16/10/2006

Dani - parte 3

Mas leitor, se Dani era a mulher perfeita, a coisa mais fácil de se imaginar era que não poucos homens estariam apaixonados por ela (havia também uma mulher, mas não entraremos nesse contexto por enquanto. Talvez quem sabe em alguma outra história); Também não eram poucos, mas ainda em menor quantidade, os que estavam perdidamente apaixonados. E entre tão grande número de opções, certamente uma delas seria melhor do que o atual namorado de Dani.

Leitor, vamos parar por um momento e raciocinar (Dani está dormindo agora, então você não perderá nenhum movimento dela): Porque ela continuava com aquele namorado se ela tinha milhares de melhores opções? Deve ter um motivo, claro que deve! Mas esse motivo tem que ser no mínimo um ótimo motivo! Pois se este não for bom, ela imediatamente perde a sua perfeição.

Vamos combinar: Eu não vou te contar esse motivo agora por duas razões - a 1ª porque ainda não está na hora certa e a 2ª porque eu também ainda não conheço a verdadeira razão.

Na sua cama, Dani tira uma soneca profunda. Normal, porque as sonecas costumam ser profundas. Se não for profunda, não é soneca. É só um descanso. Mas isso não tem nada a ver com a história.

Ela só dormiu uma meia hora, são umas cinco para às cinco, ainda tem bastante tempo. Eu posso introduzir mais um outro personagem na história antes que ela acorde. Pode ser um cara. Cidadão normal, não sei a idade dele (invente uma! Esta é uma narrativa aparentemente democrática), cabelo desses de que não se exigem maiores cuidados, estatura mediana, enfim, mais um cara desse tipinho simples.

Seu nome? Lúcio. Não me sobe à cabeça outro nome que seja melhor, e provavelmente dentro de mais alguns parágrafos eu já esteja arrependido de ter dado esse nome à ele. É que para mim nomes não são a coisa mais importante. O que realmente é importante é a forma como você imagina o personagem, seus prós e contras, suas características - muito mais as internas do que as externas (no caso de Dani é óbvio que as duas se equivalem, as internas de jeito nenhum valem mais do que as externas. As duas são completamente equivalentes)

Marisa - a mãe de Dani (Marisa é um bom nome para mães) - sabia da preciosidade que tinha criado e por isso morria de medo de que qualquer coisa de errado a acontecesse. Tanto que entre "a perfeita" e sua irmã mais nova (não vou gastar tempo dando um nome ela, vai ser inútil), Dani era muito mais protegida; Pois não é todo dia que se desenha, projeta, esculpe, cria e por fim dá a vida à uma obra de arte dessas. Ahn? O quê? É verdade, eu estava falando do personagem novo.

Lúcio é só mais um dos tantos que ama secretamente "a perfeita" (vou chamá-la assim, facilita as coisas). Desespera-se com o fato de não ter nenhuma chance com ela. Sabe que, num possível - porém pouco provável - rompimento de Daniela com o atual namorado, na sua frente haveriam milhares de outros caras, mais velhos, mais estrelados, mais engraçados - porém não mais maduros. Lúcio é um dos personagens mais maduros que eu já criei.

E sofre. Ele ama ela. Não vou criar mais uma história-clichê onde o objeto de desejo não tem a mínima idéia de que o então personagem principal exista; Ela sabe sim que ele existe, e os dois são bons amigos. Ótimos amigos até, por que não? Só que Dani só o considera um amigo. Não espera nem um pouco que este lhe ama. E ele sofre. E ainda terá muito o que sofrer pela frente.

Quer saber? Vou piorar as coisas. Lúcio, agora você se deu mal. Lúcio é o melhor amigo de Dani.

continua... vai longe...

15/10/2006

Dani - parte 2

E é claro que o namorado dela era um idiota. Porque toda mulher perfeita tem um namorado idiota. É assim em todas as histórias de mulheres perfeitas. O namorado dela é um cara mais velho, que não bate bem da cabeça, não respeita ela, volta e meia se mete em confusão, e provavelmente usa drogas. Todos os outros personagens dessa história (e até provavelmente o leitor) se perguntam como que pode uma mulher perfeita dessas ter um namorado desses.

E quer saber a verdade, leitor? Eu também não sei porque. Não tenho a mínima idéia do porque que que eu criei ela com um namorado assim. Talvez porque assim eu teria um enredo a desenrolar, e não correria muito o risco de acabarem de idéias.

Até que enfim, depois de algumas batalhas, Dani fecha a sua mala. Foi necessária muita boa vontade. Afinal, todas as mulheres perfeitas levam mais roupas do que precisam em uma mala. Por quê? Ué, eu não sei, não adianta perguntar para mim. Eu não sei nada sobre mulheres. Mas é um habito. E hábito de mulher perfeita agente não questiona.

Me surge agora uma dúvida. O fato de ela ter arranjado um namorado horrível diminuiria ou acabaria com sua perfeição? Não sei leitor, não sei. Alguns me dizem que isso não tem nada a ver, ela continua perfeita, não importando o que aconteça. Outros dizem que poderia sim, isso diminuiria seu nível. Afinal, ela escolheu esse cara. Porque normalmente você tem a opção de escolher seu namorado(a).

Começo a ficar intrigado. Não sei porque criei ela assim.

Logo após fechar a mala, ela percebe que esqueceu uma calça para fora. Suspira, olha o relógio, ela tem tempo de sobra ainda. Abre a mala, as roupas de dentro quase saltam para fora, coloca a calça, tenta dar uma arrumada nas outras roupas e tenta fechar de novo. Mais boa vontade. Boa vontade é uma coisa que Dani tem de sobra. Pronto, está fechada. Olha no relógio outra vez. 4 horas e 15, quase 16. "Faltam mais umas três horas ainda", ela pensa.

Sai do quarto e vai até a sala. Sua mãe está vendo Tv.
- Terminou de arrumar a mala, filha? - ela pergunta, sem tirar os olhos da tela.
- Terminei, mãe.

Leitor. Você não pôde ouvir a voz dela. Agora nós já não temos a mesma boa sorte. Você ainda tem sorte, mas eu tenho mais. Eu ouvi a voz dela. Leitor, criei um monstro. A mulher é perfeita.

- Você promete pra mim que você vai se cuidar? - a mãe pergunta, dessa vez olhando Dani.
- Mãe, eu já prometi! Você sabe que não tem nenhum problema.
- Eu sei Daniela, mas é que, eu não sei... eu tenho tanto medo... Ele... É, o seu... -sua mãe é a única que a chama de Daniela.
- Mãe, vai dar tudo certo, fique tranquila. Já falei que ele não vai aprontar nada dessa vez.
- Tá... Tá bom...

São 4:20 ainda.
- Filha, vá tirar uma soneca então... A viagem é muito longa.
- É, é uma boa.

Dani foi para o seu quarto, tirou a mala de cima da cama, deitou e adormeceu em questão de minutos.

14/10/2006

Dani

Leitor, considero eu e você como duas pessoas de sorte. Te explico: Eu me considero uma pessoa de sorte por que eu sou um autor. Posso criar a situação que eu quero. Posso criar o personagem que eu quiser, estabelecer todas as características e posso fazer vivê-lo a situação que eu bem entender, criar uma rotina para esse personagem e criar qualquer tipo de situação na qual ele pode se meter, sendo justa ou não.

Você é uma pessoa de sorte porque você pode acompanhar toda a vida de uma pessoa sem ter que se preocupar em se esconder para a pessoa não descobrir que você está observando-a. Eu considero isso o máximo. Você não precisa ficar embaixo da cama, atrás do armário ou espiar pela janela. Deixe que eu te mostre tudo.

Por exemplo, vamos criar uma situação: Imagine um quarto. Não muito grande. Só o espaço necessário para uma cama de solteiro, uma janela, um armário e uma mesinha dessas de estudo mas que também serve de escrivaninha. O chão é coberto por um carpete meio sem cor, um cinza meio claro. O armário é da cor natural da madeira, só que essa é uma madeira mais amarelada um pouco. Pronto, o primeiro cenário está criado.

É claro, esse quarto precisa de um dono, o personagem que deve ser o principal da história, pois ele é o primeiro a ser imaginado. No caso, ao invés de um dono temos uma dona. Antes de dar descrições sobre ela eu devo dizer que ela está arrumando uma mala. Meio com pressa, é verdade, mas sem um motivo verdadeiro para tê-la. Primeiro tenta deixar tudo bem organizado, mas alguns minutos depois perde a paciência e começa a amassar tudo.

Agora sim, às descrições: Dani era o nome dela. Tá, era só o apelido, mas todo mundo chamava ela só de Dani, desde o namorado até a menina mais nova da família, sua priminha de 2 anos.

Cá entre nós leitor, ela era linda. Não era que nem dizem hoje - é gostosa que eles falam? - ela realmente era linda. Com todas as suas formas numa relação perfeita de proporção. Olhos castanhos, cabelos indecisos entre serem lisos ou ondulados, um nariz meio pequeno mas perfeito... A boca? Os dentes? Não preciso dizer, você já imaginou que eles também são perfeitos.

No auge da sua ingenuidade, ela vive sua vida normal, sem ter nenhuma suspeita de que ela acabou de surgir da mente de mais um escritor. E aí eu repito, leitor: Nós somos duas pessoas de sorte. Ela não tem a mínima idéia de que você está observando tudo o que ela faz.

Sua personalidade: Tinha capacidade de ser a melhor amiga de qualquer pessoa de qualquer idade, de qualquer credo. Respeitava a todos, ouvia a tudo que lhe dissessem com o máximo de atenção possível, era educada sob qualquer situação.

Se algum menino tímido se sentisse desconfortável ao lado dela, ela tinha a imensa facilidade de tirar esse peso das costas do garoto, e em questão de alguns minutos este já estaria dando risada com as piadas que ela tanto adorava criar.

Resumindo: Ela era mais uma daquelas mulheres perfeitas, leitor. Daquelas que mesmo tendo acabado de conhecê-la e só ter tido trocado um "oi" com ela, você sentiria ciúmes ao vê-la saindo com o namorado. E é claro que ela tinha um namorado.

continua...