"Tudo isso aconteceu, mais ou menos", diria um escritor consagrado.
Dentre as duzentas e tantas pessoas que lotaram o Teatro Paiol para conferir o Metá Metá em seu aclamado Metal Metal, nem todas repararam num convidado especial inserido na plateia. Foi naquela escadaria estreita próxima às cadeiras que encontrei Jesus de Nazaré, calça cáqui de algodão e jaqueta de couro sintético, barba por fazer e cabelo puxado à Brad Pitt em Troia, preso a um toque de gel espirrado. O que você tá fazendo por aqui, poxa? Não te vejo há eras!, exclamei assustado. Vim ver qual é a desse Metá Metá!, respondeu sorridente, com a simpatia que tanto lhe é natural.
- Mas e aqueles lances de Tambor de Mina, de cantar pra Oxum?, perguntei.
- Como assim?, questionou curioso e, mais uma vez, com natural educação.
- Você não... vê problema?
Jesus riu carinhosamente e se apressou.
- Olha, já vai começar, melhor sentar logo.
Como andasse por sobre pessoas, sumiu. E eu, como obedecesse quem consegue ressuscitar, tratei de sentar.
Após a introdução, qualquer um no Paiol sentiu que raramente se conquista uma plateia com tamanha facilidade. 'Exu', entrada de Metal Metal, ganhou força enorme executada ao vivo, principalmente em local pequeno e fechado. Na performance, a voz de Juçara Marçal recebe sintetização desconfortável, o saxofone de Thiago França soa como genocídio e a guitarra de Kiko Dinucci parece preocupada em te desestabilizar. Unidos, contudo, esses três elementos criaram um cenário inteiro, próprio do transe, e logo o público se viu na mão da banda - ainda incompleta, pois baixo e bateria não haviam subido ao palco - como um animal indefeso.
A cozinha se juntou ao trio para aumentar o ritmo da brincadeira, fazendo a plateia balbuciar admiração, ainda um pouco assustada. Se o baixo veio para segurar o tempo, Dinucci mostrou que tira suco de pedra com seus pedais, enquanto a voz de Juçara, forçada, esticada, empurrada, gritada, saía absolutamente intocável, com uma maciez agressiva que te faz sentir idiota por definí-la como "maciez agressiva" em busca de uma definição razoável que não soe tão fanboy. O saxofone, que espetáculo à parte!, me fez olhar para Jesus, localizado à minha direita, a todo momento, praticamente agradecendo (humilde, respondia com olhar de "por que você tá olhando pra mim com essa cara? Não é mérito meu").
Logo em 'Oya', já pensava que puta que pariu, são os doze-e-cinquenta mais bem gastos da minha vida, e certamente não era o único. O Metal Metal inteiro foi tocado com caprichos, ataques e fervores atingidos apenas por grupos demasiado conscientes de seus objetivos; entrosados, talentosos, ousados, dignos de vários adjetivos seguidos de chupação descarada. É impossível, não só humana quanto celestialmente, que alguém tenha saído insatisfeito do Paiol. Uma apresentação que transfigura qualquer ideia de gênero ou credo - queria que meus pais estivessem lá; que meus avôs e avós, os mortos e os vivos, estivessem lá.
Dentre duzentas e tantas pessoas, quantos conceitos de Deus e Tempo e Espaço deve haver?, uns duzentos, suponho, um pouco pra mais, um pouco pra menos, mas uns duzentos. Deus pode ser um, ou vários, ou tudo, ou o Tempo e o Espaço; ou Tempo e Espaço são Deus, etc.
Fato é que, entre as duzentas pessoas e duzeitos conceitos, deve haver unanimidade no contato artístico com o que nos é sagrado, desconhecido, inexplorado, hiperdimensional, e, portanto, inefável. Eu vi Deus durante 'Man Feriman', estou certo disso, ou senti Deus, ou Tempo e Espaço foram quebrados, ou sei lá, tanto faz, mas algo disso aconteceu. Jesus, tremendo de ansiedade durante 'Logun', também. Valeu a viagem, disse ele por pensamento, ou apenas juro ter ouvido, e no fim das contas que diferença faz.
No fim das contas a diferença é ter visto Metá Metá, entrado em catarse rara e ignorado Tempo, Espaço e Deus graças à subversão de tudo isso. Como andasse por sobre ideias, Jesus sumiu de novo, dessa vez sem parar pra sentar, ciente de me deixar ciente de ter aprendido algo. Antes de desaparecer, sussurrou que se o presente já morreu, um segundo atrás, quem matou fui eu; se o presente renasceu, um segundo à frente, quem gerou fui; palavras de Ifá ou não, direto do Orun ou não. "Mas não é mérito meu".
Dentre as duzentas e tantas pessoas que lotaram o Teatro Paiol para conferir o Metá Metá em seu aclamado Metal Metal, nem todas repararam num convidado especial inserido na plateia. Foi naquela escadaria estreita próxima às cadeiras que encontrei Jesus de Nazaré, calça cáqui de algodão e jaqueta de couro sintético, barba por fazer e cabelo puxado à Brad Pitt em Troia, preso a um toque de gel espirrado. O que você tá fazendo por aqui, poxa? Não te vejo há eras!, exclamei assustado. Vim ver qual é a desse Metá Metá!, respondeu sorridente, com a simpatia que tanto lhe é natural.
- Mas e aqueles lances de Tambor de Mina, de cantar pra Oxum?, perguntei.
- Como assim?, questionou curioso e, mais uma vez, com natural educação.
- Você não... vê problema?
Jesus riu carinhosamente e se apressou.
- Olha, já vai começar, melhor sentar logo.
Como andasse por sobre pessoas, sumiu. E eu, como obedecesse quem consegue ressuscitar, tratei de sentar.
A cozinha se juntou ao trio para aumentar o ritmo da brincadeira, fazendo a plateia balbuciar admiração, ainda um pouco assustada. Se o baixo veio para segurar o tempo, Dinucci mostrou que tira suco de pedra com seus pedais, enquanto a voz de Juçara, forçada, esticada, empurrada, gritada, saía absolutamente intocável, com uma maciez agressiva que te faz sentir idiota por definí-la como "maciez agressiva" em busca de uma definição razoável que não soe tão fanboy. O saxofone, que espetáculo à parte!, me fez olhar para Jesus, localizado à minha direita, a todo momento, praticamente agradecendo (humilde, respondia com olhar de "por que você tá olhando pra mim com essa cara? Não é mérito meu").
Logo em 'Oya', já pensava que puta que pariu, são os doze-e-cinquenta mais bem gastos da minha vida, e certamente não era o único. O Metal Metal inteiro foi tocado com caprichos, ataques e fervores atingidos apenas por grupos demasiado conscientes de seus objetivos; entrosados, talentosos, ousados, dignos de vários adjetivos seguidos de chupação descarada. É impossível, não só humana quanto celestialmente, que alguém tenha saído insatisfeito do Paiol. Uma apresentação que transfigura qualquer ideia de gênero ou credo - queria que meus pais estivessem lá; que meus avôs e avós, os mortos e os vivos, estivessem lá.
Dentre duzentas e tantas pessoas, quantos conceitos de Deus e Tempo e Espaço deve haver?, uns duzentos, suponho, um pouco pra mais, um pouco pra menos, mas uns duzentos. Deus pode ser um, ou vários, ou tudo, ou o Tempo e o Espaço; ou Tempo e Espaço são Deus, etc.
Fato é que, entre as duzentas pessoas e duzeitos conceitos, deve haver unanimidade no contato artístico com o que nos é sagrado, desconhecido, inexplorado, hiperdimensional, e, portanto, inefável. Eu vi Deus durante 'Man Feriman', estou certo disso, ou senti Deus, ou Tempo e Espaço foram quebrados, ou sei lá, tanto faz, mas algo disso aconteceu. Jesus, tremendo de ansiedade durante 'Logun', também. Valeu a viagem, disse ele por pensamento, ou apenas juro ter ouvido, e no fim das contas que diferença faz.
No fim das contas a diferença é ter visto Metá Metá, entrado em catarse rara e ignorado Tempo, Espaço e Deus graças à subversão de tudo isso. Como andasse por sobre ideias, Jesus sumiu de novo, dessa vez sem parar pra sentar, ciente de me deixar ciente de ter aprendido algo. Antes de desaparecer, sussurrou que se o presente já morreu, um segundo atrás, quem matou fui eu; se o presente renasceu, um segundo à frente, quem gerou fui; palavras de Ifá ou não, direto do Orun ou não. "Mas não é mérito meu".









