carro, porque se não você nem percebe a entrada e assim segue reto até chegar em Orizona. E Orizona não é o nosso destino, e estando lá não adianta nem perguntar para os moradores (quanto menos para os taxistas) sobre como se faz para chegar aonde estamos querendo chegar: eles não sabem. Quase ninguém sabe.


Virou à direita e entrou na estradinha? Ok, agora é preciso paciência. Você seguirá nela por pelo menos duas horas se for atrevido e andar numa velocidade razoável. E tenha sempre uma garrafa cheia água em mãos porque o calor é forte e o ar é seco. Depois dessas duas horas acontece o pior: a estradinha acaba. E agora? Muitos achariam que estão perdidos. Mas você não está perdido, você está comigo. Olhe para frente: se você perceber bem, a mata forma uma espécie de trilha com largura suficiente para um carro passar. Siga-a.


Agora você pode até acelerar um pouco mais, porque o terreno é quase plano e, uma vez percebida essa trilha formada por vegetação rasteira, é fácil seguí-la. Mas fique atento para eventuais vacas, lagartos e cobras no meio do caminho. Atropelá-los pode lhe render um peso na consciência enorme, que é algo que você certamente não quer agora. O que você quer é chegr no nosso destino.


Meia hora depois você consegue avistar ao longe a areia, o formato das dunas e o tal do deserto escondido que eu te falei. Siga em frente, não pare, estamos chegando lá.


Mais meia hora e agora você chegou no deserto. E você se surpreende. Sabe aqueles estereótipos que nós vemos na TV quando aparece o Deserto do Saara? Então, este é exatamente assim. Este é o Deserto dos Entregues. Se você fez tudo certinho, você foi parar em um lugarzinho onde algumas dunas de mais ou menos um metro de altura formam exatamente um "U" para quem olha de cima.


Pois bem, desligue o carro, feche todos os vidros e tire as suas malas do porta-malas. Deixe o carro aí, não tem problema. Quase ninguém sabe como se faz para chegar aqui e as pessoas que o sabem não irão querer roubá-lo. Fique tranqüilo, não precisa nem ligar o alarme.

Agora vem a parte chata. É bom que você esteja só com uma mala e que esta não seja muito grande e nem pesada. Você irá caminhar por mais ou menos trinta minutos e sempre na mesma direção (cuidado, muito cuidado com isso. Não há nada aqui para basear o seu caminho, então recomendo que você leve uma bússula). A areia é muito fofa e as dunas são íngremes, então nem teria como você atravessar esse deserto com o seu carro. A não ser que o seu carro seja um jipe. Mas você não tem um jipe, você é uma pessoa normal.

Depois de meia hora caminhando por entre dunas íngremes e sempre reto, você chegou ao vilarejo de Santa Ingênua. O vilarejo que se deixou ser engolido sem maiores protestos. É aqui que nós passaremos os próximos meses.



04/12/2007

Entrevista Luis Fernando Verissimo - parte final

Olha aí, a parte final da entrevista. Se você não leu a primeira parte, abaixe a tela até o post anterior.

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Defenestrando: Vamos passar para os livros então. “O Opositor” [ed. Objetiva, 2004. História de um jornalista que passa uma semana na Amazônia a trabalho e que acaba passando por fatos incríveis] se passa em Manaus, e eu lembro que quando eu o li estava na praia, numas férias de verão bem quentes, então suei junto com o livro. Não sei foi só o calor forte da praia, se foi o calor do livro ou os dois juntos... A história tem muitos detalhes da região e tal. Você foi até Manaus para escrever a história ou algo desse tipo?
Luis Fernando Verissimo: Não, não. Eu conheço Manaus, passei pouco tempo por lá, mas não fiz nenhum tipo de pesquisa pra escrever a história não.

E a Serena, a mulher de duas cores [companheira do protagonista, cuja pele é metade branca e metade mestiça
]? Foi só uma brincadeirinha ou tem um significado?
Tem um certo significado sim. Ela representa uma dualidade... Ela é metade índia e metade... [pensando] ...nem lembro mais, dinamarquesa, norueguesa, né? E é isso né, aquele interesse que a Amazônia desperta no mundo inteiro... Vem muita gente da Europa pesquisar os índios, pesquisar a flora e a fauna. Então ela representa um pouco isso, a Amazônia como o que ela simboliza para nós e também o quê ela representa pro resto do mundo, o interesse que ela desperta no resto do mundo. Então esse personagem representa essa dualidade.

Sobre “O Clube dos Anjos” [ed. Objetiva, 1998, coleção “Sete Pecados”
]. Esse livro é uma coisa sublime. É a história de, acho que são onze pessoas né?
...dez, né?

... é sobre dez pessoas que formam um “clube de comer”. Mesmo com o risco real de morte [alguém envenena os pratos com o consentimento dos membros do clube
], eles continuam comendo até que todos morrem, e enfim. Dá até pra fazer uma ligação desse fato com as pessoas que usam drogas na busca pelo prazer e essas coisas. O senhor como o criador do hábito de leitura em muitos adolescentes, o senhor de vez em quando se vê obrigado a fazer uma orientação sobre mau-comportamento, uso de drogas ou alguma coisa assim?
Não, na verdade não tenho essa intenção não. Nessa história o quê eu acho que é importante é que é um grupo de pessoas fracassadas, né? Nenhuma delas conseguiu nada na vida. Então de uma certa maneira eles se suicidam. Aquilo dá prazer pra eles, é comida e tal mas na verdade eles estão se suicidando. Se alguém quiser interpretar isso como um alerta sobre os excessos de comida, de drogas ou o que seja, pode interpretar, mas não era essa a intenção do autor.

O senhor falou, aliás, na palestra de ontem [29/11/07] sobre o “bom combate” [a criação do hábito de leitura no maior número possível de jovens
] e essas coisas. Como o senhor se vê nessa parte?
É... apesar de eu não ser assim uma pessoa muito legal pra falar em público, eu sempre aceito esses convites pra eventos como o de ontem, que eu acho que é o mínimo que a gente pode fazer pra ajudar nessa luta, esse bom combate que é criar hábitos de leitura, fazer um pouco os leitores se aproximarem dos autores, e o que a gente puder fazer para poder promover o livro e a leitura principalmente entre os jovens a gente deve fazer, mesmo não tendo o jeito para isso.

Voltando a falar de comida mas mudando de assunto, consta que o senhor gosta muito de ir para a Europa, especialmente Paris. Já li muitas crônicas suas sobre Paris, e inclusive uma que saiu em um livro especial de viagens em que vários escritores contavam histórias de viagens que tinham feito. Você considera Paris como a Meca da alimentação para as pessoas apaixonadas pela arte de comer bem?
É, Paris, a França tem essa reputação merecida de ser o país da melhor comida, de ser o país mais interessado pela comida. Francês é louco por comida, eles tem toda uma literatura sobre comida, uma cultura baseada no bem comer, e eu gosto muito de lá. Infelizmente, por problemas de saúde já não posso mais fazer como antigamente, comer de tudo e tal... Não posso comer açúcar, fritura, e tal. Então hoje eu tenho mais lembranças do que propriamente experiências.

Mas lembranças que rendem boas histórias ainda, não?
Acho que sim, mas entendo que não sou mais a mesma pessoa que viaja por aí, nos bons tempos que eu podia comer de tudo.

O senhor chega a ser reconhecido em Paris?
Por brasileiros sim, né, encontro sempre brasileiros na rua lá. Mas por franceses não, apesar de todos os livros traduzidos.

E internacionalmente falando, como estão os livros? Como que anda isso? Estão sendo feitas muitas traduções?
Está bom, o mais traduzido é “O Clube dos Anjos”. Esse foi traduzido no mundo inteiro, até pra uns lugares meio estranhos: Sérvia, Coréia... nem sei quantos países foram. O “Borges e os Orangotangos Eternos” [ed. Cia das Letras, 2000, coleção “Literatura ou Morte”] também teve bastante traduções e uma crítica muito boa nos Estados Unidos. “O Opositor” também foi traduzido mas acho que só na França e uns outros poucos países.

Chega a viajar a trabalho?
Não, é que na verdade são vendas pequenas... [pausa] O Clube dos Anjos chegou a ter mais de uma edição na França, e o “Borges” ganhou um prêmio de melhor livro latino-americano de 2004. Já participei de festivais, de feiras de livro na Europa e tal, mas nada assim de grande repercussão.

E aqui no Brasil, o senhor é reconhecido na rua? Como que é lá no Rio Grande do Sul?
Então, isso acontece bastante, quando você sai regularmente em jornal tem isso, mas não é como se fosse uma grande estrela...

...não tem paparazzi em casa...
...não, não, tem um pouco só, mas nada que incomode...

Não chega a ser um problema, então.
Não. É bom porque as pessoas reconhecem, é uma manifestação de carinho.

E essa manifestação de carinho? Você tá andando na rua e de repente chega um cara que você não tem idéia de quem seja te dizendo “ei, eu gosto do seu livro”...
Tem sempre uns que comentam alguma coisa, querem tirar fotografia, pedir autógrafo, às vezes pedem só um abraço... Mas isso é sempre uma sensação de prazer.

E aí tem sempre a tradicional pergunta do jornalismo, digamos, fácil. Sempre aparece um repórter que pergunta ao jogador que fez um gol no último minuto como ele está se sentindo. Como o senhor se sente quando vem um cara e diz que...
...é bom, geralmente é uma coisa gostosa. Tem muita crítica quando escrevo alguma crônica sobre política. Mas essas manifestações na rua, de pedir autógrafo e fotografia são sempre boas pro ego da gente, né? É sempre uma coisa gostosa.

Vamos para as duas últimas perguntas. O senhor está agora com setenta e...
...um..

...setenta e um anos. Como que está a sensação no geral? Trabalho completo? Feliz?
Eu acho que ninguém se sente realizado, sempre tenho a idéia de fazer mais. Mas eu não posso me queixar da minha vida. Se tem alguém que não pode se queixar da vida sou eu: Tive uma juventude ótima, uma família sensacional, uns filhos ótimos, sem nenhum problema. Então eu acho que nesse sentido, como pessoa, eu posso me sentir realizado. Mas como escritor não, preciso fazer cada vez mais e melhor.

Pra terminar, uma análise: tem uma crônica no livro “Comédias Para se Ler na Escola” que se chama “História Estranha”, que é sobre um homem com seus quarenta anos que encontra com ele mesmo com sete anos jogando bola, e os dois se reconhecem. É uma história realmente estranha, cheia de sentimentos, tem realmente muita coisa nas entrelinhas ali. O senhor se baseou em algo real, alguma revelação, algum momento...?
Não... Eu não me lembro como que nasceu a história, mas todos nós temos um pouco disso, de como seria se nos encontrássemos com outra idade, se pudéssemos voltar a viver como garotos, acho que é um pensamento comum. Mas não lembro do ponto de partida da história. Mas acho que é isso, a idéia de que a gente tem que pesquisar a própria vida, de voltar no passado, de reviver as coisas... por aí.

02/12/2007

Entrevista Luis Fernando Verissimo - parte 1



Luís Fernando Verissimo, escritor e jornalista (e também fonte de inspiração para este tão amado blog, tendo em vista que o nome "Defenestrando" é uma referência direta a uma de suas tantas crônicas) veio a Curitiba para participar de dois eventos: a palestra "Cronicamente Viável - A Informação e a Imaginação na Internet" (junto com Carlos Affonso de Souza) nessa quinta-feira (29/11) e, no dia seguinte, o show "Concerto para um mundo sem conserto" do seu "Conjunto Nacional", grupo de jazz que conta com membros como Paulo e Chico Caruso. Ambos no Museu Oscar Niemeyer, ambos proporcionados pelo Circuito Cultural Banco do Brasil.

Após a citada palestra, tentei um contato direto com esta tão bacana personalidade para verificar a possibilidade de se marcar uma entrevista. Fui notificado pelo próprio que este estava hospedado no Hotel Rayon e que a manhã de sexta-feira estava livre de compromissos. Então lá fui eu, no dito dia, tentando calmamente conciliar duas pessoas que brigavam dentro de mim: um fã inverterado e um futuro jornalista.

O Hotel Rayon é um dos mais chiques de Curitiba, e é a preferência de 90% das celebridades que vêm para cá. É praticamente impossível você morar em Curitiba e nunca ter visto nenhuma celebridade saindo da sua porta de entrada. Esperei cerca de vinte minutos na chique recepção do hotel quando ele apareceu saindo da porta do elevador, andando com toda a calma do mundo, acompanhado do que julguei ser sua esposa.

O que me surpreendeu foi a incrível imagem de um vovô bonachão (no melhor sentido possível da palavra) que todos gostaríamos de ter que ele passou. O que eu tinha na minha frente era uma figura que falava com calma, que demonstrava sabedoria no que falava e que, acima de tudo, me causava uma incrível e espontânea sensação de respeito.

Aproveite aí o ponto mais alto que o Defenestrando escalou até agora.




Defenestrando: Vamos começar do começo. O seu pai foi ninguém mais ninguém menos do que o seu pai [Érico Verissimo, escritor de clássicos como a série “O Tempo e o Vento”]. Isso com certeza deve ter ajudado você a ter traçado esse caminho que você traçou. Como que tudo isso começou? Como era o clima na sua casa? O que fez com que você começasse?
Luis Fernando Verissimo: Bom, antes de mais nada a minha casa era uma casa que tinha muitos livros... Eu convivi sempre com livros e com escritores, por isso sempre li muito, sempre gostei de ler. Mas eu não tinha nenhuma idéia de ser escritor; houve uma influência indireta do meu pai, e não direta. Nem ele me disse que gostaria que eu fosse escritor como ele e nem eu tive a intenção de ser escritor, tanto é que eu comecei a escrever bastante tarde, com uns trinta anos, no jornalismo. Tinha feito umas traduções do inglês para o português, mas fora isso nunca tinha feito nada. Mas claro, ter feito parte de uma casa com muitos livros e ter sido filho de um escritor, indiretamente influenciou sim.

O senhor começou no jornalismo mesmo então?
Foi. Foi quando eu entrei no jornal que eu comecei a escrever regularmente e eventualmente me deram espaço para pôr umas crônicas. E foi assim que eu descobri a minha vocação, um pouco tarde, mas...

...mas como que foi? Você chegou lá um belo dia com uma crônica e falou “ó, eu tenho uma história pra contar”? Você ainda não era escritor, era só jornalista, então...
...é, eu era só jornalista mesmo. Trabalhava na “cozinha” do jornal, como se diz. Fiz várias coisas... Aí quando o principal cronista do jornal saiu, eles me colocaram pra ficar no lugar dele e aí eu passei a escrever regularmente, agora assinando.

E o jornal, qual era?
O Zero Hora, de Porto Alegre.

E aí teve um belo dia que você chegou para o seu pai e falou “pai, eu vou ser escritor” ou não teve nada disso?
Não, na verdade não... Eu comecei a escrever crônicas e não anunciei nada pra ninguém...

Uma coisa que foi indo aos poucos então...
É.

Certo. Sobre o começo da carreira: ser escritor no Brasil não é nenhum pouco fácil, não é qualquer um que faz. Quando você percebeu que tinha chances, que dava pra tentar ser apenas escritor?
Na verdade nada disso foi decisão minha, nem começar a escrever crônicas (me convidaram pra escrever). E o primeiro livro que saiu também foi iniciativa da própria editora.

É mesmo?
É. Reuniram umas crônicas. A editora José Olympio lançou meu primeiro livro.

E nisso o senhor tinha uns trinta anos?
Mais ou menos, é. Isso foi em 73, eu tinha trinta e... por aí, trinta anos.

Bacana. E aí quando você lançou o primeiro livro você já conseguiu ser só escritor ou você continuou ainda no jornalismo?
Não, na verdade eu sou jornalista até hoje, né? Meu ganha-pão é jornalismo. Os primeiros livros não tiveram muita repercussão, até que eu lancei um chamado “O Analista de Bagé”, em 1981 acho, e esse sim teve bastante repercussão e a partir daí eu comecei a me dar bem. Mas eram sempre coleções de crônicas, só mais ou menos recentemente que eu escrevi o primeiro romance. Até então todos os livros que eu tinha escrito eram de crônicas.

Sobre as editoras...
Comecei pela José Olympio, depois lancei vários pela L&PM e aí passei pra Objetiva.

E com a Objetiva já era um contrato maior, uma distribuição maior, não?
É, por exemplo, a editora L&PM... [um garçom surge trazendo um copo de leite para o escritor] ...ah, muito obrigado. A editora L&PM é uma editora boa, importante, mas ela é mais ou menos restrita ao Sul, já a Objetiva é uma editora nacional... Dá licença? Eu tenho que tomar os meus remédios.

Não, não tem problema.
[tira do bolso uma pequena caixinha com vários comprimidos] ...então a distribuição já melhorou, né... [toma os remédios]

E como que foi a sua reação ao saber que você ia ter uma distribuição no Brasil inteiro?
Na verdade, a partir do Analista de Bagé eu tinha tido uma repercussão quase nacional, não só local. Depois que eu passei para a Objetiva eu já era de certa maneira conhecido. É fato que melhorou bastante a distribuição dos livros... a Objetiva é uma editora maior e mais forte.

Foi nessa época que começou a entrar mais dinheiro, que o salário aumentou...
É, se bem que até hoje eu não conseguiria viver só de direitos autorais. Certamente o Paulo Coelho vive, o Rubem Fonseca e tal... infelizmente escritor é uma profissão que continua praticamente não existindo no Brasil, não tem como viver de livros. Eu vivo com meu trabalho jornalístico e direitos autorais bons, mas não teria como viver só de literatura.

Voltando ao início da carreira, você achava que o fato de ser filho do Érico Veríssimo atrapalharia você? Algo do tipo “ah, ele só é famoso porque é filho do Érico Veríssimo”.
Certamente o nome ajudou quando eu não era reconhecido. Ajudou pelo menos a criar uma certa curiosidade nas pessoas quando eu comecei. Se havia esse pensamento eu não sei, não foi uma coisa que eu senti muito. Acho que ajudou sim, ter um nome reconhecido ajudou muito.




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Ainda tem mais, calma.

01/12/2007

Tinha que ser o Chávez de novo

Não que isso aqui seja um blog de notícias e opiniões políticas, mas cá entre nós, a coisa está feia por lá:



Cresce preocupação com risco de confrontos na Venezuela
Oposição incentiva voto para evitar derrota por abtenções e ameaça tomar ruas caso 'sim' vença eleição

Talita Eredia, do estadao.com.br


SÃO PAULO - A movimentação da oposição venezuelana na campanha para que a população compareça às urnas no referendo e a polícia nas ruas aumentam a preocupação para o pleito que acontece neste domingo, 2. O presidente do país, Hugo Chávez, tenta o aval da sociedade para colocar em vigor suas mudanças na Constituição, incluindo a medida que garante a reeleição ilimitada para a Presidência.


É grande o risco de confrontos durante o plebiscito deste domingo na Venezuela: forças policiais e grupos leais ao presidente Hugo Chávez estão nas ruas para evitar que "representantes do império ianque" atrapalhem a votação e, de outro lado, os movimentos de oposição planejam sair às ruas para incentivar os venezuelanos a votar contra o plano chavista de aprovar a nova Constituição proposta por Chávez.

Na véspera do referendo, o clima na Venezuela é de expectativa. Como as últimas votações foram marcadas pelos altos índices de abstenções, a oposição, reconhecendo que um boicote poderia favorecer o presidente, incentiva a sociedade a participar do plebiscito, já que os chavistas integrarão em massa a votação. Diante de um aparente empate técnico e das ameaças de fraudes, o movimento estudantil que lidera o bloco opositor convocou a população para fiscalizar a contagem dos votos na noite de domingo.

Fragilizada desde que Hugo Chávez foi eleito, os partidos opositores correm o risco de perder a 12.ª votação no país desde que o atual presidente assumiu o cargo, em 1998. A oposição, que afirma ter a maioria dos votos e diz que a vitória do 'sim' no pleito seria uma prova de fraude, ameaça tomar as ruas na noite domingo para fazer valer a eleição.

A crise é agravada pela falta de credibilidade do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), que é liderado pelo presidente Hugo Chávez. O órgão proibiu ainda a divulgação de qualquer resultado de boca-de-urna e Chávez ameaçou tirar do ar emissoras de televisão que transmitirem números que não sejam oficiais.

Segundo o enviado de O Estado de S. Paulo no país, Lourival Sant´Anna, o líder venezuelano colocou a sua popularidade e a força do seu cargo em jogo para conquistar a aprovação da nova Constituição.

Durante um inflamado discurso no encerramento de sua campanha, Chávez ameaçou cortar o fornecimento de petróleo para os Estados Unidos caso a oposição tente "desatar a violência com a desculpa de que houve fraude". O país é o quarto maior fornecedor do combustível para os EUA. O presidente disse ainda que quem votar pelo 'não', "votará em George W. Bush. A oposição está fazendo o jogo sujo do 'Império' americano, nosso verdadeiro inimigo. Esta é a batalha."

Entre as principais mudanças na Constituição propostas por Chávez está a reeleição ilimitada para presidente, o aumento do mandato presidencial de seis anos para sete anos, o fim da autonomia do Banco Central, a redução da jornada de trabalho de oito para seis horas diárias e da idade mínima para votar, de 18 anos para 16 anos, além da cobertura de benefícios sociais para trabalhadores informais.



Daqui: http://www.estadao.com.br/internacional/not_int88955,0.htm



Está aí um país para se evitar nesse momento.




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Eu ouvi dizer que esse blog entrevistou Luís Fernando Veríssimo.