22/10/2007

Álbum do Mês - Tecnicolor


Os Mutantes. Ah, os mutantes. Uma das maiores bandas de rock do mundo, talvez a maior que o Brasil já teve, ou não.

Uma banda com uma história boa; Um álbum bom; Um álbum com uma história boa: É muito capaz que esse post saia bem cumpridinho. Mas vamos lá, mãos à obra, trabalho em frente. Analisar um álbum bom desses é um prazer, com certeza.



Os Mutantes - Tecnicolor


O início d'Os Mutantes data ali da segunda metade dos anos 60, muito antes dos filmes e seriados. Sabe ali, aquela parte, a segunda metade dos anos 60? Então. Sargent Pepper's, Beatles, Rolling Stones e todos esses negócios. Olhando em fontes diferentes, percebe-se que o início do grupo é meio confuso: Houveram várias bandas, vários nomes, várias formações. Mas sabe-se que eles ficaram conhecidos mesmo em 66, em um programa chamado "O estranho mundo de Ronnie Von", da TV Record.

Em 67, Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee acompanharam Gilberto Gil no famoso e polêmico 3º Festival da Record, com a música "Domingo no Parque". Era a época dos grandes festivais, e havia uma grande tensão entre os violões da bossa nova e as guitarras elétricas do rock, entre seus fãs e artistas de cada lado. Gil e os mutantes foram vaiados pelo público mas mesmo assim conseguiram o 2º lugar no festival.

Depois, gravaram uma faixa no disco-coletivo-movimento "Tropicália ou Panis et Circensis". Logo após surgiram convites para gravarem seu primeiro disco, e eles assim o fizeram em 68, em um álbum homônimo.

Pá, tchum tchum e tal, ficaram famosos, fizeram sucesso, Rita casou com Arnaldo e depois transou com Sérgio, tocaram no exterior, se viciaram em drogas e todas essas coisas. Em 72, Rita deixou o grupo devido a brigas e desentendimentos, partindo para carreira solo. Tal fato decretou um iminente fim da banda, mas Sérgio Dias e Arnaldo Baptista foram carregando tudo nas costas e tocaram o negócio em frente. Um tempinho depois, Arnaldo saiu também (observações sobre este personagem: Viciou-se em LSD, continuou apaixonado por Rita e depois de um tempo ficou literalmente doidão, colecionando sacos de lixo e dizendo que ia montar uma nave espacial para voar por aí. Até tentou o suicídio) e aí tudo virou uma catástrofe. Muitas brigas, discussões e formações diferentes um dia encheram o saco de Sérgio Dias que, em 78 dissolveu a banda de uma vez por todas.

Em 2006 a banda reuniu-se, agora com Zélia Duncan no lugar de Rita. Fizeram alguns shows memoráveis na Europa e no Brasil, mas novamente tudo deu errado: Zélia e Arnaldo saíram novamente. Sinal de que os Mutantes realmente já tinham passado.

Mas chega de história da banda, vamos a uma breve história do disco: Em 1970, depois de uma turnê pela Europa, Os mutantes, a pedido da gravadora Polydor (hoje parte da Universal - a gravadora, não a igreja), começaram a gravar um disco em inglês para atingir o público internacional, e assim o fizeram. Trancafiaram-se durante o mês de novembro daquele ano no Des Dames Studio, em Paris, e o trabalho foi concluído. O que se observou foi um disco com a maioria das músicas em inglês mesmo, porém haviam ainda outras em português, francês e espanhol. Controvertidamente, a gravadora vetou a distribuição do álbum devido ao grande número de línguas cantadas, dizendo que o pessoal não ia curtir, e essas coisas.

As gravações originais ficaram arquivadas em algum outro estúdio (agora em Londres), foram esquecidas e só foram redescobertas no ano de 94 do século XX por Carlos Calado, que fazia uma biografia sobre o grupo. Ele até tentou conseguir o direito de distribuir as músicas, em vão. Depois de muitos entraves, rolos, prorrogações de datas de lançamento e essas coisas chatas, a atual Universal Music lançou finalmente o disco em 2000.

Ainda uma observação: A ilustração das capas foi feita por Sean Ono Lennon. Isso mesmo, o filho daquele cara com aquela mulher. Diz-se que este é fã declarado desta banda a qual nos referimos. Enfim.

Agora sim, vamos à parte boa, chega de história, chega de enrolação, chega de encheção de lingüiça. Afinal, encher lingüiça é um negócio chato, né? Eu odeio quem fica enchendo lingüiça e enrolando assim, sem falar nada.

Começa-se com "Panis et Circenses", música tradicional do movimento tropicalista escrita por Gil e Caetano - só que esta versão está em inglês. Para quem tem essa música como velha conhecida, ouví-la em outra língua pode ser uma experiência muito diferente, para não dizer estranha. O famoso verso "Mas as pessoas na sala de jantar são ocupas em nascer e morrer" é traduzida como "But all the people having dinner inside are very busy with the food 'til they die", deixando claro que as traduções espalhadas por todo o disco não serão exatamente ao pé da letra. Quem tem o ouvido acostumado a ouvir as músicas em português deve estar preparado para uma quebra de paradigma durante o disco inteiro. É bom lembrar que fica faltando a parte do final da música, onde na versão mais conhecida fica-se repetindo "São as pessoas na sala de jantar" em um ritmo progressivamente rápido e contagiante.

A próxima é "Bat Macumba", poema também clássico de Gil e Caetano, que não foi traduzido para o inglês. Rá! Entendeu, entendeu? Se você não sacou, baixe o disco pelo link ali em baixo e ouça. A música é um samba-rock digno de gemidos sedutores por parte de Rita Lee e de ótimos solos da guitarra dourada de Sérgio Dias, um dos deuses do rock brasileiro.

Virginia é a terceira. Vale a pena transcrever os primeiros versos: "Go away and close the door please / I feel cold / Go away and let the sun in / I feel cold / For tonight there will be no one to warm my room / So I'll try to keep the heat with memories" (Tradução livre: "Vá embora e fecha a porta, por favor / Estou com frio / Vá embora e deixe o sol entrar / Estou com frio / E essa noite não haverá ninguém para esquentar meu quarto / Então tentarei manter o calor com memórias"). De repente, no meio de uma música triste, explode um refrão alegre, como uma boa lembrança que aparecia repentinamente na cabeça do eu lírico.

"She's my shoo shoo (A Minha menina)" é uma versão samba em inglês para uma versão rock em português que os próprios mutantes tinham feito para a famosa "A minha menina" de Jorge Ben Jor. E sabe? Esta versão é bem melhor do que as anteriores. A tradução aqui foi feita de maneira excelente, de modo que as sílabas cabem de uma maneira muito mais agradável no ritmo, nas estrofes e nas rimas do que a versão original. O único ponto duvidoso é o verso "And we gonna make the love with samba", em uma espécie de patriotismo esquisito (não é bem patriotismo a palavra) que pode deixar alguns franzindo as sombrancelhas. Mas a qualidade da música é muito superior: Rapidamente esquece-se dos problemas e o tal do samba faz você ficar com vontade de sair dançando.

A quinta é "I feel a Little Spaced Out (Ando meio Desligado)", que como você já percebeu no título, é a versão internacional para o sucesso que você deve conhecer, se não deles de alguma outra banda que regravou, tipo o Pato Fú por exemplo. E de novo, em termos de qualidade, a versão original é deixada para trás: A linha do baixo está mais agressiva, a bateria está mais alegre, e a parte final (diferente da original) pode deixar você com arrepios se você estiver prestando bastante atenção ao som. Um côro do trio e o solo de guitarra de Sérgio te leva aonde eles quiserem.

"Baby", também composta por Caetano Veloso, é um ponto importante do álbum. A faixa demonstra um trabalho bem mais inteligente e de longe muito mais maduro do que a versão anterior. É quase um jazz calminho: O piano assemelha-se à música de restaurantes sossegados, e a tranqüilíssima voz de Rita te dá toda a impressão de que tudo está absolutamente bem. O legal na tradução dessa é que na versão original, quando Caetano dizia "Você precisa aprender inglês", aqui você ouve "It's time to learn the portuguese".

O disco chega ao ápice com "Tecnicolor", literalmente uma viagem (no melhor sentido possível) aonde você pega um trem e se deixa ser conduzido pelo maquinista. Há momentos em que você se percebe claramente nas nuvens. Não vou fazer mais comentários; ouça você a música e depois me diga o que achou.

As músicas agora ficam mais calmas, o rock é deixado um pouco de lado. "El justiciero", clássico originalmente em espanhol desta banda, é praticamente igual à outra versão.

"I'm Sorry Baby (Desculpe, Babe)" é uma carta suicida. Com estrofes definidas e bem dramáticas, percebe-se o problema que vive o interlocutor. Mas eis que surge o refrão, alegre e simpático, anunciando que, como dizia Patch Adams, não há um grande mal na morte, o problema são as pessoas que criam milhões de idéias em cima dela.

"Adeus Maria Fulô" é a única em português. De autoria de Humberto Teixeira e Sivuca, conta a história de um homem que foge do sertão em busca de vida nova nas cidades grandes, o clássico tema do êxodo rural.

"Le Premier Bonheur du Jour" é a mais linda do disco. Em francês, os vocais, os arranjos de guitarra, baixo e flautas e a percussão casam em união perfeita, em mais uma música de arrepiar todos os pêlos. Para ouvir, ler a letra, traduzir e mostrar para namoradas(os). Em "Saravah" o rock retorna, quase encerrando o disco com toques e batuques de psicodelia.

Lembra que na primeira música eu tinha dito que ficava faltando a parte final? Então, eis que aqui, no fim do disco, ela finalmente aparece. "Panis et Circenses (Reprise)" tem flautas doces no começo da faixa que encerram o álbum como uma vovó põe a última cereja no bolo. O nome é uma referência ao álbum super em voga na época, o "Sargent Pepper's Lonely Hearts Club Band", dos Beatles. No disco da banda inglesa haviam duas faixas-título, sendo a segunda reprisada de maneira mais rápida.
E por fim, de novo um fato estranho: A frase que se ouviria na versão original, "São as pessoas na sala de jantar", é trocada por outra, absolutamente psicodélica, "The music lightened with the heat of the sun".


Para finalizar a análise, deve-se dizer que este é um disco de qualidade alta. Um disco onde uma banda de pós-adolescentes-mais-ou-menos-adultos mostra que já está amadurecendo, mostrando que por trás de toda a brincadeira e provocação presentes na história do grupo, estão três cabeças que pensam muito bem, obrigado. "Os Mutantes" foi uma banda que dividiu a história do rock brasileiro em duas partes, embora muita gente já não saiba mais da existência, quanto menos da importância que este trio exerceu sobre a música popular brasileira.


Pontos Altos: Faixa 4 - "She's My Shoo Shoo (A minha menina)", 5 - "I Feel a Little Spaced Out (Ando meio Desligado)", 7 - "Tecnicolor" e 11 - "Le Premier Bonheur du Jour"



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*Não testei os links, só vi que eles estão funcionando e tudo o mais. Qualquer coisa é só falar.


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