24/09/2014

Rasura Ruidosa

Um dos lançamentos mais esperados do ano por aqui vai sair essa semana. Três anos depois de Introdução à Cortina do Sótão, o ruído/mm volta com o novo Rasura, gravado no meio deste ano. A banda soltou aos poucos alguns detalhes do novo álbum. Um deles é a capa:



Feita por Mário de Alencar, a capa (desde já uma das melhores do ano) é uma montagem feita apenas com papel, tesoura e cola. Sério.

E quanto às músicas? A própria banda divulgou na semana passada a primeira delas, “Cromaqui”. É a mais curta do disco, pouco mais de dois minutos, mas mesmo neste curto espaço de tempo cabe muita coisa. Duvida? Pois escutem:



Além de “Cromaqui”, nesta semana saiu no Trabalho Sujo outra música do disco, “Transibéria”:



E além destas duas, há ainda uma outra, que dá pra ver numa gravação pirata de qualidade duvidosa feita durante o show de pré-lançamento do disco, que aconteceu no final de agosto no Teatro Cleon Jacques, no primeiro show do agora sexteto (o novato é Felipe Ayres, na terceira guitarra e outros instrumentos) depois de nove meses. Entre um aviso de que aqueles que estavam no público eram as cobaias das novas músicas (foram tocadas todas do novo disco, inclusive uma que tem um subtítulo em japonês, vai vendo) e o outro que tinha cataia (uma bebida forte de Superagui) para ser degustada por lá, veio “Inconstantina”:



O show de lançamento do Rasura acontece nesse sábado, dia 27, no SESC da Esquina e os detalhes estão aqui no evento.

09/07/2014

Como perder na era da informação

por Daniel Castro

Danilo Borges/Portal da Copa - Wikimedia Commons

1998. Da primeira Copa que deixou lembranças ficou a indignação na derrota para os franceses. Não tínhamos superado a Holanda de forma tão sofrida? Então não era possível perder para aqueles homens de azul. No fim, restou abandonar os sacos de jornal picado preparados com tanto esmero nos dias anteriores à decisão, agora inúteis, e botar para fora todos os palavrões que sete anos de vida me permitiam saber.

Quatro anos foram suficientes para superar a frustração. Hoje percebo que tive sorte, afinal, dessa vez completaremos no mínimo 16 anos e duas gerações sem a taça. Os xingamentos a Zidane e Petit, meus vilões de então, deram lugar à exaltação de Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo. E lá se foi meu pai, levando toda a piazada do prédio para dar uma volta na Avenida Batel e comemorar aquela que seria a nossa última alegria em Copas.

As frustrações de 2006 e 2010, acompanhadas ao lado de amigos, não doeram tanto. A seleção não encantava há tempos e a empatia parecia esquecida em algum lugar da Coreia ou do Japão. Pois é, mas ela voltou arrebatadora com a Copa das Copas no quintal de casa. Um futebol limitado, taticamente ultrapassado, não há como negar, mas praticado por jogadores com carisma e caráter, e em um momento especialmente importante da vida política brasileira. Prato cheio para torcer enlouquecidamente, ir para rua comemorar vitórias e até se jogar na piscina na mais sofrida delas, diante do Chile.

Contra a Alemanha, o sentimento era de que a camisa precisava ser honrada, acima de tudo. Se perdesse, paciência, os desfalques seriam desculpa convincente. Desnecessário repetir aqui o roteiro do desastre. Novamente ao lado de amigos, dessa vez a perplexidade falou mais alto. Houve quem quisesse mais cerveja, desligar a televisão, jogar videogame ou mesmo futebol para valer. Cada um a procura do seu escape para não encarar a dura realidade.

O maior vexame do futebol brasileiro proporcionou uma sensação diferente na era da informação. Não bastava xingar os franceses ou celebrar os heróis do penta. Amigos comentavam freneticamente nas redes sociais, os grupos do Whatsapp apitavam sem parar com novas piadas, análises ou lamentos. Cada comentarista de mesa-redonda tinha a sua visão dos fatos, colunistas escreviam aos montes nos portais e o público aguardava ansioso por explicações. Muitos impressos prepararam suas capas pensando em repetir o garotinho do Jornal da Tarde em 1982 – e vários foram bem nisso, em que pese a impossibilidade do feito.

Foi tudo muito intenso, uma explosão, tanta coisa para se pensar e consumir que ficamos carentes em nossas próprias razões. Nada mais justo que a insônia. A vida segue, a Copa das Copas é também a Copa da informação, ou da falta dela. Não se sabe se os cacos serão recolhidos a tempo da disputa pelo terceiro lugar, ou mesmo até 2018 na Rússia. Impossível dizer se a criança que chorou o massacre do Mineirão terá a mesma sorte que eu tive para se recuperar rapidamente do trauma. E se pouco sabemos, talvez seja melhor pensarmos mais no que, quando e onde falar. Essa é outra lição que o futebol nos ensinou em 2014.

20/05/2014

Clipe novo - "Rio Negro", Pão de Hamburguer

por Felipe Gollnick


Aí está o clipe da nova música do Pão de Hamburguer: lançado oficialmente em meados de abril durante um show no Teatro Paiol, Rio Negro chega agora à rede mundial de computadores. Dirigido por Fábio Biondo, o vídeo é um pequeno épico caipiropsicodélico que conta a história de dois viajantes que se metem em uma briga.

"Gravamos em Antonina", nos conta o baterista Rennan Fróis. "É uma cidade que nos acolhe faz tempo, e com a qual nos identificamos bastante. O pai do Gabriel [Fausto, guitarrista e vocalista] tem uma chácara lá, para a qual nós acabamos indo muito, seja para passar o fim de semana ou para compor." 

E como foram as filmagens? "Gravamos debaixo de um solzão de rachar o cerebelo, durante um final de semana", continua Fróis. "Chamamos dois amigos para serem os personagens principais: o André Prokofiev, que toca na banda O Trilho e é um grande amigo nosso, e o Negretix, uma peça de Curitiba. Para gravar, não foi muito fácil não. Como o tempo era curto, tivemos que esfregar as caras madrugada adentro. Mas valeu o esforço, e, se ficarmos ricos, vamos comprar um Nissan para cada um", diz.

Inédita, Rio Negro provavelmente estará em um álbum que o Pão de Hamburguer vem preparando, mas ainda sem previsão de lançamento. Será o primeiro disco cheio da banda, que já tem na conta dois EPs e um DVD ao vivo no Guairinha.

Confira Rio Negro:


Leia também:

19/05/2014

Não repara a bagunça

Defenestrando na Copa! Acompanharemos de perto algumas das aventuras e desventuras relacionadas ao Mundial em Curitiba. Thaisa Meraki, nossa setorista boleira, foi ao jogo-teste entre Atlético Paranaense e Corinthians, na reabertura da Arena da Baixada.


texto e fotos por Thaisa Meraki

Automóveis se acumulavam nas ruas e ônibus atrasavam enquanto faltava uma hora para o futebol brasileiro acompanhar duas reestréias: de um lado, Atlético Paranaense abrindo ao público as portas da arena quase pronta, há 29 dias de receber jogos pela Copa do Mundo. Do outro, Elias voltava a jogar pelo Corinthians depois de virar ídolo há três anos e meio. Como a chuva diminuía na intensidade contrária do tráfego, decidi abandonar, no engarrafamento, o coletivo que tomei no Centro da cidade. Vinte e três minutos depois meus pés alcançaram as quadras vizinhas do estádio.

Sozinha e corintiana, estava de camisa alvinegra por baixo de dois casacos e um cachecol. Com a costumeira mania de criar labirintos e ruas sem saídas na minha memória, acabei errando o roteiro e passei por todos os torcedores adversários possíveis. Ainda que com o amor escondido por camadas de roupas, o medo andou ao meu lado por quase um minuto, tempo que levei para perceber todo mundo tava é preocupado em conferir como ficou o novo lar.

Revista na entrada da Arena

Com copos nas mãos e barris entre os pés, atleticanos se alinhavam num misto de paciência e lentidão em torno da praça. Quem ainda não tinha cerveja ou outra bebida para misturar com a fina garoa que caía escolhia um dos bares da Avenida Getúlio Vargas para, quem sabe, não deixar a ansiedade tomar conta da paciência. Do lado visitante, dois vendedores de cerveja, água e refrigerante e nenhum cambista. Entrei no recinto. Pelas tabelas ainda, com alguns setores não liberados, grama soltando, excesso de pó, lama e entulho, é verdade, mas bonito, viu. Sem alambrados para jogadores derrubarem ao comemorar gol, nem grades ou grandes distâncias (sete metros separam  torcedores e a zona do agrião), é nessas horas que conseguimos realizar o sonho de completar as quatro linhas, xingando, diretamente no ouvido, a mãe de quem aparecer no gramado e não nos agradar ou exigir esforço de quem a gente admirar.

O primeiro gol foi para o dono da casa, mas não demorou muito pro time paulista igualar o marcador, a menos de dez minutos do primeiro tempo acabar. Tocando a mesma faixa de rock pela enésima vez (com uma acústica tão boa agora, Arena, entre tantos detalhes, vocês carecem de um curador musical), foi no intervalo que decidi não me importar muito com o empate. Primeiro porque era um amistoso, depois por uma questão que quase ninguém aceita: sou do Parque São Jorge, mas nasci e cresci no interior do Paraná. De família pé-vermelha corintiana por parte de mãe, e curitibana coxa-branca por parte de pai, tive de escolher amar um e rivalizar outro. Prevaleceram os nove meses de gestação. Vocês sabem, a gente começa a gostar de futebol antes mesmo de nascer.

Por bagunças no coração, a vida na capital paranaense me fez amar uma linhagem de atleticanos meia década depois daquele crítico cinco a zero que fizeram a gente engolir (há dez anos, em pleno Pacaembu, pelo Brasileirão, e logo depois de sermos eliminados na Copa do Brasil). Do ex-namorado ao avô que adotei (este último foi três vezes campeão pelo time e redesenhou o escudo do clube), passando pela maioria dos meus amigos, todos são rubro-negros que já compartilharam bons momentos comigo na Baixada ou na TV de casa ou do Bar do Toninho, principalmente quando jogavam contra meus rivais paulistas. Mas, naquela noite, ainda que solitariamente acompanhada de centenas de corintianos semi-conhecidos, era a minha tão esperada primeira vez de estar do lado que me cabe neste latifúndio.


Saio dos devaneios e volto pros últimos 45 minutos. Pós-intervalo, os times voltaram diferentes. Miguel Ángel, o nada querido Portugal, tresloucado, trocou todo mundo, com exceção do uruguaio Lucas Olaza, justamente o único a levar cartão no jogo (um amarelo no segundo tempo) e um dos maiores pernas-de-pau que já vi jogar (pior até mesmo que o atual Paulinho do Corinthians). Mano mexeu algumas vezes também, mas deixou Elias matar nossas saudades o tempo todo. Bandeirinhas distribuíram alguns impedimentos que não existiram e o empate persistiu por muito tempo. O Corinthians voltou bem melhor e poderia ter alegrado um pouco mais o bando de loucos que se agrupavam em pais, mães, crianças, amigos e esparsos integrantes das organizadas Fiel e Estopim. Mais da metade da culpa vai pra conta dos desavisados fiéis que insistem em gritar gol antes da hora.

Declaro que perdi eira e beira e debulhei a lagrimejar assim que Renato Augusto fez a rede balançar de novo a menos de dez metros dos meus olhos. Voltei pra casa andando e tentando disfarçar camisa e coração, mas acho que não deu pra tirar meu sorriso do caminho de quem passava com dor nos olhos. Era um amistoso, mas a gente sabe como são as coisas que se tratam com ênfase e emoção.


P.S.: Paulinho (30), do Corinthians, é um cara que preciso ter uma série de acerto de contas, talvez seja saudades do bom Paulinho (8) que veio antes desse. Elias, assim como a Arena, reestreou bem, mas ambos precisam melhorar um pouquinho mais. O time do Atlético Paranaense, incluindo o técnico e poupando Deivid, Weverton e Marcos Guilherme, urge mudanças.

P.S.2: O amistoso era um jogo-teste da FIFA antes da Copa. Da parte dos visitantes, a nova estrutura da Arena da Baixada tá aprovada (enquanto o outro lado sofria com filas e falta de alimentos e bebidas nas lanchonetes). E para quem quer saber: Não, não tinha wifi. E a internet móvel lutava por estabilidade. O radinho de pilha ainda é a melhor companhia para o seu ouvido ou curiosidade em saber a quantas andam os outros jogos do mesmo dia. Vi ônibus especiais destacados para atender torcedores, como se dá quase sempre e em quase todas as cidades. Vi muito mais do que de costume: polícia, bloqueios de ruas e trânsito. Quase não vi: ruas iluminadas e facilidade em chegar ao estádio.

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UPDATE: Poucas horas após a publicação deste post, Miguel Ángel Portugal pediu a demissão do Atlético. Coincidência?????

Atleticanos deixam o estádio cabisbaixos

Leia também:

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- Crônica: Pelos próximos sete anos de esperança (e sorte)
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06/05/2014

This Lonely Crowd - A cura para todos os males

por Felipe Gollnick


Já passava das três da manhã quando o This Lonely Crowd subiu ao palco do Jokers Pub, em Curitiba, como a atração final do Último Volume Stage, realizado no dia 26 de abril. Se, ao longo da noite, a quantidade de público não era das mais expressivas, seriam apenas alguns poucos guerreiros (e/ou: felizardos) que aguentariam até alta madrugada para assistir ao show ensurdecedor de uma das bandas mais inteligentemente barulhentas no momento em Curitiba.

Era uma oportunidade rara. Mesmo sendo altamente prolífico (o This Lonely Crowd lança discos inéditos e caprichados em uma frequência que surpreende), o grupo faz apenas um ou dois shows por ano. Portanto, cada apresentação do quinteto parece ter o valor de encontrar um ovo de páscoa bem escondido quando você ainda era criança, mas a ocasião do Último Volume Stage parecia ainda mais especial do que os outros shows já escassos: tratava-se praticamente de um evento não-oficial de lançamento de Möbius and the Healing Process, o mais recente álbum do grupo, lançado pelo selo digital Sinewave poucos dias antes.

Möbius and the Healing Process é uma pedrada e chama a atenção em vários sentidos. Vamos enumera-los:

1) CONCEITO – os discos do This Lonely Crowd são sempre concebidos dentro de conceitos ou contextos determinados e até bastante complexos (como o Some Kind of Pareidolia, de 2011, cujas músicas versam sobre a possibilidade de que as coisas que vemos podem não ser exatamente o que imaginamos). Cada álbum é uma história contada. Ávidos por fábulas e contos de fadas, seus integrantes carregam tramas encantadas para universos musicais muitas vezes sombrios; entre um álbum e outro, os nomes fictícios dos músicos nos créditos são alterados, do que se pode depreender que eles entendem a si próprios como personagens que fazem parte das histórias que eles contam. Daí é que chegamos a Möbius and the Healing Process – um disco cuja linha narrativa parte da ideia da fita de Möbius, a faixa que retorcida, permitiria que uma formiga que nela caminhasse sempre para a frente percorresse seus dois lados e voltasse ao ponto de partida. Para o This Lonely Crowd, percorrer a fita significou enfrentar por um difícil processo de recuperação: um dos integrantes perdeu o irmão; outro passou por uma quimioterapia (leia mais na entrevista abaixo), e o que tudo isso impactou nos músicos está muito presente no disco.

2) FORMA – se percorrer a fita de Möbius em linha reta te faz passar pelos dois lados (que, na verdade, são um lado só) antes de voltar ao ponto de partida, Möbius and the Healing Process segue essa lógica: um disco que começa em um riff, dá a volta em um universo inteiro e volta ao mesmo riff. E, se a fita é contínua e ininterrupta, o álbum também o é: trata-se, na verdade, de uma grande faixa encadeada. Para download, a banda disponibilizou dois arquivos diferentes: um "normal", com onze músicas;  o outro, "full", contendo uma única faixa com cinquenta minutos e vinte segundos de duração. Dentro dessa grande canção, cada submúsica parece surgir como um dos onze capítulos do livro contado.

3) VARIEDADE – amadurecendo como um conjunto, o This Lonely Crowd perde o receio e atira em várias direções diferentes: The Greatest Possible Solitude é um metal instrumental, assim como Gentle; logo na sequência, Feeding já acena a algo como um dream pop; lá na frente, Forlorn Hope abraça o noise; e por aí vai.  

Teeth no III Sinewave Festival - jan/2011 - foto: Felipe Gollnick

Após elucubrações, resolvemos entrevistar a banda e perguntar sobre suas particularidades aos integrantes. Abaixo, seus pseudônimos e suas respostas:

O This Lonely Crowd faz poucos shows. Isso é espontâneo ou deliberado? 
Teeth: É deliberado. Primeiro, porque dá muito trabalho preparar o show ao vivo, ensaiar bastante e tudo o mais. Segundo, porque, se tocarmos mais do que duas ou três vezes por ano, vamos esgotar o nosso público potencial. Já é muito difícil juntar gente desse nicho para assistir um show nosso, ou mesmo no Sinewave Festival. Imagine se a gente tocasse direto... Então sempre focamos mais em preparar o show em função de algum nossos lançamentos, e tentando ter um começo-meio-e-fim. Quanto mais raro, mais especial será.
Cyrus: Para mim, é mais um problema de distribuição mesmo. Pouco público, pouco tempo para a gente estudar um show legal e único, poucos lugares legais para tocar. Eu acredito que esse tipo de som que a gente faz não se comporta em qualquer barzinho, tanto pelo espaço físico quanto pela possibilidade de estragar, com barulho, a noite do cidadão que foi ao bar apenas para tomar uma cerveja e bater papo.

Se, de um lado, vocês fazem poucos shows, do outro vocês lançam discos em uma frequência maior do que muitas bandas independentes. A que se deve isso?
Teeth: Preparar um show requer algumas semanas ensaiando a uma frequência de uma ou duas vezes por semana, que é o que costumamos fazer. Gravar é bem mais fácil: vamos juntando idéias, riffs e tudo o mais, e, na primeira sobra de tempo, mandamos ver. Temos gigas e mais gigas de material não utilizado, takes alternativos e sobras. Gravar nos inspira demais e cada lançamento é como escrever um livro (ou reescrevê-lo). Ainda, se estivermos falando da obra como um todo, é como escrever um novo capítulo. E tem a questão do tema, que é o que nos move...

Qual é o conceito por trás de Möbius and the Healing Process?
Teeth: Bolamos o conceito no meio do ano passado (2013). Tínhamos pensado em fazer um disco sobre a fita de Möbius, que é uma fita que, se você caminhar por sobre a superfície dela, verá que ela possui apenas um lado. Queríamos aplicar esse conceito a algo abstrato, como a saudade, por exemplo. Então, ao longo de 2013, passamos por momentos muito difíceis. O King Trushbeard perdeu o irmão e isso foi um golpe muito duro; semanas depois, a White Queen ficou doente e precisou fazer um tratamento que durou o segundo semestre inteiro. Ela tocou em outubro no VIII Sinewave Festival com os braços machucados da quimioterapia. No Natal, já estava tudo concluído, e hoje ela está curada. É simples falar agora, mas todo esse processo nos fez aperfeiçoar o tema do disco e colocar a cura – do corpo e da alma  através dessa fita. Em cima disso, para ser a letra do disco, escrevemos uma fábula, um conto de fadas, o que é uma coisa só. É um disco de extremos, de fúria e esperança, dor e conforto, e foi o que nos acalmou.
White Queen: E o principal: a gente passeia por todos os estilos que nos inspiram. Tem as guitarras cheias de eco/reverb, tem heavy metal, mudanças de andamento. Os elementos que usamos nos outros discos voltam, mas dessa vez foi mais fácil escolher e mais fácil ainda empurra-los para o extremo. Isso é legal, um disco quase instrumental que lá no meio tem um oásis pop e depois retorna "triunfante", para acabar do mesmo jeito que começou. Como se você estivesse embarcando sobre a fita.
Cyrus: Escute Locked-inn e depois Sleppers Among Petals e você vai sentir o tipo de variação. Tem muito redibenzi.

Como perceberam que conseguiriam juntar todas as músicas de um álbum inteiro e transformá-la em uma única faixa? E como foi a logística (tanto na composição quanto na gravação) para chegar a isso?
Teeth: Desde o começo, queríamos fazer uma faixa só, para dificultar a audição, já que todo mundo costuma fazer os downloads dos MP3, escuta-los e depois descarta-los. Assim, dá para colocar algum desafio para quem tiver paciência e interesse. Fazer o disco como uma faixa só tem a ver com a montanha russa de emoções que queríamos evocar. A logística foi simples: compusemos várias faixas, modificamos arranjos de uma original para ter outras diferentes, e fomos montando a coisa ao longo dos meses, tentando seguir alguma coerência na ordem. De outubro até março, mexemos em várias coisas, na ordem, nos arranjos. Chegamos a trocar vários minutos porque as partes não estavam casando. Descartamos faixas inteiras porque não pareciam ter intensidade dentro do todo. Muita coisa se repete ao longo do disco, mas com uma pegada totalmente diferente. Deu bastante trabalho, mas foi muito legal de fazer!
Cyrus: No final, queríamos que quem estivesse escutando o disco inteiro tivesse uma recompensa pelo empenho em ouvir tudo. A gente queria que fosse um álbum difícil, tipo aquele jogo, Dark Souls. O disco começa furioso e vai se acalmando sem perder a intensidade. No finalzinho, a historinha se conclui e fica pronta para começar de novo.
White Queen: O King Trushbeard produziu tudo dessa vez. Como ele tem muita experiência com isso, o som está muito mais tridimensional do que os outros discos. Está mais Raw Power e era essa a ideia, uma força desgovernada atropelando tudo pela frente, jogando o ouvinte para cima e para baixo.
King Trushbeard: Tenho muito orgulho desse disco!
Buba: Temos muito orgulho do This Lonely Crowd...

Achei curioso o fato de que os nomes dos integrantes da banda mudaram de um disco para o outro. Dá a entender que vocês se vêem como personagens da história, talvez até atores da trama contada. Quanto temos de verdade e de ficção nas músicas novas?
Teeth: Vamos ficar mudando de nome sempre que for necessário na mitologia da nossa música. Se é que isso existe...
White Queen: Temos muito dos dois. Um imita o outro!

Em muitas situações, podemos dizer, da vida, que voltar ao ponto de partida não é necessariamente uma coisa boa. No entanto, ao que o disco dá a entender, voltar ao ponto de partida pode ser exatamente o contrário: um processo de cura de algo doloroso e que nos leva a ser de volta o que éramos antes. Parece que sempre queremos seguir em frente em nossas vidas, mas como perceber que voltar ao mesmo ponto pode ser positivo?
Teeth: A questão nem é tanto voltar ao mesmo ponto, mas "começar de novo". Nós recomeçamos as coisas o tempo inteiro porque, já dizia o Clive Barker em uma frase magistral do romance Weaveworld: nada jamais começa. Cada vez que se faz a volta inteira nessa fita de Möbius, fica-se mais experiente. Então, voltar ao mesmo ponto será positivo se você tiver aprendido alguma coisa na volta passada. E se tiver paciência de refazê-la, estará mais preparado para as surpresas que virão, boas ou ruins.
White Queen: Voltar para o começo faz parte da sobrevivência.

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Veja também:

21/04/2014

Fala comigo, Charme Chulo!

por Felipe Gollnick

Cido Marques/FCC

Já são bem uns cinco anos desde que o Charme Chulo lançou Nova Onda Caipira. Desde então, a banda curitibana que pegou muita gente de surpresa em meados da década passada ao apostar em uma mistura de rock garageiro com raízes caipiras não soltou mais nenhum álbum inteiro – coisas da vida difícil de banda independente. Em tempos mais recentes, o quarteto andava meio sumido, mas o grupo de Igor Filus e Leandro Delmonico voltou a dar as caras nas últimas semanas, com um show no Wonka e a abertura de um projeto de financiamento coletivo no Catarse.

O Charme Chulo anunciou que vem aí, finalmente, um novo disco (duplo!): Crucificados pelo Sistema Bruto já possui um total de 20 músicas finalizadas e pré-produzidas. Falta só... gravá-las. Isso, no entanto, custa bastante dinheiro. Eles estão pedindo a sua contribuição financeira para que o novo álbum se torne realidade. O esquema é aquele: dependendo da quantia que você doa, uma recompensa é oferecida de volta para você depois que o projeto é concluído. Confira todas as informações na página oficial do projeto.

[UPDATE: o projeto foi encerrado, e o Charme Chulo não só conquistou seu objetivo, mas arrecadou até mais do que a quantia necessária]

Aproveitamos a ocasião para dar uma breve mergulhada na discografia da banda. Acompanhe:


Você Sabe Muito Bem Onde Eu Estou (2004)

Um EP com seis faixas que mostrava uma banda ainda muito crua, mas com grande potencial para evoluir em sua estética inovadora: era como se os Smiths, ainda muito moleques e antes de estourar, viessem dar um passeio pelas estradas do interior do Paraná. Descalços. É possível ouvir quatro das seis músicas na conta oficial da banda no YouTube – destaque para Ai de você, José (que soa meio britânico anos 80, mas que tem esse título brasileiríssimo) e O que é que foi, piá?.


"Charme Chulo" (2007)

"Eu acho que a banda começou, fechadinha, nesse disco", disse Delmonico em 2006 em uma entrevista para o Scream & Yell. Há uma evolução significativa do EP para o álbum homônimo, e o grande ponto parece ser o fato de que a viola caipira ganha um poder bem maior por aqui – basta conferir Polaca Azeda, talvez a melhor do disco, principalmente por revelar ao mundo, de forma meio magistral, que uma viola caipira pode perfeitamente ser um instrumento de rock (e que você não precisa necessariamente de uma guitarra para ser roqueiro). Você Sabe Muito Bem Onde Eu Estou leva o Charme Chulo, ao mesmo tempo, para um passeio ainda mais distante nas paragens britânicas e ainda mais para dentro dos campos de café no interior do Paraná. E ainda há a grande Mazzaropi Incriminado, um clássico imediato do rock curitibano. 

P.S: O Miojo Indie cravou este como o 15º melhor disco nacional dos anos 2000.


Nova Onda Caipira (2009)

Como há sempre algum lugar mais alto para alcançar, Nova Onda Caipira apresenta um Charme Chulo ainda mais consistente, mais rock e mais caipira. A viola ganha mais espaço, projetando-se para o alto, direto para os seus ouvidos, e o resultado é que o quarteto agora soa um pouco menos influenciado pelo rock britânico, deixando o lado brasileiro em maior evidência. Um susto delicioso te pega já de cara em Moda do Acerto, a faixa de abertura do disco que é um bonito sertanejo de raíz contando a história de um caipira ingênuo assaltado na cidade. Fala Comigo Barnabé é empolgante, com a viola disparando riffs (!!) direto nas suas costelas e te obrigando a dançar; e há também os vocais explosivos de Igor Filus, tornando a coisa um pouco mais dramática. Simples e divertida, a faixa-título é uma das melhores do disco; e a espirituosa Radio AM também merece sua atenção.

Você pode baixar tanto os discos Charme Chulo e Nova Onda Caipira gratuitamente no site oficial do Charme Chulo.


Coisas Desesperadoras do Rock 'n' Roll (2013)

Para onde vai o Charme Chulo agora, depois de todo esse tempo? No início de 2013, a banda soltou o clipe da inédita Coisas Desesperadoras do Rock 'n' Roll, anunciada como a primeira música a ser divulgada do novo disco. A julgar pela estética do vídeo e pelo solinho de guitarra, a banda abre um sorriso e dá uma leve abraçada no glam rock (indicando uma possível mudança de ares?), mas a vibe pé-vermelho continua firme por aqui.

Na verdade, essa é apenas uma das vinte músicas do novo trabalho – isso se ela realmente estiver em Crucificados Pelo Sistema Bruto. Só teremos como saber no que dará o próximo disco do Charme Chulo se ele realmente for lançado. Por isso, a banda precisa da sua ajuda lá no Catarse. Confere lá.