03/06/2006

À tarde, em um bar qualquer


- Aquele filho da mãe me pegou num carrinho por trás e nunca mais consegui jogar futebol.
Ali estava o velho, repetindo a 1ª das 15 vezes diárias em que ele contava para alguém a história de por quê que ele parou de jogar futebol.
- Eu estava vindo pela esquerda...
- ...quando o Nílson veio e te deu um carrinho por trás - completou Rui, que já tinha ouvido aquela história no mínimo 215 vezes e a sabia não só de cor e salteado, como também pulando amarelinha.
O velho clichê.
- ...quando o Nílson veio e me deu um carrinho por trás - terminou Moreira, craque-relâmpago do Botafogo na metade dos anos 60.
- E isso era aos 15 do segundo tempo - Rui previu.
- E isso era aos 15 do segundo tempo. Flamenguista desgraçado. Ia ser...
- ... o gol mais bonito da sua vida...
- ... o gol mais bonito da minha vida... Maracanã lotado.
- 18 de agosto...
- 18 de agosto de 1963. O ar estava limpo. A cidade toda parada para ver o jogo. Tudo armado para ser o melhor jogo da minha vida.
- Ah... aquela final... aquele campeonato perfeito - Rui suspirou, apoiou os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos. Esfregou os olhos.
- Aquela final, aquele campeonato perfeito. Ia fechar com chave de ouro!
- O que que eu tô fazendo aqui?
- Vim correndo do meio-campo pela esquerda, driblei 4! driblei 4! Entrei na área pra driblar o goleiro quando chegou...
- Penalti!
- ... o filha da mãe do Nílson, o filho-da-puta do Nílson, me pegou por trás e fez o penalti. Desgraçado flamenguista.
- Será que tem pinga aqui?
- Nunca mais consegui jogar futebol.
- Bem que a Carol podia aparecer por aqui agora.
- Lógico, perderam de 3 a 0, desgraçados. Agente foi Tri naquele ano.
Mas esta história não seria um clichê se a Carol não aparecesse. E é claro que ela apareceu.
- Oi, Carol - Moreira interrompeu o seu discurso de uma hora para outra.
Carol, Carolina era a única que fazia o velho parar de contar a famosa história.
- Oi Moreira.
Rui saiu correndo.