18/04/2013

Metá Metá (e Deus, Orun, Jesus, Tempo, Espaço) em Curitiba

"Tudo isso aconteceu, mais ou menos", diria um escritor consagrado.

Dentre as duzentas e tantas pessoas que lotaram o Teatro Paiol para conferir o Metá Metá em seu aclamado Metal Metal, nem todas repararam num convidado especial inserido na plateia. Foi naquela escadaria estreita próxima às cadeiras que encontrei Jesus de Nazaré, calça cáqui de algodão e jaqueta de couro sintético, barba por fazer e cabelo puxado à Brad Pitt em Troia, preso a um toque de gel espirrado. O que você tá fazendo por aqui, poxa? Não te vejo há eras!, exclamei assustado. Vim ver qual é a desse Metá Metá!, respondeu sorridente, com a simpatia que tanto lhe é natural.

- Mas e aqueles lances de Tambor de Mina, de cantar pra Oxum?, perguntei.
- Como assim?, questionou curioso e, mais uma vez, com natural educação.
- Você não... vê problema?

Jesus riu carinhosamente e se apressou.

- Olha, já vai começar, melhor sentar logo.

Como andasse por sobre pessoas, sumiu. E eu, como obedecesse quem consegue ressuscitar, tratei de sentar.


Após a introdução, qualquer um no Paiol sentiu que raramente se conquista uma plateia com tamanha facilidade. 'Exu', entrada de Metal Metal, ganhou força enorme executada ao vivo, principalmente em local pequeno e fechado. Na performance, a voz de Juçara Marçal recebe sintetização desconfortável, o saxofone de Thiago França soa como genocídio e a guitarra de Kiko Dinucci parece preocupada em te desestabilizar. Unidos, contudo, esses três elementos criaram um cenário inteiro, próprio do transe, e logo o público se viu na mão da banda - ainda incompleta, pois baixo e bateria não haviam subido ao palco - como um animal indefeso.

A cozinha se juntou ao trio para aumentar o ritmo da brincadeira, fazendo a plateia balbuciar admiração, ainda um pouco assustada. Se o baixo veio para segurar o tempo, Dinucci mostrou que tira suco de pedra com seus pedais, enquanto a voz de Juçara, forçada, esticada, empurrada, gritada, saía absolutamente intocável, com uma maciez agressiva que te faz sentir idiota por definí-la como "maciez agressiva" em busca de uma definição razoável que não soe tão fanboy. O saxofone, que espetáculo à parte!, me fez olhar para Jesus, localizado à minha direita, a todo momento, praticamente agradecendo (humilde, respondia com olhar de "por que você tá olhando pra mim com essa cara? Não é mérito meu").

Logo em 'Oya', já pensava que puta que pariu, são os doze-e-cinquenta mais bem gastos da minha vida, e certamente não era o único. O Metal Metal inteiro foi tocado com caprichos, ataques e fervores atingidos apenas por grupos demasiado conscientes de seus objetivos; entrosados, talentosos, ousados, dignos de vários adjetivos seguidos de chupação descarada. É impossível, não só humana quanto celestialmente, que alguém tenha saído insatisfeito do Paiol. Uma apresentação que transfigura qualquer ideia de gênero ou credo - queria que meus pais estivessem lá; que meus avôs e avós, os mortos e os vivos, estivessem lá.

Dentre duzentas e tantas pessoas, quantos conceitos de Deus e Tempo e Espaço deve haver?, uns duzentos, suponho, um pouco pra mais, um pouco pra menos, mas uns duzentos. Deus pode ser um, ou vários, ou tudo, ou o Tempo e o Espaço; ou Tempo e Espaço são Deus, etc.

Fato é que, entre as duzentas pessoas e duzeitos conceitos, deve haver unanimidade no contato artístico com o que nos é sagrado, desconhecido, inexplorado, hiperdimensional, e, portanto, inefável. Eu vi Deus durante 'Man Feriman', estou certo disso, ou senti Deus, ou Tempo e Espaço foram quebrados, ou sei lá, tanto faz, mas algo disso aconteceu. Jesus, tremendo de ansiedade durante 'Logun', também. Valeu a viagem, disse ele por pensamento, ou apenas juro ter ouvido, e no fim das contas que diferença faz.

No fim das contas a diferença é ter visto Metá Metá, entrado em catarse rara e ignorado Tempo, Espaço e Deus graças à subversão de tudo isso. Como andasse por sobre ideias, Jesus sumiu de novo, dessa vez sem parar pra sentar, ciente de me deixar ciente de ter aprendido algo. Antes de desaparecer, sussurrou que se o presente já morreu, um segundo atrás, quem matou fui eu; se o presente renasceu, um segundo à frente, quem gerou fui; palavras de Ifá ou não, direto do Orun ou não. "Mas não é mérito meu".

11/04/2013

O dia em que conhecemos Marcelo Camelo (sem querer)

O Defenestrando é bom de ressaca, mesmo quando não bebe. Após a celebração de lançamento da nossa edição no Jornal Relevo, ainda não pegamos o ritmo da temporada, seguindo naquela época de férias em que seu time contrata o Fábio Baiano e acha que agora vai. Lembramos, porém, dessa boa história vivida por dois terços da cúpula defenestrada, embora tenha passado em branco por aqui.

***

Vinte e sete de outubro de dois mil e doze, tarde ensolarada em Curitiba. Meia dúzia de amigos fomos ao Canal da Música para tomar cervejas recém-compradas, porque, afinal, a temperatura era alta. Chegando lá, ou melhor, a alguns metros de lá, na escadaria larga que se faz notar em frente ao local, um de nós, o André, a quem a meia dúzia não atribuímos (parei, prometo) nome fictício para não poupar sua identidade, decidiu conferir se a feira do vinil ainda estava em atividade no saguão.

Então, não tem mais feira do vinil, mas o Marcelo Camelo tá lá na frente, e certamente essa frase inteira nunca havia sido proferida na língua portuguesa, muito menos em Curitiba, muito menos numa tarde ensolarada, mas de fato ele estava lá, fazendo aparentemente nada muito distante de nada. Aí o que seria mera casualidade contou com a causalidade Camelo.

Aproximamo-nos e, Po, prazer, Marcelo, o que você tá fazendo aqui?, e estava acompanhando a Mallu Magalhães, o que será revelado na próxima sentença. Vim acompanhar minha mulher, ela vai tocar aqui hoje, respondeu tranquilo, suando um pouco no pescoço, camisa dois botões aberta, inclinado na traseira de um carro - ele é alto pra cacete, ou mais do que esperávamos, ou vai ver no Rio todo o mundo tem mais que um e oitenta e cinco.

Oferecida uma cerveja - Marcelo aceitou, e num universo paralelo todos pensamos "o Marcelo Camelo tá tomando minha cerveja *-*" (argh, perdão) - começamos a conversar. Entre nós seis, havia quem idolatrasse, quem desprezasse e quem não se importasse com Los Hermanos e/ou sua carreira solo, mas ninguém falou sobre música. Nada contra conversar sobre música com um dos sujeitos mais influentes do nosso cenário popular, porém é de se calcular que algumas pessoas já o fazem apaixonadamente, "minha filha se chama Aline"; "casei ao som de Fez-se Mar"; "no carnaval só canto Pierrot"; "deixei de me matar por causa d'O Vencedor"; "fui preso pra pegar Condicional", etc.

E entre fãs, implicantes e indiferentes, a verdade é que todos gostamos de Marcelo Camelo. Sereníssimo, conversou sobre todo assunto que surgia, simpático e risonho. O papo durou uns trinta minutos, interrompido para uma foto proveniente de um script invertido. Pois se certamente pediríamos (e pedimos) foto com Marcelo Camelo, antes disso Marcelo Camelo pediu para tirar uma foto nossa (ou "o Marcelo Camelo pediu uma foto nossa *-*"), com sua câmera antiga de quase um século atrás (piada pronta, pois é). E olha, por essa publicação no Flickr, nada nos impede de dizer que temos piadas internas com o Marcelo Camelo (*-*) para contar vantagem.

Antes de se despedir, Desculpem, realmente preciso ir, muito prazer e obrigado pela conversa, Marcelo ainda escreveu um bilhete de provocação a nosso amigo Daniel Babalin, quem estávamos esperando chegar de São Paulo. No papel, escreveu, para não dizer compôs, "chega logo, seu teta". Tarde ensolarada, viu.

24/03/2013

Os quatro maiores conflitos de horário do Lollapalooza BR 2013


Então o Lollapallooza Brasil chega aí para mais uma edição. Se em 2012 foram apenas dois dias de evento e muita gente encarou o festival como "aquele que teve o show do Foo Fighters", agora a coisa é bem diferente. Com três dias de música e uma escalação caprichada, o Lolla BR 2013 agora não fica muito atrás desses tantos festivais que vemos espalhados pelos Estados Unidos e Europa durante o verão do hemisfério Norte – talvez a diferença principal ainda seja o preço abusivo dos ingressos.

Ponto flagrante da abundância de boas atrações, há, espalhados pelas três datas do evento, diversos conflitos de horário que podem deixar fãs da música legal sem saber o que fazer, presos naquela indecisão complicada. Como lidar com a dor no coração de ter que escolher uma entre duas bandas sensacionais que estarão ali, quase no mesmo lugar?

Selecionamos os quatro conflitos de horário mais desesperadores da programação do Lollapalooza Brasil 2013 e escrevemos uma ou outra coisa sobre os artistas envolvidos neles. Assim, quem sabe, poderemos dar uma forcinha para quem está indo ao festival mas ainda não sabe o que escolher. Ou podemos piorar a situação ainda mais. Nesse caso, azar. Vamos lá:


Cake (17h15 - 18h30, Butantã) vs Crystal Castles (17h15 - 18h15, Alternativo) - 29/03

O Cake está na estrada há mais de vinte anos e é certeza de rock descontraído: não há como não começar a remexer espontaneamente quando soa o trompete de Vince DiFiore, a guitarra de Xan McCurdy ou a debochada voz de John McCrea. Já o conceituado duo Crystal Castles lançou em 2012 um álbum que foi bem recebido pela crítica. Sua mistura de eletrônico experimental com quase dream pop deve garantir um show mais etéreo. Seria uma ótima atração para os palcos do Sónar São Paulo (RIP).


Franz Ferdinand (17h30 - 18h45, Butantã) vs Alabama Shakes (17h30 - 18h30, Alternativo) - 30/03

Aqui está talvez o mais complicado dilema do festival. O Franz Ferdinand é uma das maiores e melhores bandas de rock da década passada e traz na bagagem três álbuns com inúmeros petardos capazes de fazer pularem o piá e o tiozão. O grupo escocês tem virado figurinha constante no Brasil, e o show que Alex Kapranos e cia. fizeram em 2012 no Cultura Inglesa Festival, também em São Paulo, foi muito burocrático. Já o ainda novato Alabama Shakes surge como saudável novidade e desembarca no país de carona com a repercussão do elogiadíssimo álbum Boys & Girls e da deliciosa faixa Hold On. Oportunidade única de ver a ao vivo a grande voz da cantora Brittany Howard. Tem tudo para ser um dos melhores shows do festival.


Queens Of The Stone Age (18h45 - 20h, Cidade Jardim) vs Nas (18h30 - 19h30, Perry) - 30/03

O Queens Of The Stone Age esteve no Brasil recentemente (em 2010, no SWU, lembra?), e chega ao Lollapalooza BR 2013 ao mesmo tempo em que finaliza um novo álbum de estúdio. Poderemos ter um show incrível, ou poderemos ter um show ok – tudo irá depender do um humor e da vontade do marrento-e-foda Josh Homme. Ao mesmo tempo, no palco que leva o nome de Perry Farrell (vocalista do Jane's Addiction e mentor do festival), quem se apresenta é o veterano rapper Nas, um dos mais importantes MCs desse mundão. Ele vem ao país divulgando seu ótimo e arejado disco Life Is Good, lançado no ano passado.


Planet Hemp (19h15 - 20h45, Butantã) vs Hot Chip (19h15 - 20h30, Alternativo) vs Major Lazer (19h45 - 21h, Perry) - 31/03

Empate triplo no último dia do Lollapalooza. O Planet Hemp chega com a responsabilidade de ser o único nome brasileiro entre as atrações principais do festival e faz o último show da badalada turnê de reunião que rolou durante o ano passado. Na mesma hora sobe ao palco alternativo a esperta banda britânica Hot Chip, que chegou a se apresentar em Curitiba no Tim Festival 2007 (lembra?). Para fechar a conta, meia hora mais tarde é a vez do Major Lazer, frenético projeto paralelo do incansável Diplo – aquele cara responsável por levar o Bonde do Rolê daqui para o mundo.


Outros conflitos de horário que merecem alguma atenção:

29/03
Holger (13h15 - 14h15, Butantã) vs Boss In Drama (13h15 - 15h15, Perry)
Of Monsters And Men (15h15 -16h15, Butantã) vs Copacabana Club (15h15 -16h15, Alternativo)
Deadmau5 (20h - 21h30, Butantã) vs Passion Pit (20h - 21h15, Alternativo)
30/03
Tomahawk (15h30 - 16h30, Butantã) vs Gary Clark Jr (15h30 - 16h30, Alternativo)
31/03
Vivendo do Ócio (13h15 - 14h15, Butantã) vs Wannabe Jalva (13h15 - 14h15, Alternativo)
Foals (15h15 - 16h15, Butantã) vs Mix Hell (15h15 - 16h30, Perry)

E, claro, ainda há os nomes incontestáveis e/ou que não vão disputar horário assim, a sério, como Flaming Lips, The Killers, Two Door Cinema Club, The Black Keys, Kaiser Chiefs, The Hives e Pearl Jam. Clique aqui para conferir a programação completa.


E aí? Tá indo pro Lollapalooza? Já montou sua programação? Tá em algum desses impasses ou até em outro que não foi mencionado aqui? Joga nos comentários aí em baixo. Vamos conversar, trocar uma ideia.

04/03/2013

Cena Independente #14 - fevereiro

Fevereiro se vai, e com isso recebemos a nova Coletânea Cena Independente, projeto que mensalmente reúne blogs de várias regiões do país para apontar o que há de novo e relevante rolando na música independente país afora. Inspirada no Music Alliance Pact, a coletânea é capitaneada pelo blog FUGA Underground e publicada sempre no último dia de cada mês.

O projeto tem um domínio próprio: clique aqui para conhecer.

Em fevereiro, a arte da capa é assinada por Dave Shinobi.


Desta vez indicamos a música Perigo Púrpura, da banda Cacique Revenge, de Curitiba.

Curtiu a ideia da Coletânea Cena Independente? Tem um blog de algum dos estados que não estão na lista e quer entrar nessa pira? Mande e-mail para a Clara, do FUGA Underground, em mixtape.cenaindependente[arroba]gmail.com ou para a gente em defenestrandoblog[arroba]gmail.com

Clique aqui para baixar a coletânea (o download iniciará automaticamente). Para ouvir via streaming no 8track, clique aqui ou vá ao final do post.

A seguir você encontra alguns detalhes de cada faixa da coletânea #14:

GOIÁS: Alice Ilícita
Shotgun Wives – Draw
folk
Com influências das raízes do folk como Bob Dylan, Johnny Cash, Tom Waits, Woody Guthrie entre outros, mas também com fortíssimas influências de bandas como Modest Mouse, Mimicking Birds, Velvet Underground a banda goiana Shotgun Wives lançou em janeiro de 2013 seu primeiro EP intitulado Hail To The Lizard King, EP que conta com 5 músicas: Dirty Money, Left Hand, Draw e Safe Kids. Ouçam a seguir Draw o primeiro single da banda. E prestem bem atenção porque o som dos caras é doidimais fi!!!
Para quem gosta de: Johnny Cash, Bob Dylan, Mumford and Sons
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PERNAMBUCO: AltNewspapper 
Luiz Pessoa – Chaos Magic Disco 
rock/instrumental/experimental
Luiz Pessoa é um daqueles músicos matemáticos, fez parte de diversas bandas e produções voltadas para trilhas locais, tanto em curta quanto longa metragens. Tem um disco duplo com composições próprias lançado em 2009 e fez ou faz parte de algumas bandas instrumentais da cena recifense (monodecks e Sãomer Zwadomit, para citar algumas). Na faixa Chaos Magic Disco, ele mostra toda psicodelia contida em seu ser, digna de outros tempos da música mundial recheada de alucinógenos e muitas cores, mas feita em tempos de equipamentos digitais.
Para quem gosta de: Monodecks, Pink Floyd, drogadinha
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PARANÁ: Defenestrando
Cacique Revenge – Perigo Púrpura
funk/psicodelia
Novíssimo e promissor nome de uma nova safra de bandas que se estabelece em Curitiba, o Cacique Revenge é liderado por Cassiano Fagundes, veterano que se notabilizou ao passar por bandas como Bad Folks e Cassim & Barbária. Prestes a lançar o disco de estreia (“na verdade será um álbum magazine, com uma revista junto”, explica Cassiano) Perigo Púrpura é uma das primeiras composições do grupo a cair nas mãos do público. Instrumental e psicodélica, a faixa é uma viagem espacial funk lisérgica.
Para quem gosta de: James Brown e Guizado
Mais de Cacique Revenge no Soundcloud

RIO GRANDE DO NORTE: FUGA Underground
Clara e a Noite – Fotos Coloridas
piano blues
Clara e a Noite chegou ao seu segundo EP abrindo mão de vez das guitarras e baseando seu som inteiramente no piano. Criada como uma forma de Clara Pinheiro escoar suas composições para além do samba-rock da Orquestra Boca Seca, a banda tem como principais referências o blues e o piano rock dos anos 50 de caras comoLittle Richard e Jerry Lee Lewis, além de um vocal marcado por uma forte influência do soul. Entre faixas novas e outras já conhecidas de quem acompanha a banda na noite natalense, Amor da Outra representou um passo a frente na qualidade musical da banda. Fotos Coloridas é a faixa que abre o EP.
Para quem gosta de: Simona Talma
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SÃO PAULO: Move That Jukebox
Seychelles – Ghosts Are Gone
indie/acoustic/rock
E lá se vai uma década de estrada na conta dos paulistanos do Seychelles. Para comemorar, o quarteto recrutou participações especiais e disponibilizou seu terceiro disco, com 14 inéditas, para streaming e download gratuito. E se a cerne do grupo sempre foi baseada em guitarras roqueiras e riffs de fácil assimilação, um dos destaques de Seychelles 3 é a surpreendente Ghosts Are Gone, uma maravilhosa balada acústica, com cara de trilha sonora e cuja autoria é dividida com a cantora Monique Maion. Pra ouvir de olhos fechados.
Para quem gosta de: Rosie & Me, Autoramas, Cascadura
Mais de Seychelles no Soundcloud

BAHIA: El Cabong
André Mendes - A Cidade Que Eu Digo Não
pop rock
André Mendes já teve um rápido momento de fama nacional no pop nacional com a banda Maria Bacana nos anos 90. Anos depois ele retomou uma carreira solo, focada em canções menos roqueiras. Depois de um disco em 2010, ele lançou outro na parte final de 2012, Enfim Terra Firme, um trabalho ainda bem mais acabado e definitivo que o anterior. Nele, músicas novas e antigas definem o espaço musical de André na música local, com composições pop bem construídas, ensolaradas, com violões e guitarras se revezando, e a velha capacidade de produzir belas canções carregadas de sentimento.
Para quem gosta de: Legião Urbana
Mais de André Mendes no site oficial

RIO DE JANEIRO: RockInPress
Posada e o Clã – Retalhos 
regional/alternativo
Carlos Posada não aparenta ter a idade que tem. Caminha na rua com semblante sempre sério. Segura o microfone como um rapper pronto para soltar suas verdades. Sua cabeça parece borbulhar ideias, criando letras confessionais que exploram literatura e o sertão, mesmo tendo nascido na Suécia. Sua banda, Posada e o Clã, mistura essas influencias ao ar pesado que a voz de Carlos carrega, resultando assim num potente conjunto sonoro pronto para lançar seu primeiro álbum, ainda neste semestre.
Para quem gosta de: Lenine, Nação Zumbi, Alceu Valença
Mais de Posada e o Clã no site oficial
 
RIO GRANDE DO SUL: Ignes Elevanium
Apanhador Só – Paraquedas
indie/rock alternativo com ritmos brasileiros
Em 2010 o Apanhador Só destacou-se em listas de melhores daquele ano em muitos blogs especializados, mergulhando-se entre os febris lançamentos de Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Mombojó, Karina Buhr, Labirinto e até sua conterrânea Superguidis (R.I.P.). Após um registro acústico e de certa forma experimental (Acústico-Sucateiro, 2011), seus últimos lançamentos ocorreram em 2012: o compacto Paraquedas que com duas faixas dão uma palhinha do que será o segundo disco de estúdio da banda, e o clipe de Nescafé.
Para quem gosta de: Los Hermanos, Ecos Falsos, Bazar Pamplona
Mais de Apanhador Só no site oficial

MINAS GERAIS: Meio Desligado
Quase Coadjuvante – Ritalina
indie rock/lo-fi
O instrumental excepcional de Ritalina, uma das faixas mais pesadas do CD Cartas Para a Próxima Estação, serve como introdução ao trabalho da banda belo-horizontina Quase Coadjuvante. Nela, estão presentes alguns dos principais elementos recorrentes da banda, como as boas letras, as influências indie/noise e um clima noventista despertado em quem era jovem demais para ter aproveitado aquela década, ressaltando ainda mais a melancolia e a sensação de deslocamento transmitida nas letras.
Para quem gosta de: Violins e Jair Naves
Mais de Quase Coadjuvante no site oficial

ALAGOAS: Sirva-se
TICK – Watchman Of Square
grunge/rock alternativo
Suja, gritada e simples, assim é música da TICK, banda alagoana da cidade de Arapiraca. O clima sombrio de algumas canções faz disso uma característica forte no som dos caras, grunge garageiro que mostra sem medo a influência de bandas como Nirvana. Atualmente como um power trio a TICK  acabou de lançar um demo-clipe da música Watchman Of Square que é a nossa indicação da vez pra coletânea. A formação atual da banda está cada vez mais se encontrando e já mostra estar no caminho certo e cada vez mais encarando com seriedade a produção autoral. Vamo acompanhar pra ver no que dá.
Para quem gosta de: Nirvana, Mechanics, Sonic Youth
Mais de TICK no TNB

MARANHÃO: Shock Review
Gallo Azhuu – Praia
rock ‘n’ roll
A Gallo Azhuu acaba de lançar seu primeiro disco (Gallo Azhuu, 2012), cujas 10 faixas estão disponíveis para audição e download gratuito no site www.galloazhuu.com. A banda maranhense já conta em seu currículo com participações em festivais por todo o Brasil - Grito Rock Atibaia e Bragança Paulista (SP), Olinda (PE), Festival Martelada (DF), Rock Cordel Teresina (PI). Formada por Pataugaza (guitarra e vocal), Moaci Junior (Guitarra), André Grolli (baixo) e Denis Carlos (bateria), a banda faz um rock’n’roll influenciado por blues e rock clássico setentista, com letras sobre sexo (Amor, Praia, Um Filho em Você), psicodelia (O Homem-Árvore, Platypus) e o sobrenatural (Espingarda, Mansão dos Mortos).
Para quem gosta de: Black Sabbath, Grand Funk, blues
Mais de Gallo Azhuu no site oficial

CEARÁ: Implosão Sonora
Verónica Decide Morrer - Aqui Jazz Você
rock
Verónica Decide Morrer, que tem “como estilo o rock’n roll e como seguimento o rhythm&blues”, surgiu em meados de 2010 é uma das bandas mais ousadas do Ceará atualmente. Formada por Jomar Carramanhos (Verónica Valenttino), Jonas Sampaio, Dario Oliveira, Léo Breedlove e Bruno Carvalho, Verónica mistura música e performance teatral, trazendo um som que faz com que a gente queira dançar a noite toda.
Para quem gosta de: Rolling Stones, rock cru, performance
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MATO GROSSO: Factóide
1000 Kicks On The Cocks – 4.20
rock instrumental
Choque de titãs surgido nas "férias" de fim de ano em Cuiabá, Bruno Kayapi do Macaco Bong entrou no estúdio com Alexandre Facchini e saíram de lá com esse projeto instrumental 1000 Kicks on the Cocks. Conhecendo essas duas feras, a expectativa é grande e 4.20 não decepciona.
Para quem gosta de: Macaco Bong, Rage Agains the Machine, Bush
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21/02/2013

Lançamento - Edição Especial Defenestrada do Jornal Relevo


A Noite Defenestrada está aí. Nessa sexta-feira, dia 22/02, iremos comemorar nossos oito anos de blog lá no Wonka Bar. As atrações você já deve ter visto por aí (seja no topo da página do blog, ou no spam intensivo que temos feito no Facebook), mas não custa reforçar: show da espertíssima banda Audac. De brinde, Cavaquindie Sessions, peripécia em que os integrantes deste blog reinterpretam pérolas indie em versões pagodinho. Discotecagem de Gabriel Talamini, do blog A Volta, e do Defenestrando.

Mas ainda há uma coisa de que não falamos: o lançamento da edição especial defenestrada do Jornal Relevo.


Já no terceiro ano de vida, o Relevo destaca-se como importante veículo para publicações literárias. Poemas, contos e crônicas dão o tom do jornal, que circula mensalmente e é distribuído de forma gratuita.

Para comemorar o aniversário do Defenestrando, entramos em contato com Daniel Zanella, o homem à frente do Relevo, e propusemos o lançamento de uma edição especial com conteúdo editado pelo blog. Em vez de literatura pura, o conteúdo seria de viés mais jornalístico e musical. A ideia foi aceita, e, com ajuda de ótimos colaboradores, montamos o nosso jornal com vários textos que abordavam, das mais variadas formas, o ambiente da música em Curitiba. 

...e aí estão os colaboradores e pequenas prévias de seus textos.

- Cristiano Castilho, da Gazeta do Povo, em DJ Baco tinha um plano, sobre o Centro Acadêmico de Comunicação Social da UFPR, berço de bandas curitibanas importantes:
Já os veteranos jogavam Copas com um baralho amarelado e olhavam de soslaio quando um calouro se atrevia a colocar um CD no resistente, pichado, empoeirado, adesivado, maltratado aparelho de som. Era o ritual final. O Bar Mitzvah dos novatos. A Labyrinth Zone do Sonic. Você, puro de tudo, seria julgado pelo seu gosto musical. Quase sempre isso era divertido e, se o aparelho pré-histórico não cuspisse o disco antes, ele tocava mesmo. A consequência viria nos anos seguintes.
- Leonardo Bonassoli, também da Gazeta do Povo, em Ecos do fim do século passado, sobre o saudoso e explosivo cenário musical da capital paranaense dos anos 90:
Posso ficar enumerando estilos e seus representantes a tarde inteira, mas fico com alguns sons que ecoam até hoje no que ouço, o lado mais indie daquela Curitiba que chegou a ser chamada de Seattle Brasileira, mas, como a cidade do grunge é mais jovem, eu e meus amigos jocosamente chamávamos Seattle de a Curitiba norte-americana. 
Guga Azevedo, editor do PMC, em Curitiba rebola e não foge da transa, sobre a onda de funk carioca que tomou de assalto o lado descolado da música da cidade em meados da década passada:
Aqueles três moleques faziam quase uma hora de show sem pausas, em uma espécie de universo paralelo onde punks rasgados e sujos rebolavam até o chão em uma rave tocada por clássicos das extintas discotecas. Ironia atrás de ironia regadas a escatologia primitiva que não parava de bater e bater. Vinham na crista da onda de uma tendência mundial que estava prestes a estourar e propunha justamente um retorno tribal dos grandes centros urbanos, da moda, música e hábitos. Ninguém sabia disso, nem eles.
Ainda temos textos escritos pelo trio defenestrado, além de letras de autoria de Oneide Dietrich e Rosanne Machado. A ilustração da capa (imagem acima) é de Leandro Benyk, e as ilustrações internas são de Mayara Clebsch e Osvalter Urbinati.

A edição defenestrada do Jornal Relevo será lançada na Noite Defenestrada, que será realizada na próxima sexta-feira, 22/02, no Wonka Bar. Entrada a R$ 15. 

Clique aqui para confirmar sua presença no evento no Facebook. Para mais informações, dúvidas ou sugestões, entre em contato através dos comentários abaixo ou mande e-mail para defenestrandoblog[arroba]gmail.com


Nos encontramos lá!


*Em um futuro próximo, divulgaremos a lista com os pontos de distribuição do Relevo. Aguarde aí.

18/02/2013

A Volta: uma entrevista contínua

[Publicado originalmente em Outubro de 2012, aqui. Gabriel Talamini vai discotecar na Noite Defenestrada, próxima sexta-feira (22), quando haverá também show da Audac e Cavaquindie Sessions. Se quiser confirmar presença, basta ir até este link!]


É abril de 2012: termino um texto. Este texto, sobre Gabriel Talamini. Compartilho com o próprio, esperando alguma reação positiva pelo interesse. "Tem que mexer em algumas coisas", responde, seco. Meses depois, compreendo que precisava mexer em várias coisas.

É hoje, ou ontem, caso já tenha voltado para editar outra vez.

***

Estou no fim de semana passado. "Esse logotipo ficou legal, né", comenta Talamini. "Um amigo nosso fez, mexi um pouco e deu nisso. Gosto dele porque não deixa de ser uma volta sem fim". A referência vem do Triângulo de Penrose, aquele impossível, agora estilizado de cabeça para baixo.

"Desculpa não responder teu e-mail; tava numa correria absurda. Não conseguia nem postar!", conclui mês passado, com peso na consciência. "Não posso reclamar desses produtores que não me respondem, eu só consigo devolver um a cada cem e-mails; é foda". Depois me mostra Kindness, porque "esse disco tá muito bom".

Ainda é mês passado, e não recebo resposta de outro e-mail importante. É meses atrás, e ele não responde o e-mail em que recebia perguntas para uma eventual entrevista.

"Não conheço tanta gente que ouve música mesmo, o tempo todo, todo dia, que vai atrás de coisa nova. Mas vou voltar com meu blog!", ouço dezoito meses atrás. Criador do extinto Discopunk, com o qual acumulou credibilidade (e mais de três mil visitas diárias), Talamini quis recomeçar tudo quando desaprovou o rumo da própria página, isso enquanto sofria para passar na escola. Questão de fazer a volta.

É 2010, e eu o conheço enquanto escolho músicas no computador de um amigo.

***


Nascido em Pato Branco há 18 anos e alguns meses, ninguém chama Talamini pelo sobrenome na sua cidade natal. "Isso é coisa de curitibano", elucida Gabriel, que veio à capital aos 13, com a família.

Sua pouca idade não impede iniciativas profissionais, muito menos suaviza a distância entre o temperamento imprevisivelmente transitório da introspecção à extravagância. Dono de um olhar fundo, enganosamente desconcentrado, Gabriel, franzino, barba geralmente feita, cabelo curto, desfiado sem desfiar demais, chama atenção pela criatividade que surge ausente de procedência, acompanhado ou sozinho - e que pecado se não há ninguém para documentar.

Responsável pel'A Volta, ele não reage bem ao você não tem cara de quem administra um site daquele que escuta esporadicamente. "Não entendo isso", diz com desprezo. Para Gabriel, tudo é tão natural que surpreender-se soa absurdo. Natural como o carrinho de mercado ao lado da cama, num quarto que peço para ver pois, segundo ele mesmo, conhecer o quarto de uma pessoa é experiência única para conhecê-la melhor. Em frente à sua cama, há um baú cheio de adesivos musicais. Tudo fica guardado, discreto, sem alarde: até as poucas roupas jogadas no carrinho parecem assim dispostas por capricho.

"Queria muito morar na cabeça dele por uma hora, só pra ver como é lá dentro", comenta um amigo em comum. Mera observação rápida, todavia, esclarece que poucos aguentariam o ritmo, existisse a possibilidade de turistar em seu lobo frontal.

Ouço o disco do Kindness. "Já enjoei do disco do Kindness."

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No ar desde setembro do ano passado, A Volta não descarta estilos musicais, embora o hip hop surja com maior constância. O site monta mixtapes e listas, realiza entrevistas e acompanha diariamente o que pode surgir de válido num cenário musical efervescente. Gabriel também surge aos poucos em flyers de festa, conforme ganha espaço em discotecagens locais.

"O que algumas pessoas não entendem - e só vão entender daqui a anos -, é que o hip hop está acontecendo de uma maneira muito forte". Não ouso discutir: se alguém entende do gênero, é ele mesmo, e se alguém entende de tempo, é ele mesmo. Com absurdos 13 anos, Gabriel influenciava no hype de músicas internacionais através do Discopunk, desprovido de qualquer egolatria. "Fazemos tudo por livre e espontânea vontade, com o objetivo maior de facilitar o acesso dos brasileiros às novidades da música".

Não obstante, Gabriel nunca carregou o piano sozinho. Isabela Talamini, irmã e companheira no antigo blog, mais do que atualizar a página frequentemente, também idealizou A Volta. "Às vezes parece que somos eu e ela, e mais ninguém no mundo", ele me contará num dia anterior a hoje, ressaltando a relação de confiança que mantém com a parente mais velha.

"Depois do Discopunk, nós decidimos simplesmente fazer o que gostamos, sem nos prender a nada". Enquanto relógios não se arriscam a parar em meia volta, Gabriel Talamini comanda ponteiros: é difícil aguentar o ritmo de um lobo frontal capaz de ser eterno a qualquer momento.

É outubro: concluo este texto.